Projeto promove cultura e formação para catadores

“Coleta Seletiva Zona Leste Faz!” apoia cooperativas não conveniadas com a prefeitura

Foto: Folha da Minha Sampa

Por Larissa Teixeira

Os catadores de recicláveis contribuem significativamente para a coleta seletiva no Brasil. Porém diversos problemas envolvem a profissão, como a pouca valorização e o alto grau de informalidade: cerca de 50%, segundo um relatório do Ipea de 2017.

Algumas iniciativas visam melhorar as condições de trabalho e mudar essa perspectiva. A que ocorre no espaço “Benfeitores da Natureza” no Sesc Itaquera é uma delas. Os integrantes do projeto “Coleta Seletiva Zona Leste Faz!” discutiram a necessidade de uma prensa para uma das cooperativas de materiais recicláveis ali representadas. Temas semelhantes e comuns nas reuniões mensais do grupo também foram abordados naquele 1º de setembro.

“É uma reunião para que os catadores tragam a demanda que têm e que a gente corra atrás para ajudar e resolver o que precisam.”, explica Delaine Romano, designer e presidente do “Fórum para Desenvolvimento da Zona Leste”, grupo responsável pelo “Coleta Seletiva Zona Leste Faz!”.  De acordo com a integrante do projeto, Maria da Consolação, havia cooperativas que operavam sem energia elétrica, por exemplo: “estavam numa situação muito ruim mesmo” ela conta.

As solicitações como geladeira, carrinho de fardo, prensas e outros itens são financiadas pela Inter American Fundation (IAF) desde 2017. Agência independente do governo dos Estados Unidos criada em 1969 para oferecer assistência ao desenvolvimento de países da América Latina e do Caribe. Hoje, há 306 projetos sendo realizados em 20 países. No Brasil são 24, em áreas que vão de agricultura a inclusão e direitos humanos. Segundo o site da IAF, os temas abordados visam a “expansão de oportunidades econômicas em áreas desfavorecidas e para populações marginalizadas”.

Garrafas após serem prensadas. | Foto: Folha da Minha Sampa

O Fórum contribui tanto para os catadores quanto para as cooperativas, todas voltadas para a coleta seletiva. Segundo Delaine, uma das pautas mais abordadas é o valor de venda dos materiais recicláveis, que varia muito. Outros pontos, como a logística, a possibilidade de aumentar o volume produzido e a gestão compartilhada, são debatidos. O objetivo é melhorar o desenvolvimento das cooperativas, que distribuem igualmente todo o dinheiro arrecadado.

No Sesc, trabalhadores cooperados podem participar de oficinas, que não necessariamente envolvem a profissão. Entre as atividades que já ocorreram estão cursos de gastronomia, uso racional de alimentos, fotografia, expressão corporal e costura.

Além das reuniões mensais, o projeto inclui dois passeios. Um deles será para o Parque Marisa, em Itaquera.  “Uma das catadoras falou: ‘Ah meu filho tem 22 anos e ele nunca foi nesse parquinho que é aqui ao lado’”, conta Delaine Romano sobre o momento em que o local foi definido. “A catação é uma profissão muito excludente, muito marginalizada e aí eles não têm acesso à informação, à cultura.”, afirma a presidente, que valoriza o relacionamento interno e a alegria do grupo. “A gente acha muito importante que eles tenham uma parte de lazer, porque eles já trabalham muito, muito mesmo no pesado”, ela complementa.

Nenhuma das cooperativas participantes do projeto são conveniadas com a prefeitura, que hoje conta com 20. Atualmente, as que participam do “Coleta Seletiva Zona Leste Faz!” são cerca de dez, comportando uma média de 12 pessoas em cada. Há menores, com seis, e maiores, com quase 30 cooperados.

Maria da Consolação também é técnica em reciclagem e formada em Ciência do Trabalho. Segundo ela a atuação das cooperativas junto ao projeto gera trabalho e renda para a população, enquanto diminui o material a ser aterrado. “Isso aumenta a vida útil do aterro, melhora a poluição, não vai para rio, não vai para córrego, não é descartado na rua. Tudo isso é gratificante”, complementa Delaine.

Panorama sobre os catadores e a coleta seletiva. | Infográfico: Larissa Teixeira

Quando os materiais chegam na Coopercral, cooperativa que faz parte do projeto, são pesados, separados por tipo, passam novamente pela pesagem e terminam no estoque até a venda. A catadora Maria Auxiliadora, 62, explica que não há um comprador constante, varia conforme o material solicitado.  

Materiais estocados. | Foto: Folha da Minha Sampa

A Coopercral é composta por oito pessoas, nasceu em 2005 e está situada em Vargem Grande, distrito de Parelheiros, zona sul de São Paulo. “Trabalhamos aqui com todo o afinco para que a cooperativa se manifeste cada vez mais no seu campo de reconhecimento e na integração da região com a população local.”, diz Paulo Renato, 66, catador há cerca de 15 anos. Após começarem a participar do projeto, eles receberam assistência e suporte às necessidades da organização. Maria Auxiliadora afirma que os integrantes do projeto os ajudam a resolver necessidades e a crescer em conjunto.

Maria da Consolação lembra a história de Eduardo Ferreira de Paula, um catador que se tornou um dos coordenadores do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR): “Eu nem acredito. Passou por mim, hoje tá coordenando um movimento que atua com várias cooperativas também”.

 

O “Fórum para Desenvolvimento da Zona Leste” nasceu em 1999 e é composto por empresários, associações de bairro e instituições como ONG’s. Trabalha com catadores desde, aproximadamente, 2001. O projeto “Coleta Seletiva Zona Leste Faz!” acontece a cada primeiro sábado do mês e é aberto tanto para profissionais quanto para interessados na área. Apesar de acontecer na zona leste de São Paulo, representantes de cooperativas de todas as regiões da cidade podem participar.

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