REFLEXOS DE UMA GERAÇÃO

Ficção científica pode nos mostrar mais do que imaginamos sobre a realidade

 

Por Catarine Figueiredo

Séries são fortemente consumidas nessa nova geração de televisão e ,com frequência, servem de ferramenta para abordar assuntos importantes ou polêmicos de uma forma um pouco mais singela atingindo o público com maior eficácia possível para melhor expor esses temas.

O gênero de ficção científica vem se fortalecendo e o que pouca gente sabe ou acaba esquecendo é que ele existe há bastante tempo e é conhecido por atrair grandes públicos, a maioria em um seguimento cult e inspirar especulação em massa.

Primeiramente, é crucial que saibamos o que é ficção cientifica e a sua definição. Segundo o dicionário Houaiss, “ficção cientifica é uma obra cujo enredo especulativo, imaginário se baseia de um modo plausível ou viável em conhecimentos científicos da atualidade”. Em palavras mais simples, tudo que envolva tecnologia atual. Ele apresenta histórias fictícias e fantásticas, mas cuja fantasia possa ser plausível, quer seja em uma época e local distantes ou próximos.

Antes de o gênero se tornar famoso no meio televisivo, ele tomou conta do cinema. O crítico de cinema Marcelo Lyra nos conta que o tema foi usado pela primeira vez em 1903, pelos irmãos Meliés quando lançaram seu primeiro filme “Viagem a Lua” e este, por consequência, foi considerado o primeiro filme sobre ficção cientifica. A obra foi inspirada nos livros “Da Terra a Lua” de Júlio Verne” e “Os Primeiros Homem da Lua” de H.G. Wells. Depois de obter sucesso de público, aos poucos o gênero foi introduzido dentro da televisão e teve seu ápice com o chegar no inicio dos anos 60, com a conquista do espaço pelo homem.

A corrida espacial fez com que as series de ficção científica se popularizassem sendo capaz de atingir, se não o mundo inteiro, grande parte dele. Entre as principais séries que viralizaram estão “Terra de Gigantes” (1960), “Túnel do Tempo” (1960), “Jornada nas Estrelas” (Star Trek, 1966) e “Além da Imaginação” (Twilight Zone, 1959), todas com temáticas relacionada à corrida espacial. Uma das únicas de ficção científica, sem ter o espaço como tema principal era “O Dia em que a Terra Parou” (1951) que vinha como alerta à humanidade sobre a construção e o uso de armas atômicas. “Túnel do Tempo” (1960) e “Viagem ao Fundo do Mar” (1961) também faziam parte desse time.

A série “Jornada nas Estrelas” é uma das que possuem mais importância visto o momento histórico de quando se iniciou a sua produção. Seu enredo envolve as aventuras da tripulação da nave estelar USS Enterprise, comandada pelo Capitão James T. Kirk (americano), o Primeiro Oficial Comandante Spock (Vulcano) e o Oficial Médico Chefe Leonard McCoy no século 23. Além dos comandantes, sua tripulação é formada por uma diversidade cultural considerável que inclui uma negra, um russo e um irlandês. Segundo Marcelo Lyra, visto que o mundo estava vivendo a Guerra Fria, foi uma forma de expor um futuro sem fronteiras inimigas. Além disso, o crítico também nos conta que a série apresentou o primeiro beijo inter-racial nas telinhas entre o comandante Kirk (branco) e sua oficial Uhura (negra) e foi também uma das primeiras vezes em que se viu uma mulher negra na tv e ela não interpretava uma empregada. Inclusive Martin Luther King Jr incentivava a atriz que interpretava Uhura na época, pois era uma inspiração para a juventude negra.

 

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Embora o principal atrativo das séries fosse seus temas voltados ao “boom” espacial, existiam produções que mesclavam os gêneros, como “Alfie”. Produzida nos anos 80, tinha como protagonista um alienígena, mas apesar de ser uma série de ficção, era também classificada com comédia.

