Por Adriane Garotti

Volto para casa num dia chuvoso, o trânsito caótico como sempre e eu observando as ruas de São Paulo pela janela suada do ônibus. Sabe aquele amor passageiro pelo mundo que sentimos quando começamos a observar o nada, mas ao mesmo tempo um turbilhão de pensamentos claros vem à nossa cabeça? Decidi naquele momento que escreveria cartas para você e cá estou. Não se assuste com minhas desilusões, pode ter certeza de que a maior culpada pela existência delas sou eu e não você, afinal você só serve de plano de fundo para tematizar minhas escolhas precipitadas do dia a dia.

Começo pelo amor, afinal sempre quis conhecê-lo na sua versão mais pura, mas tudo bem, sei que você é muito envergonhado para dar as caras rotineiramente. Suas formas me encantam, suas várias maneiras de aparecer fazem de você uma metamorfose ambulante, como diria Raul Seixas. Às vezes você me faz transbordar igual leite quando fica tempo demais fervendo no fogo, mas às vezes também derramo e sujo todo o fogão. Ai que trabalho que dá limpar tudo de novo, mas uma coisa é certa, eu esqueço rapidinho a bagunça que você fez e já vou logo repetindo a dose.

Agora quero falar com o tempo. Ah, o tempo…Você tem passado rápido demais depois dos meus 15 anos, sabia? É que ainda tenho tanta coisa para viver, tantos lugares e pessoas para conhecer que fico ansiosa pelo futuro e acabo esquecendo do presente. Mas nada como viver tudo no tempo certo, não é? São tantas perguntas, deve ser porque essa insegurança de não saber minha hora vai me consumindo aos pouquinhos e me deixando cada vez mais ansiosa. Ao mesmo tempo que você é tempo, eu sou vontade de viver intensamente misturada com medo de ficar menos do que devia por aqui. Isso me deixa estonteada, pois saber o que quero da vida e não saber quanto tempo tenho para isso é melhor do que viver sabendo do fim e acomodada no presente. Viver sem saber o final é viver plenamente.

E agora é sua vez, vem cá, não seja tímida! Não tenho medo de você como muitos têm, apenas tenho medo de você chegar de surpresa, sem aviso prévio e antes mesmo de eu ter feito valido a pena minha vinda para este planeta. Morte, você aterroriza alguns, traz dor e saudade, faz as pessoas que ficam sofrerem. Mas aí vem o seu amigo tempo – que também é danado pra fazer uma surpresa – para amenizar essa dor de quem ficou. Que bom que vocês trabalham juntos! Não preciso viver para sempre, afinal isso seria uma espécie de prisão para quem sonha em conhecer o desconhecido, mas vamos esperar alguns bons anos para você vir me visitar, está bem? Enquanto isso escrevo cartas de próprio punho pelas ruas de Sampa. Assim você vê que estou fazendo valer a pena minha vida nesta cidade que, tão cinza, o sol reflete e ilumina como holofote o cenário da minha rotina diária.

As pessoas não escrevem para você, o motivo deve ser porque somos os atores do filme do qual você é o diretor. Por isso quando estou andando na rua com meu fone de ouvido, as cenas cotidianas ficam com um ar bem mais hollywoodiano com a música. Somos meros figurantes vivendo em harmonia utópica. Enfim universo, você se diz tão complexo, mas talvez os complexados sejamos nós que vivemos em busca de respostas de que nem precisamos. Os sentimentos que vivenciamos durante nossa estadia na terra são mais do que suficientes para nos lembrar de que estamos vivos.

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