Por Catharina Gaidzinski

Cedo, de manhã, o despertador toca. É hora de levantar, de começar o dia, se trocar, lavar o rosto, tomar um café e sair na correria, atrasado, como sempre. Acordar quinze minutos mais cedo teria feito diferença? E meia hora? E um dia mais cedo? E dormido até as onze? É possível fingir doença ou mal-estar, e, assim, ficar o dia inteiro em casa descansando, para amanhã estar novinho em folha, finalmente pronto para mais um dia. Mas será que amanhã seria diferente?

Todos os dias de manhã esses pensamentos são nada menos do que peças que nossas mentes nos pregam para que desistamos de nossas obrigações. Artifícios de mentes cansadas para que consigam um pequeno repouso. Mas, do que adianta não ir hoje e ir amanhã? Falando sério, do que adianta ir, de qualquer forma? Se a vida acaba tão rápido quanto dizem, não seria legal ter que ocupar um tempo precioso com coisas inúteis ou meramente cansativas e tediosas. É preciso viver, se divertir. Mas para conseguir diversão e lazer é preciso de dinheiro. Para ter dinheiro, um emprego. E para ter um emprego, provavelmente um diploma. É como um ciclo vicioso, interminável e inquebrável. Não é possível se fazer o que eu quer sem fazer o que não se quer primeiro. Na semana, cinco dias longos e difíceis para dois dias de descanso que passam num piscar de olhos. Vivemos no limbo das obrigações, fazendo tudo no automático para que, alguma hora, possamos não fazer mais absolutamente nada.

Deslocamentos diários pela cidade para chegar ao trabalho ou à faculdade ou à escola, encontrando milhões de rostos conhecidos ou não pelo caminho. Todos borrados, já que a atenção é voltada somente para as obrigações. E, assim, com um pé após o outro, e uma preocupação atrás da outra, as horas vão se passando. É preciso almoçar e jantar em horários específicos, e provavelmente usar o banheiro também. Organizamos as tarefas em calendários, colocamos alarmes, e nos sentimos culpados quando não conseguimos terminar alguma tarefa. O futuro está nas nossas mãos, eles dizem. Mas o presente também está, e o que se faz com o tempo é uma responsabilidade totalmente de quem o tem. São desperdiçadas oportunidades para continuarmos na rotina incansável, e nos obcecamos com pequenos afazeres muitas vezes irrelevantes: É aquela cerveja recusada por causa de uma pilha de trabalho para entregar semana que vem; é aquele filme visto sem atenção para pensar nos afazeres; é aquele café tomado com pressa.

Nesse mundo, é obrigatório se obrigar. Então peguem as canetas, as maletas, e comecem a trabalhar. É preciso se obrigar por uma simples questão de ética social. A sociedade marginaliza os que não se obrigam a viver dentro dos padrões e normas da convivência humana. Não trabalha? É preguiçoso. Não estuda? É burro. É solteiro? Não serve para o amor. Para se obter êxito em qualquer área da vida e ser considerado bem-sucedidos aos olhos dos outros, é preciso um trabalho de mérito, um diploma, uma renda fixa, um casamento estável e um sorriso no rosto.

No final, amanhã, continuaremos a acordar cedo para pegar o ônibus , estudar e trabalhar, vivendo a par das regras que nossas rotinas cansativas nos impõem, por um simples constrangimento de não querer ser o diferente, o excluído, o “perdedor”. Amanhã, o despertador toca, a gente levanta, eu continuo a escrever e você a ler, e todos nós nos submetemos às obrigações do dia-a-dia, esperando que, no final, elas sirvam para alguma coisa, mesmo que o desfecho da história seja, obrigatoriamente, o mesmo para todos.

 

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