Ladislau Dowbor - dowbor.org

Por Mayara Akie

A inadimplência atingiu a marca de 61,6 milhões de pessoas no último mês de julho, de acordo com a Serasa Experian. Trata-se de quase metade da população adulta brasileira. Segundo especialistas, além da crise econômica e do aumento do desemprego, os números são explicados pelas elevadas taxas de juros praticadas no país.

A inadimplência de julho é a segunda maior desde o início da série, em 2016, atrás apenas da de junho deste ano. Se comparado com julho do ano passado, 60,4 milhões de pessoas eram inadimplentes, o índice subiu 1,99%. De acordo com a Serasa, o volume da dívida é de R$ 272,5 bilhões, o equivalente a R$ 4.426 por pessoa, em média, são quatro pendências por CPF.

O economista e professor de pós-graduação da PUC-SP Ladislau Dowbor afirma que este número significa que a economia está longe de estar se recuperando e a situação das famílias está piorando.

“É uma catástrofe em termos de organização econômica. Quando as famílias estão travadas nos seus consumos, a sua capacidade de compra está sendo chupada por juros. Não é que elas compraram demais, não é que elas não sabem, é que elas compraram com taxas de juros que constituem agiotagem”, diz o economista.

Para Ladislau o motivo é claro: “É natural que as famílias se enforquem porque não entendem o processo, porque no Brasil nunca ninguém teve uma só aula sobre como funciona a moeda. Isso é escandaloso em si, porque a gente estuda Dom João VI, Pedro II, e não aprende como funciona o mundo atual. Apresentar juros ao mês é fraude porque as pessoas não conseguem calcular mentalmente o que é juro composto para saber quanto representa, por exemplo, um juro de 6% ao mês”.

Em relação aos segmentos de dívidas atrasadas, bancos e cartões de crédito são os que mais registram inadimplência, com 28,5% do total de débitos em atraso. Ladislau explica: “Resulta de taxas de juros exorbitantes que envolvem as tarifas pagas em cima do pagamento com cartão, que hoje, no Brasil, em média são de 2,5% na modalidade de débito e 5% na modalidade crédito. Para explicitar, se você faz uma compra de US$ 100 no Canadá, tem o custo de passar o cartão, e vão cobrar US$ 0,06 por operação, isso da R$ 0,20. No Brasil, vão cobrar na modalidade crédito 5%, portanto vão cobrar R$ 5 sobre um custo para eles de R$ 0,20. É um custo benefício absolutamente fantástico. Um custo de R$ 0,20 e cobram R$ 5 pela operação, isso envolve dezenas de milhões de operações de cartão, que hoje todo mundo usa. Isso é extorsão, evidentemente”.

Se comparados ao ano anterior, outros segmentos como utilities (água, luz e gás), telefonia, serviços e financeira tiveram um aumento percentual na inadimplência. Bancos e cartões de crédito (-1,6 ponto percentual), junto com o varejo (-1.2 ponto percentual) tiveram uma queda.

Entre as faixas etárias a que mais cresceu nos últimos meses foi a dos idosos: 35,1% dos brasileiros com mais de 61 anos estavam com as contas atrasadas, um aumento de 2,6 pontos percentuais em relação a dois anos atrás. Porém, os adultos, de 36 a 40 anos, ainda lideram a lista.

A situação de inadimplência não afeta apenas os endividados, mas a economia do país inteiro e até aumenta o número de desempregados. “Quando as famílias entram em situação de inadimplência, elas travam o seu consumo, param de comprar. Quando param de comprar, as empresas não têm para quem vender, você esfria a atividade empresarial. Quando você esfria a atividade empresarial, os empresários demitem, porque não estão conseguindo vender, não querem produzir mais e já tem estoques acumulados”, diz o professor.

As possíveis soluções para o problema, além de aulas de educação financeira, como propõe Ladislau, é o investimento nas famílias para que a demanda seja impulsionada. “A demanda aumenta a dinâmica nas empresas porque tem para quem vender. Tanto imposto sobre as famílias gera receita para o Estado, como as empresas geram para o Estado e o círculo fecha”, afirma o economista.

De acordo com Ladislau a economia que funciona se organiza em torno das necessidades das pessoas. “E não só das pessoas agora, mas através do meio ambiente, das gerações futuras, porque isso gera uma dinâmica de consumo que gera atividade empresarial e que cobre as coisas do Estado”, explica.

Ao citar as necessidades das pessoas, Ladislau se refere a bens universais, como saúde, educação, segurança e cultura. Segundo ele, tudo isso deveria ser garantido de forma universal, gratuita e pública porque sai mais barato e reduz a desigualdade.

Por fim, Ladislau Dowbor usa os Estados Unidos e o Canadá para exemplificar a questão: “O americano gasta com o sistema de saúde US$ 9.400 por pessoa, por ano. O Canadá US$ 3.400, por ano. O sistema canadense, que é público, universal e gratuito, é incomparavelmente mais ‘performante’, no nível de saúde da população. Sem falar de não ter a angústia de uma mãe não poder comprar um medicamento, não poder levar seu filho ao médico porque não tem dinheiro”.

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