Mulheres são minoria no mercado dos jogos digitais

Pesquisa feita pela Game Brasil, empresa especializada em consumo e cotidiano, aponta que mulheres já são as principais usuárias, embora preteridas em torneios

Uma questão muito polêmica que rodeia o cenário dos games digitais é a representação feminina. Desde jogos clássicos, como Mario Bros., as mulheres são em sua maioria retratadas com vulnerabilidade, vulgaridade ou falta de utilidade.

Como toda indústria em pleno século 21, vemos algumas mudanças no cenário para incluir e até fortalecer a presença feminina. Jogos clássicos ficam de fora dessas mudanças, considerando que foram lançados antes de 2000 e embora na época já houvesse movimentos feministas, a maior parte dos consumidores eram homens.

Uma pesquisa feita pela Game Brasil, empresa especializada em pesquisas de consumos e hábitos, diz que as mulheres já são maioria entre os gamers. De acordo com o levantamento, 53,6% dos jogadores no país são do sexo feminino. Especificamente no estado de São Paulo, o número é ainda maior, pois elas comandam o controle em 62% dos casos.

Porém, nota-se que de todas essas garotas que jogam, menos de 3% participa do cenário competitivo. Existem diversos fatores que prejudicam a entrada da mulher no ramo dos Jogos Digitais, e o principal deles é o machismo, fazendo com que mulheres não optem por esse mercado, pelo simples fato de não serem aceitas e reconhecidas.

Antes de entrar em produções já conhecidas e amadas pelo público gamer, vale ressaltar que a segunda parte do jogo The Last of Us trouxe um teaser repleto de empoderamento. Na segunda edição do game, a protagonista será Ellie (que até então, já era uma personagem com forte carisma, personalidade e claro, utilidade) e cenas divulgadas não mostram apenas a sua excelência para matar e escapar, como reforçam o fato da personagem ser lésbica. Obviamente o público machista criticou imensamente a presença do beijo homossexual no trailer, mas isso não impediu a produtora Naughty Dog de aplaudir o próprio trabalho, pois diversas empresas anteriormente mudaram seu enredo por conta de críticas machistas.

Aqui estão alguns exemplos simplificados de jogos atuais e clássicos e suas representações femininas:

Mário Bros.

Mario Bros. é um jogo eletrônico de plataforma para arcades criado pelo japonês Shigeru Miyamoto e desenvolvido pela Nintendo Research & Development 1 e publicado pela Nintendo em 1983.
A produção apresenta dois encanadores, Mario e Luigi, tendo que investigar o aparecimento de estranhas criaturas nos encanamentos de Nova Iorque.

Mario é retratado como um encanador italiano baixinho, rechonchudo e bigodudo vindo do Brooklyn que reside no Reino dos Cogumelos. O protagonista tem a missão de resgatar a Princesa Peach do vilão Bowser e impedir seus diversos planos de destruir e dominar o reino.
Se já não bastasse a personagem feminina do jogo ser retratada como frágil, pois precisa ser resgatada, algumas versões do jogo mostram ela como uma pessoa “burra” que repetidamente cai nas garras do vilão, tornando a jornada mais extensa e difícil.

Lara Croft: Tomb Raider

O jogo Lara Croft: Tomb Raider foi desenvolvido pela Core Design e publicado pela Eidos Interactive. Foi lançado originalmente em 1996 para o Sega Saturn, e depois para o MS-DOS e PlayStation.
Embora seja um jogo considerado clássico, foi uma das personagens femininas mais marcantes da história, porém sempre apresentada com roupas curtas. Mas vale ressaltar que a jornada da personagem a mostra como uma pessoa independente e totalmente capaz de alcançar seus objetivos, embora suas coxas estejam sempre descobertas.

League of Legends

League of Legends é um jogo da Riot e, atualmente, o jogo mais jogado do mundo. A franquia é uma das mais reconhecidas, considerando que existem campeonatos mundiais que lucram milhões por ano.
O jogo possui 141 personagens, sendo apenas 48 do do sexo feminino. Se já não bastasse a gritante diferença, todas são retratadas com vulgaridade e vulnerabilidade. Personagens fortes são mostradas com desdém, e apenas uma delas é assumidamente homossexual. Essa questão abrange também um fator muito importante, onde mostra a mulher como um ser sem utilidade e sem iniciativa, refletindo fortemente também no mercado consumidor do jogo, onde mais de 80% dos jogadores são homens, que na maioria dos casos, menosprezam mulheres por estarem jogando o mesmo jogo.

