Por Júlia Valente

 

Há três meses conhecemos a Rússia. Conhecemos os pormenores da história deste país. Aprendemos a agradecer em russo, descobrimos paisagens, culturas e um povo apaixonado por futebol. A televisão, o Instagram, Facebook, se tornaram palcos russos. Todos os apresentadores, repórteres, artistas, estavam lá. A Rússia se tornou o centro do mundo, e o futebol era o pretexto.

Há dois meses nos esquecemos da Rússia. A França é bicampeã, o Brasil não passou das quartas. Melhor que Itália, Estados Unidos e Holanda, pelo menos. Estes nem deram as caras por lá. Mbappé, Modric e Kane foram as grandes atrações. Já Neymar, saiu de campo rolando e nem foi considerado para o título de melhor jogador do mundo.

Tá, mas e a Rússia? E toda aquela surpresa que tivemos ao descobrir um país que pouco sabíamos sobre até então? E todas aquelas pessoas que visitaram e se disseram apaixonadas pela hospitalidade? Onde estão? Nos acostumamos tanto a viver em tempos líquidos que nem nos surpreendemos com a amnésia midiática. Agora já estamos em outra. Que Rússia que nada, Qatar que nos aguarde! Mas e onde fica o Qatar? Como é seu povo, sua cultura, culinária, tradições? Ah, isso iremos aprender nos próximos quatro anos. A TV, Internet, as celebridades, ou influencers, têm muito a nos ensinar nesse período. Provável que seja a partir de janeiro de 2022 que escutaremos sobre o tema com frequência. E então vamos nos apaixonar pelo povo, pelas paisagens, pela comida, e o destino se tornará o mais cobiçado. Agradeceremos em árabe pela hospitalidade, torceremos pelo bom desempenho do país na competição, e desejaremos estar ali, junto com aquela massa vestida de verde e amarelo tomando todo o deserto.

Se dependermos da Copa do Mundo para conhecer a cultura de cada país, teremos quatro anos aculturados para descansar a cabeça. Não podemos esquecer das novelas, seriados, filmes. Essas também são ótimas escolas culturais. “Salve Jorge” fez aumentar o turismo de brasileiros na Turquia, “La Casa de Papel” fez de Madrid a queridinha dos maratonistas de séries.

Isso comprova: somos extremamente passivos e influenciados por uma mídia seletiva, que determina cautelosamente os pontos de interesse do momento. Sim, do momento, porque jajá passa, muda, jajá nos esquecemos. E antes tão próxima, agora a Rússia parece distante. Já não nos lembramos de agradecer o povo, de desejar conhecer sua cultura, sua terra, seus costumes. “Spasibo”, Rússia, mas agora a tendência é dizer “Ahlan, Qatar”.

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