Ciência brasileira sob ameaça

Cortes orçamentários impactam negativamente a retomada do crescimento econômico

 Por: Ana Victoria Salerno

O orçamento da área de ciência, tecnologia, inovação e desenvolvimento sofreu um corte de 10% em 2018. Segundo cálculos do próprio MCTIC (Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações), o exato valor do contingenciamento é de R$ 477 milhões, o que significa que que a pasta tem, atualmente, um orçamento de R$ 4 bilhões, menos da metade do de 2010, que totalizava R$ 10 bilhões (em valores atualizados).

Os cortes geraram preocupações tanto na sociedade em geral quanto na comunidade científica brasileira e do exterior. Diversos cientistas renomados, ganhadores do Prêmio Nobel, assinaram uma carta destinada ao presidente Michel Temer na qual repudiaram o corte e alertaram sobre as futuras consequências e danos que a falta de investimento na ciência poderá gerar.

O financiamento público é essencial para que áreas como saúde e educação se desenvolvam no país. As ciências formam uma base de toda a tecnologia que poderá ser produzida e aplicada em diversos setores.

Charge Por Thiago Silva

 

“O crescimento econômico de um país depende daquilo que ele é capaz de produzir”, explica Ricardo de Oliveira Vella, cientista político formado pela USP. “Quando dizemos que ciência não se trata de um gasto, mas sim um investimento, queremos dizer que se investirmos, por exemplo, R$ 10, são gerados R$ 35 na forma de desenvolvimento socioeconômico”, exemplifica Vella.

Os efeitos dos cortes são extensos. Desde a possibilidade de novas vacinas e medicamentos serem descobertos até a produção de tecnologias para os setores de agricultura e indústria. O que acaba acontecendo é que o país fica dependente de tecnologias estrangeiras, e verbas para poder importar o que é incapaz de produzir nacionalmente.

Além disso, Ricardo acredita que há uma grande probabilidade que diversos laboratórios fechem. Os pesquisadores se encontram em uma situação complicada, pois não conseguem tocar seus projetos e ficam sem emprego. Muitos deixam o Brasil e diversos jovens estudantes abandonam a carreira científica. “Isso é muito triste, especialmente por que o Brasil passou por um período de crescimento tecnológico muito bom há uns anos. Com os cortes, muitos futuros cientistas se sentem inseguros e desencorajados, e acabam abandonando ou o país ou a carreira”, acrescenta.

A falta de investimento em uma área tão essencial já pode ser sentida por diversos jovens que procuram emprego no Brasil. Filipe Soares e Castro, 38, é formado em engenharia mecatrônica pelo Instituto Mauá, passou seis anos na Alemanha, onde realizou seu mestrado em energias renováveis pela Faculdade de Potsdam. Mesmo com uma formação privilegiada e muito completa, enfrenta muitos obstáculos para conseguir um trabalho. “Eu teria ficado na Alemanha, mas não tenho passaporte europeu e tive que voltar. Já estou no Brasil há dois meses e não consegui ainda nenhum trabalho na minha área. Minha formação é muito específica, e simplesmente não há vagas disponíveis”, lamenta Filipe.

Presidente da Comissão de Ciência e Tecnologia, o senador Otto Alencar, prometeu que será avaliada a possibilidade de apresentar um novo orçamento para 2019, realocando novos recursos para o setor.

Créditos: Conhecimento Sem Cortes

O site Conhecimento Sem Cortes disponibiliza um Tesourômetro que indica, em tempo real, quantos reais o Governo já cortou do orçamento para a ciência e tecnologia e para as universidades públicas. Também é possível, na página, assinar uma petição para parar com os cortes.

 

 

 

 

 

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