“Renault Experience” testa os limites entre o mundo corporativo e a PUCSP

… e transforma o campus em showroom da montadora francesa.

Da redação AGEMT

Reza a lenda, que Bill Gates (Microsoft) foi fazer uma visita ao MIT (Massachusetts Institute of Technology). Antes mesmo de começar a falar, o diretor do centro avançado de tecnologia teria dito: — Em primeiro lugar nós temos mais de um século de tradição, e vocês só duas décadas. Em seguida o diretor disparou: — Antes de o Sr. (referindo-se a Bill Gates) sugerir qualquer parceria, quantos laboratórios vai equipar no nosso campus e quantos empregos diretos vai garantir na Microsoft aos alunos do MIT ?

Realidade ou ficção, o diálogo acima costuma ser lembrado quando se trata de avaliar as relações (ou as parcerias) entre a universidade e o mercado — particularmente entre os gestores universitários brasileiros, sempre muito pródigos em oferecer mais ao mundo corporativo do que lhes é pedido. Como por exemplo agora, quando o campus da PUC recebe, a partir do dia 19, a ”Renaut Experience”. “A Renault dentro da Universidade, você por dentro da Renault”, conforme reza o mantra da tal experiência, que é apresentada como uma oportunidade rara do aluno ter contato com o mercado de trabalho e a indústria automobilística, a partir do case Duster, modelo recém-lançado pela montadora.

Durante quatro dias (de 19 a 22 de março) executivos, marqueteiros e técnicos da Renault falarão sobre os desafios de produzir e vender um novo veículo para o competitivo mercado brasileiro. Os encontros são vendidos como uma experiência única nas áreas da Administração, Engenharia, Sustentabilidade Ambiental e Comunicação.

Além das palestras, os organizadores prometem levar um modelo de carro da Fórmula I para dentro do campus. Tudo em nome de uma gestão moderna, de um design arrojado, ambientalmente limpo e a partir de estratégias de comunicação primorosas. Vide campanha da Renault abaixo, que certamente teria muito a ensinar aos alunos da PUC, principalmente do ponto de vista ético/existencial:

Travestidos de projetos pseudo-acadêmicos, que prometem dicas e truques para aproximar o aluno do mercado, esses projetos corporativos, agora embalados no formato interativo  4D, atendem única e exclusivamente aos interesses estratégicos das suas marcas. Basta dar uma olhada nas imagens abaixo e ouvir o resumo da ópera da boca dos próprios organizadores. “Levar a marca para dentro das universidades foi só o início de um programa que está começando”, anuncia o vídeo institucional:

Relembremos, a titulo de memória, dois grandes momentos de parcerias estratégicas entre a PUC-SP e duas corporações  — coincidentemente uma delas era uma outra montadora de veículos.

O evento foi fartamente divulgado na grande imprensa, como nesta página da coluna da jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo.

Em primeiro lugar destaque-se o “Seminário de Valorização da Produção Cultural Brasileira” no TUCA, organizado em fevereiro de 2004 pela TV Globo e pela PUC-SP. Na calada das férias, a portas fechadas (interrompendo um ciclo virtuoso de ampla participação da comunidade nos eventos ocorridos no TUCA), 70 “celebridades” (artistas, intelectuais, empresários) escolhidas a dedo discutiriam o “futuro da cultura brasileira”. O evento acordado entre a universidade combalida e a grande rede endividada, inaugurava, em grande estilo, a era das PPPs espetaculares, as Parcerias da PUC com a iniciativa Privada, uma espécie de idílio celebrado entre o capital corporativo e um saber cooptado e domesticado. O objetivo era abrir um grande debate com a comunidade puquiana sobre a cultura brasileira? É claro que não. O objetivo da Globo era bloquear a criação da Agência Nacional de Cinema e Audiovisual – que, paradoxalmente, visava criar cotas mínimas de produção regional, dentre outras medidas fomentadoras da indústria cinematográfica. Portanto, na época, interessava empunhar a bandeira do conteúdo nacional contra os grupos internacionais de comunicação, as empresas de telefonia, as possibilidade de financiamento a empresas concorrentes, sem perder o controle sobre o conteúdo. A PUC emprestou suas instalações para a Globo passar uma imagem de defensora intransigente da cultura nacional. Digamos que a PUC serviu de locação (de luxo?), nada mais.

Dois anos depois, em 2006, instigados talvez pelo sucesso mercadológico do “PUC e Globo tudo a ver”, chegou a vez da FIAT celebrar os seus trinta anos de Brasil no TUCA, através do evento “FIAT 30 +”, cujo objetivo oficial era o de “discutir o futuro”, principalmente questões ligadas à mobilidade, entre os dias 7 e 8 de novembro daquele ano. Mas que futuro esperar de uma humanidade sobre quatro rodas, com MAIS TRINTA ANOS de expansão exponencial dos automóveis? Que mobilidade os cidadãos poderão almejar se o transporte automotivo continuar sendo privilegiado? Aqui também os objetivos eram bem menos nobres. Na verdade tratava-se de popularizar a marca FIAT entre os mais jovens, posto que a multinacional italiana realizara pesquisas que indicavam a necessidade de trabalhar melhor a sua marca entre esta faixa de idade. E novamente a PUC abriu suas portas para resolver mais um case de uma montadora. Na época a comunidade puquiana reagiu, e, às pressas organizou um evento paralelo, para questionar o FIAT 30 +:

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Agora temos a “Renault Experience”. Qual é o problema da Renault que iremos resolver? Quando o Duster 360 passar, o que ficará para a comunidade puquiana além das sobras do cenário futurista?

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