Desde o fim dos anos 1990, a evolução tecnológica vem sendo crucial para o êxito em competições.

Por Luca de Oliveira Machado

 

Foto: Rafael Ribeiro / CBF

Os debates sobre a implantação de tecnologia no futebol para acabar com os erros de arbitragem vêm crescendo a cada segundo, principalmente após o início dos treinamentos da CBF. Entretanto, a utilização de tecnologia não se resume a apenas um esporte e vai muito além dos erros dos juízes: desde o uso do GPS para monitorar o atleta a uma touca para nadadores deficientes visuais que, emitindo um alerta vibratório, os avisa o momento em que devem mudar de direção e fazer a volta na piscina.

Foto: Arquivo Pessoal

De acordo com o dono e fundador da assessoria esportiva?—?pioneira em preparação para corrida de rua em São Paulo?—?Run & Fun, Mário Sérgio Andrade Silva, o principal marco que transformou o treinamento dos esportistas como um todo foi a possibilidade de medir a frequência cardíaca. “Naquela época, teve um salto muito grande na tecnologia que foi a possibilidade de se marcar a frequência cardíaca. Então, eu acho que isso foi um fator muito importante e um diferencial muito grande. Na época, a Polar, que é uma empresa finlandesa, começou a fazer os monitores, os relógios, que captavam os batimentos do coração quando você usava a cinta, né. Então, você usava uma cinta e ela transmitia pelo receptor?—?o relógio era o receptor e a cinta era o transmissor . E isso foi uma mudança absurda. Eu acho que eu já peguei uma geração de treino que a turma usava isso”, conta Mário Sérgio.“Virou que nem Gillette, um sinônimo de um aparelho. A gente perguntava: ‘Quanto é que tá marcando teu Polar aí?’”, completa.

Sobre os treinamentos montados pela assessoria, Mario Sérgio explica que a tecnologia também já está muito presente e evoluiu muito com o surgimento dos GPS’s da Garmin, empresa americana de tecnologia. “A Polar foi bem reduzida e Garmin dominou o mercado com o GPS, que daí era o sonho de todo corredor, porque marca tudo, né”, afirma o dono da Run & Fun. “Eu acho que a questão do Garmin nos auxilia muito, porque a maioria dos corredores tem. Então, com isso, eles mandam pra gente os resultados dos treinos e a gente consegue ter uma análise bem legal de como tá indo. Acho que a tecnologia ajuda muito nos testes feitos em campo, que ajudam a trazer pra nós estudos muito interessantes. Por exemplo, teste de lactato. Nele, você tira o sangue durante um esforço, você tem um protocolo que você dá vários tiros e tira o sangue a cada tiro, a cada exercício feito. E aí, você consegue, com isso, medir teu ritmo, o quanto você consegue de lactato e faz uma previsão do tempo do atleta na maratona”, completa.

Segundo ele, recentemente, o estudo da biomecânica se desenvolveu e é muito importante no cenário da corrida. “Outra questão é a da biomecânica. Há laboratórios hoje que fazem a análise da corrida em 3D. Então, você consegue ver depois, quadro a quadro, como é que o corpo dele está trabalhando. Ou seja, a inclinação do tronco, o trabalho do braço, a passada, aonde tá entrando a passada, se tá entrando abaixo de você ou à frente de você, quantos centímetros está à frente. Então, nós estamos vendo uma fase de cada vez mais conhecimento e o treinador e o atleta tendo cada vez mais subsídios para poder verificar o treino, a prova e o desenvolvimento do praticante”, diz.

Além disso, todos os esportes utilizam diversos modos de preparação, que abrangem a alimentação, o fortalecimento dos músculos, a previsão de lesões e etc. Inclusive, nos clubes de futebol brasileiros, é muito comum ver jogadores sendo poupados de partidas por ordem dos preparadores físicos. Os especialistas geralmente detectam um desgaste físico acima do normal e buscam prevenir os atletas de uma possível lesão.

Jesse Owens

Juntamente com a tecnologia usada para preparar o físico dos desportistas, os equipamentos se desenvolveram muito desde o início dos anos 1990. Hoje, são muitas as tecnologias capazes de maximizar o rendimento esportivo dos atletas, como por exemplo as moderníssimas bicicletas, que tiveram evoluções de suas rodas até a roupa sob medida utilizada pelo ciclista, ou até as sapatilhas dos praticantes do atletismo. O primeiro a contar com uma sapatilha foi Jesse Owens, nos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936. O americano se aproveitou de um novo modelo da Adidas e ganhou quatro medalhas de ouro nas competições disputadas na Alemanha.

Além do mais, a tecnologia é muito presente nos esportes paraolímpicos. Mário Sérgio ainda diz que, apesar de não trabalhar com treinos do esporte paraolímpico, a evolução está acontecendo e a melhoria é constante. “Eu vejo, por exemplo, que no caso da corrida de cadeira de rodas é muito da evolução da própria cadeira, que está cada vez mais aerodinâmica. As próteses também”, afirma. “Isso é o começo de uma curva que mostra que os paraolímpicos que usam prótese, devido à evolução da prótese e de sua adaptação às pessoas, vão correr melhor dos que os não-deficientes”, continua.

O sul-africano Oscar Pistorius foi o primeiro deficiente físico a disputar uma edição dos Jogos Olímpicos contra atletas não-deficientes, em Londres. O atleta chegou às semi-finais, porém não classificou para a próxima fase da competição dos 400 metros. No entanto, teve um final melancólico em sua carreira: foi condenado a 6 anos de prisão pelo assassinato de sua namorada, Reeva Steenkamp.

Oscar Pistorius em competição pela África do Sul. (Foto: Getty Images)

Todos os esportistas de alto rendimento contam com analistas de desempenho. Tais profissionais ficam responsáveis, dentre suas funções, por explorar o mundo da modalidade a qual disputam e buscar pontos fortes e fracos do atleta que treinam, de seus adversários e, quando há um elenco, como no basquete ou futebol, sugerir novas contratações à diretoria do clube. Com a modernização do mundo e os diversos aparatos tecnológicos, isto torna-se fundamental no dia-a-dia do esporte e na preparação para competições internacionais. O goleiro alemão Jens Lehmann, por exemplo, ficou famoso na Copa do Mundo de 2006, disputada na Alemanha, ao utilizar um papel com informações de como os batedores adversários costumavam cobrar suas penalidades. O arqueiro defendeu duas cobranças dos argentinos e levou seu país à próxima fase do torneio.

Por fim, Mário Sérgio diz que não vê o fim de toda essa evolução. “Eu vejo, então, um começo de uma evolução onde eu acho que todo ano vai ter coisa nova, para transformar o corredor cada vez mais num ser monitorado, igual a o que é um carro de Fórmula 1 hoje. Não sei, talvez estejamos caminhando pra, em breve, nem precisar de relógio para isso”, termina.

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