A tecnologia esportiva na preparação dos atletas

Ex-atleta e dono da assessoria Run & Fun, Mário Sérgio Andrade Silva destaca que o corredor está "cada vez mais monitorado" no mundo moderno e tecnológico do esporte

 

Por Luca de Oliveira Machado

Foto: Rafael Ribeiro / CBF

Os debates sobre a implantação de tecnologia para acabar com os erros de arbitragem no futebol vêm crescendo a cada segundo, principalmente após o uso do Árbitro de Vídeo em competições como a Copa do Mundo. Entretanto, a utilização de tecnologia não se resume a apenas um esporte e à busca de mecanismos para reverter equívocos de juízes. De GPS para monitorar corredores a toucas de natação que emitem alertas vibratórios para deficientes visuais, há recursos cada vez mais avançados para melhorar o desempenho de atletas e aperfeiçoar as mais diversas práticas esportivas.

De acordo com Mário Sérgio Andrade Silva, ex-atleta, dono e fundador da assessoria esportiva Run & Fun—pioneira em preparação para corrida de rua em São Paulo—, o principal marco que transformou o treinamento dos esportistas como um todo foi a possibilidade de medir a frequência cardíaca. “Um salto muito grande na tecnologia foi a possibilidade de se marcar a frequência cardíaca. Eu acho que isso foi um fator muito importante e um diferencial muito grande. Na época, a Polar, que é uma empresa finlandesa, começou a fazer os monitores, os relógios, que captavam os batimentos do coração quando você usava a cinta. Então, você usava uma cinta e ela transmitia pelo receptor—o relógio era o receptor e a cinta era o transmissor . E isso foi uma mudança absurda.”, conta Mário Sérgio.

Mário Sérgio Andrade Silva. (Foto: Arquivo Pessoal)

Sobre os treinamentos montados pela assessoria, Mario Sérgio explica que a tecnologia também já está muito presente e evoluiu muito com o surgimento dos GPS’s da Garmin, empresa americana de tecnologia. “Eu acho que a questão do Garmin nos auxilia muito, porque a maioria dos corredores tem. Então, com isso, eles mandam para a gente os resultados dos treinos e a gente consegue ter uma análise bem legal de como está indo. Acho que a tecnologia ajuda muito nos testes feitos em campo, que ajudam a trazer para nós estudos muito interessantes.”, diz Mario Sérgio. “Por exemplo, teste de lactato. Nele, você tira o sangue durante um esforço, você tem um protocolo pelo qual você dá vários tiros e tira o sangue a cada tiro, a cada exercício feito. E aí, você consegue, com isso, medir teu ritmo, o quanto você consegue de lactato e faz uma previsão do tempo do atleta na maratona”, completa.

Segundo ele, recentemente, o estudo da biomecânica se desenvolveu e é muito importante no cenário da corrida. “Há laboratórios hoje que fazem a análise da corrida em 3D. Então, você consegue ver depois, quadro a quadro, como é que o corpo dele está trabalhando. Ou seja, a inclinação do tronco, o trabalho do braço, a passada, aonde está entrando a passada, se está entrando abaixo de você ou à frente de você, quantos centímetros estão à frente. Então, nós estamos vendo uma fase de cada vez mais conhecimento e o treinador e o atleta tendo cada vez mais subsídios para poder verificar o treino, a prova e o desenvolvimento do praticante”, diz.

Além disso, todos os esportes utilizam diversos modos de preparação, que abrangem a alimentação, o fortalecimento dos músculos, a previsão de lesões e muitos outros. Inclusive, nos clubes de futebol brasileiros, é muito comum ver jogadores sendo poupados de partidas por ordem dos preparadores físicos. Os especialistas geralmente detectaram um desgaste físico acima do normal e buscam prevenir os atletas de uma possível lesão.

Juntamente com a tecnologia usada para preparar o físico dos desportistas, os equipamentos se desenvolveram muito desde o início dos anos

Jesse Owens (Foto: Reprodução)

1990. Hoje, são muitas as tecnologias capazes de maximizar o rendimento  dos atletas, como  as moderníssimas bicicletas, que tiveram uma evolução imensa nas rodas,  até a roupa sob medida utilizada pelo ciclista. No atletismo, um dos destaques são as  sapatilhas. O primeiro a contar com elas foi Jesse Owens, nos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936. O americano aproveitou-se de um novo modelo da Adidas e ganhou quatro medalhas de ouro nas competições disputadas na Alemanha.

Além do mais, a tecnologia é muito presente nos esportes paraolímpicos. Mário Sérgio diz que, apesar de não trabalhar com treinos do esporte paraolímpico, a evolução está acontecendo e a melhoria é constante. “Eu vejo, por exemplo, que no caso da corrida de cadeira de rodas é muito da evolução da própria cadeira, que está cada vez mais aerodinâmica. As próteses também”, afirma. “Isso é o começo de uma curva que mostra que os paraolímpicos que usam prótese, devido à evolução da prótese e de sua adaptação às pessoas, vão correr melhor dos que os não deficientes”, continua.

O sul-africano Oscar Pistorius foi o primeiro deficiente físico a disputar uma edição dos Jogos Olímpicos contra atletas não deficientes, em Londres. O atleta chegou às semifinais, porém não se classificou para a próxima fase da competição dos 400 metros. No entanto, teve um final melancólico em sua carreira: foi condenado a seis anos de prisão pelo assassinato de sua namorada, Reeva Steenkamp.

Oscar Pistorius em competição pela África do Sul. (Foto: Getty Images)

Todos os esportistas de alto rendimento contam com analistas de desempenho. Tais profissionais ficam responsáveis, dentre suas funções, por explorar o mundo da modalidade a qual disputam e buscar pontos fortes e fracos do atleta que treinam, de seus adversários e, quando há um elenco, como no basquete ou futebol, sugerir novas contratações à diretoria do clube. Com a modernização do mundo e os diversos aparatos tecnológicos, isto se torna fundamental no dia a dia do esporte e na preparação para competições internacionais. O goleiro alemão Jens Lehmann, por exemplo, ficou famoso na Copa do Mundo de 2006, disputada na Alemanha, ao utilizar um papel com informações de como os batedores adversários costumavam cobrar suas penalidades. O arqueiro defendeu duas cobranças dos argentinos e levou seu país à próxima fase do torneio.

Mário Sérgio diz que não vê o fim de toda essa evolução. “Eu vejo, então, um começo de uma evolução onde eu acho que todo ano vai ter coisa nova, para transformar o corredor cada vez mais num ser monitorado, igual ao que é um carro de Fórmula 1 hoje. Não sei, talvez estejamos caminhando para, em breve, nem precisar de relógio para isso”, termina.

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