A temática espacial correu bem consolidada até meados dos anos 2000, quando começam a introduzir outros temas como desenvolvimento da tecnologia, reflexos do futuro, apocalipses e distopias. Dentre as mais famosas estão “Lost” (2004), “Fringe” (2008) “Black Mirror” (2011), “Ricky e Morty” (2013), WestWorld (2016), “Arquivo X”, “Stranger Things” (2016), “Orphan Black” e o mais recente remake “Perdidos no Espaço”. Muitas delas mesclam comédia, suspense e incluem até fantasia.

“Lost” foi uma das pioneiras na explosão de séries com misturas de gêneros na geração 2000. Com uma mescla de drama e ficção cientifica, seguiu a vida dos sobreviventes de um acidente aéreo numa misteriosa ilha tropical, após o avião que viajava de Sydney, Australia para Los Angeles, Estados Unidos cair em algum lugar do oceano pacífico.

Apesar da explosão de grandes variedades de serie científicas, existem algumas que se mantêm firme e forte mesmo com a introdução de novos temas como “Doctor Who” (1963) que mantém a temática espacial.

Além da permanência do tema, há uma certa semelhança entre as séries produzidas atualmente e as dos anos 60. “Black Mirror” é uma delas. A série produzida pela Netflix (lançada em 2011) apresenta situações que se assemelham ao contexto de “A ilha da Imaginação” (1959), por serem episódios independentes e tratarem de temas futurísticos, além de usarem metáforas para explicar questões sociais mostrando os aspectos da sociedade atual (da época em Ilha da Imaginação). Lyra comenta que esta não é a primeira vez que isso ocorre, que muitas outras séries atuais fazem releituras das mais antigas, o que faz com atraia tanto o público jovem quanto de gerações mais antigas de de telespectadores.

Fazendo jus ao tema de ficção cientifica, com o avanço da tecnologia, séries animadas também passaram a tratar do assunto como “Ricky e Morty”. A animação trabalha com produções focadas em futuros distópicos e desenvolvimentos um tanto quanto depressivos e violentos da tecnologia. Bem-humorada, mas não menos crítica, a trama discute a sociedade moderna em universos paralelos que envolvem aparatos tecnológicos, espaçonaves, veículos voadores, alienígenas, modificações genéticas e robôs ultra inteligentes.

Umas das mais famosas, principalmente entre o público jovem é “Stranger Things”, por ter como protagonistas crianças de 11 anos. A série se passa na cidade rural fictícia de Hawkins, em Indiana, nos Estados Unidos, durante a década de 1980. O Laboratório Nacional de Hawkins, nas proximidades, realiza pesquisas científicas para o Departamento de Energia dos Estados Unidos, mas, secretamente, realiza experimentos paranormais e sobrenaturais, incluindo experimentos que envolvem pessoas em testes humanos. Essas experiências começam a afetar os moradores inconscientes de Hawkins de maneira calamitosa. Essa é uma serie que faz uma declaração de amor aos clássicos sobrenaturais dos anos 80 ao mesclar ficção e fantasia. No final de 2017, a Netflix renovou a série para uma terceira temporada que terá oito episódios, mas ainda não possui data de estréia.

Dentre outras que misturam gêneros, está “Orphan Black” com um suspense, drama e biologia.

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E não são só as industrias americanas que estão crescendo. Muitas séries brasileiras então ganhando destaque no cenário televisivo, entre elas “3%”, uma serie 100% brasileira produzida e exibida pela Netflix. Com um toque de drama, a série apresenta um mundo pós-apocalíptico, depois de diversas crises que deixaram o planeta devastado. A serie já foi renovada até a terceira temporada.

Com a situação de caos em muitas partes do mundo, são e serão cada vez mais comuns temas como crises, possíveis apocalipses e as transformações provocadas pela tecnologia. Marcelo Lyra complementa “que as series refletem a cultura da época da sociedade”, e isso está mais que claro desde que houve o surgimento das series e não só nas de ficção cientifica, mas de qualquer gênero. Diga-se pelo “boom” espacial, nos anos 60, pelas crises atuais e pelas perspectivas do futuro.

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