Por Lucas Freitas

                                                                                                                                                                                                                                                                                 

Criado por Mark Zuckerberg e mais um grupo de amigos ambiciosos, o Facebook foi de ferramenta para conectar universitários a um dos maiores impérios digitais do mundo. O que começou como uma brincadeira hoje tem um valor de mercado estimado em mais de R$ 400 bilhões e o número de usuários supera dois bilhões. Ou seja, praticamente um terço do planeta tem um perfil na rede social. Mas, apesar de toda essa aparência de grandiosidade, alguns acreditam que os anos dourados do Facebook podem estar chegando ao fim.

Logo após o fim da campanha presidencial americana, muitas pessoas passaram a questionar o papel do Facebook dentro do processo eleitoral. Parecia que uma fábrica de notícias falsas – daí vem a popularidade do termo “fake news” – havia se apossado da rede social e influenciado não só as eleições americanas, mas também diversas outras ao redor do mundo. E pior, suspeita-se que governos estrangeiros, como o russo, estariam participando dessa grande campanha pela desinformação, e tudo com a perturbadora omissão do Facebook. Mas se isso já não bastasse, logo depois veio o escândalo do vazamento de dados revelado pela imprensa e que ficou conhecido como “escândalo da Cambridge Analytica”. O Facebook é acusado de ter sido conivente com a manobra da empresa, que usou de um teste aparentemente inofensivo para sugar os dados de mais de 50 milhões de americanos, e depois usá-los na campanha de Donald Trump à Presidência para persuadir eleitores e influenciar o resultado eleitoral. Mark Zuckerberg precisou depor ao Congresso Americano, e o Facebook encolheu 20% na Nasdaq, a bolsa que concentra as maiores empresas de tecnologia dos Estados Unidos. Uma grande reviravolta para uma empresa que estava acostumada a ter apenas boas notícias.

Mas as suspeitas em relação às práticas da rede social não são de hoje. Em 2013 o ex-agente da National Security Agency Edward Snowden já havia revelado uma possível cooperação da rede social com o programa de vigilância em massa do governo dos Estados Unidos. O Facebook negou, e naquele momento sua alta popularidade fez com que passasse quase ileso. Mas desta vez parece que não vai sair tão barato assim. A sociedade parece estar reconhecendo o preço de viver em um mundo sem privacidade, e está cobrando ações. As manifestações contra o Facebook no dia da audiência de Zuckerberg no Congresso Americano com cartazes “Fix Facebook” (conserte o Facebook) seriam impensáveis há cinco anos. Convenhamos, o mundo mudou muito de lá para cá.

 

 

Após todo o alvoroço, a União Europeia aprovou regras mais rígidas em relação à privacidade e que estão passando a servir de modelo para o mundo todo, inclusive para o Brasil. Agora, antes de se cadastrar em qualquer site, o alerta de que suas informações pessoais serão usadas é maior. Antes era difícil entender as condições de uso, e isso é exatamente o que eles queriam.

Além de se enquadrar na lei, o Facebook parece comprometido em excluir as “fake news”, conteúdos considerados radicais e que visam polarizar a opinião pública. Porém, existem insatisfeitos com essa mudança de postura. Eles argumentam que essas ações podem minar o debate político dentro da rede social, uma forma de “censura”. Outros céticos argumentam que isso não passa de uma estratégia para recuperar a popularidade perdida nos últimos meses. De qualquer forma, tomar essas ações passou a ser uma necessidade para o Facebook, visto que o número de usuários que estão deixando a rede social e indo em busca de outras nunca foi tão grande. Um estudo conduzido pelo Pew Research Center mostra que cada vez mais os jovens estão deixando o Facebook e se cadastrando em outras redes como Instagram, YouTube e Snapchat.

Seja a migração para redes que fazem parte do aglomerado do Facebook, como o Instagram, ou para grandes concorrentes, como YouTube e Snapchat, o fato é que este movimento é de se preocupar. Dados mostram que os novos usuários do Facebook fazem parte de um público mais velho. Já os mais jovens parecem querer explorar outras redes, seja pela variedade de opções, seja pela imagem manchada do Facebook em vista dos últimos escândalos.

Em algumas regiões do mundo essa “migração digital” é ainda mais gritante, como na Ásia e em parte do Leste Europeu, onde a nova moda são as redes sociais VKontakte e Qzone. Ligadas aos governos russo e chinês respectivamente, essas redes priorizam trocas de fotos e músicas entre usuários em detrimento do debate político. Existe uma censura sistêmica, mas isso parece não incomodar os usuários, que optaram por usá-las e parecem não se animar muito com o “ocidentalizado” Facebook.

 

Conversei com dois estudantes de jornalismo, de 19 anos, sobre o Facebook, e eles deram suas perspectivas sobre o assunto:

Por que vocês acham que os jovens estão deixando o Facebook e indo atrás de outras redes sociais? O que as outras redes oferecem que o Facebook não?

Matheus: Estão deixando o Facebook pois há muita informação desnecessária circulando. O algoritmo também não é favorável. Outras redes sociais, como o WhatsApp, diferente do Facebook, por exemplo, trazem uma comunicação muito mais eficaz, rápida e direcionada.

Isabella: Acredito que os jovens estão se dando conta de que o Facebook não faz bem à saúde mental e procuram outras redes sociais que não sejam tão ilusórias quanto o Facebook.Vocês acreditam que essa recente conscientização da sociedade em relação à privacidade é apenas momentânea?

Matheus: Não. Conforme a exposição é exacerbada, a vida privada se mistura com a pública e é ruim.

Isabella: Espero que não.

Que atitudes deveriam ser tomadas por governos, empresas e a sociedade de um modo geral para garantir maior privacidade na internet?

Matheus: Acho que o marco civil foi uma lei importante. Contudo, é necessário uma abordagem educacional mais eficaz sobre tecnologia, privacidade, comportamento e ética.

Isabella: Um controle mais rígido em relação o que pode ou não ser compartilhado nas redes sociais.

Recentemente vimos uma campanha que tenta encorajar as pessoas a saírem do Facebook e de outras redes sociais. Vocês concordam com essa posição ou a consideram muito radical? Acabar com as redes sociais traria mais benefícios ou malefícios?

Matheus: Acho que cada um deve fazer o que acha melhor. Por isso não concordo nem discordo. Acabar com as redes sociais traria benefícios para alguns e malefícios para outros, pois, além da proposta de socialização e prestação de serviços, as redes sociais também possuem nuances perigosas, sendo negativas as mesmas qualidades. O modo de uso é determinante.

Isabella: Eu concordo totalmente com a campanha e inclusive aderi a ela. Não possuo nenhuma rede social e só vejo benefícios nisso. Não me sinto desconectada das pessoas, pelo contário, penso que me sinto mais próxima das pessoas realmente. Recomendo a todos que tenham a possibilidade saírem das redes sociais também.

 

 

 

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