Overwatch

A empresa Blizzard Entertainment lançou recentemente um jogo chamado Overwatch onde há um grande avanço referente a imagem feminina. Em um geral, as personagens são retratadas como independentes, fortes e inteligentes. Obviamente que sempre há traços de machismo e exclusão da minoria (mulheres, no caso), porém a iniciativa da empresa já é extremamente valorizada pelo mercado, influenciando todos os gêneros a usufruir do game.

Mulheres no Cenário Competitivo e Profissional

Além do machismo mostrar-se presente em todos os ramos profissionais, no ramo dos jogos não seria diferente. Não existem competições femininas para mulheres que praticam o esporte. Não existe espaço para mulheres falarem sobre uma área na qual (supostamente) os homens dominam e possuem mais habilidades. Não vemos com frequência blogs, documentários, vídeos e reportagens feito por mulheres. Existem, porém são extremamente raros e em alguns casos menosprezados.
Mulheres que participam de competições de jogos digitais ou trabalham na área (como jornalistas, comentaristas, etc.) são ridicularizadas, as vezes pelos próprios parceiros de trabalho. Há um enorme pressuposto de que mulheres não possuem capacidade de trabalhar com um ramo que desde sempre foi tão masculinizado.

Beatriz Moraes, 19, é estudante de jornalismo na Cásper São Paulo e joga por hobby alguns games de versão android e PS4. Amanda Tressler, 22, é formada em Análise de Sistemas e se considera uma apreciadora de jogos digitais. Fernanda Barroco, 28, é uma mulher trans que joga League of Legends e raramente possui boas experiências com a comunidade gamer. Abaixo temos uma entrevista coletiva com as 3 referente a personificação feminina nos games:

Nos jogos que vocês costumam jogar, sendo eles online ou não, como vocês encaram a presença feminina?

Beatriz: Particularmente desisti de jogos online por conta do machismo. Não da produtora em si, mas dos outros players. Nos jogos que costumo jogar, os off lines, reparo que grande parte das mulheres é retratada com muita fraqueza. A maioria dos jogos de gênero RPG que eu jogo, o protagonista é sempre homem, e em casos como GTA, as mulheres são vistas como prostitutas ou craqueiras.

Amanda: Tentei por muito tempo jogar jogos distintos. Sou feminista, então a maioria deles me revoltou. Acho um absurdo colocarem personagens com roupas tão justas e tão “amostra”, sabe? Isso me fez perder grande vontade nos jogos, exatamente por não retratar meu cotidiano, e o pior? Os homens acham lindo.

O que dizer sobre a representação feminina nos games?

Fernanda: Eu sou uma mulher trans, então eu sei o que é se sentir como mulher. Os jogos não mostram mulheres, mostram o que homens querem ver. Existem poucos jogos atualmente que ressaltam a essência do feminino. Fiquei extremamente feliz com o lançamento do teaser de Last of Us 2 por isso. Adoro quando vejo esses gamers machistas, homofóbicos e padronizados irritados com a indústria gamer. Jogo League of Legends há anos e já cansei de escutar que mulher só serve pra ser suporte, ou até mesmo para mostrar os peitos.

Sobre a representação, vocês acreditam que existe uma alternativa? Qual?

Amanda: Eu acho que como qualquer cultura, ela deve ser desconstruída. Somos uma nova geração repleta de mulheres que jogam e acredito eu que mais pra frente terão mulheres produzindo também. Claro que já existem mulheres no meio (poucas, por sinal), mas o mundo está mudando e nós merecemos ser fielmente representadas, tanto nas telas como no cenário competitivo.

Fernanda: Como disse a Amanda, acho que é uma desconstrução. Desde o começo da era dos games, o público foi predominantemente masculino e por si sõ machista. Mas nós podemos reverter isso, nós devemos reverter isso. Seja com produções alternativas, com nossa jogabilidade ou até mesmo respondendo os haters.

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