Robôs-dublês roubam a cena

Atores de metal da Disney mostram que tecnologia vem tomando o lugar dos humanos

Por Maria Clara Vieira

Há muito se discute a tecnologia e o espaço que ela vem adquirindo no cotidiano. Apesar dos benefícios propiciados pelas inovações, existem diversos problemas gerados também por elas. Desde os séculos 18 e 19, principalmente na Europa, a onda tecnológica vem ocupando lugares que, a princípio, eram exclusivamente humanos.

Ainda hoje, esse quadro persiste. Porém, não apenas com as máquinas a vapor. O trabalho humano vem perdendo cada dia mais seu lugar para utensílios e robôs que realizam a mesma atividade, às vezes até melhor. O Fórum Econômico Mundial estima que até 2020 perderemos cinco milhões de empregos no mundo. Além disso, o empresário Elon Musk, criador das marcas Tesla (carros elétricos) e SpaceX (empresa de sistemas aeroespaciais e de serviços de transporte espacial), acredita que o ser humano vai perder sua função para a tecnologia muito em breve.

No universo cinematográfico, o cenário é o mesmo. Recentemente, a Disney lançou robôs-dublês, os chamados Stuntronics (uma brincadeira com a palavra stun, que significa dublê em inglês e eletronics). Além de movimentos simples, os “atores de metal” serão capazes de realizar operações que para um humano podem ser bem difíceis. As máquinas serão capazes de imitar cenas explosivas de ação, incluindo acrobacias aéreas. Além disso, poderão aguentar um esforço físico impossível para seres humanos: serão eficientes o bastante para correr centenas de vezes por dia, todos os dias. O objetivo inicial do projeto é usá-lo em parques temáticos da rede, porém a tecnologia pode acabar sendo usada também nos filmes.

 

Face do robô similar à de um humano. Crédito: YouTube

 

Para o analista e programador de sistemas João Guilherme Barbosa, os robôs-dublês realmente virão a dominar essa função que é exercida por humanos. Apesar de acreditar que essa é uma boa forma de prevenir acidentes em filmagens, João Guilherme aponta para um problema quanto a essa técnica: “Os robôs são programados para fazer determinados movimentos. Para cada cena, provavelmente, é utilizada uma programação diferente. Dessa forma, um mesmo robô não poderá ser utilizado em cenas distintas”, afirma.

Artefatos como esses não são uma realidade apenas no universo Disney. No Japão, a robô Geminoid F estreou nos palcos e atuou por 20 minutos ao lado de uma atriz real. A máquina ficou o tempo todo sentada e foi controlada por uma humana que estava fora da cena. A atriz de verdade relatou em entrevista que se sentiu sozinha no palco. Já o diretor da peça mostrou-se entusiasmado com a novidade e com a possibilidade de controlar seus atores.

Para a estudante do quarto período de licenciatura em teatro da Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro) Nicole Houly, a substituição humana por robôs-dublês esconde uma grande problemática, uma vez que essa é uma função que gera empregos e que, claramente, é executável por humanos. Ela acredita que esse processo interfere no incentivo ao desenvolvimento dessas habilidades e desse trabalho, e impossibilita o crescimento profissional de muitas pessoas.

Um relatório apresentado pelo “TechCrunch”, um website focado em notícias sobre tecnologia e afins, mostra os avanços que a Disney fez na área tecnológica. O projeto dos robôs-dublês foi planejado visando máquinas que se parecessem com humanos e que fossem capazes de, por meio de sensores internos, realizarem manobras em pleno voo e atingissem poses clássicas de super-heróis como os da Marvel. Além disso, o site afirma que esses robôs, que circularão por parques da rede, estão mais flexíveis e interativos, mais “vivos do que estáticos”. Tudo isso, ainda segundo o portal, influencia a maneira como vimos os robôs e pensamos sobre eles.

Apesar de tudo isso, para João Guilherme a inteligência artificial está distante de realmente tomar o lugar dos seres humanos. “Por mais que os robôs exerçam algumas funções físicas que os seres humanos realizam (levantar caixas e embalar produtos, por exemplo), eles não conseguem pensar. Existe uma simulação de pensamento, que algumas assistentes pessoais artificiais (como a Siri da Apple ou a Cortana da Windows) fazem que são simplesmente alguns algoritmos. Elas captam diversas palavras separadas e, de acordo com a identificação dessas palavras, começam a associar e executar algumas funções. Mas tem diversas coisas que ainda estão muito longe de serem feitas por esses utensílios eletrônicos”. Ele acredita que, apesar de levar profissões à extinção, a tecnologia também possibilita que outras funções sejam criadas. “Se existe um robô que tirou alguma profissão, ele vai ter que passar por manutenções, logo vai ser necessário alguém que saiba fazer essa manutenção, aí já entra outro cargo”, completa.

 

Testes realizados nos robôs-dublês. Crédito: Daily Mail

 

Sobre essa situação, Nicole acredita que devemos manter os olhos e nosso criticismo preparados para lidar com esse tipo de mudança que usa um disfarce de progresso tecnológico.

O vídeo a seguir apresenta o projeto em sua fase de preparação e adaptação: https://www.youtube.com/watch?v=ENa98h7M7qY

Nesse vídeo, são mostrados robôs desenvolvidos para os parques nas instalações do filme “Avatar”: https://www.youtube.com/watch?v=bFU9Qg_6EsY

 

 

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