FECHAMENTO DO ENTORNO DO ALLIANZ PARQUE EM DIAS DE JOGO AINDA CAUSA DIVERGÊNCIAS

Movimentado encontrão de torcedores na Rua Palestra Itália gera polêmica desde o fim de 2016, e a única coisa que restou foi um público cada vez mais contido e elitizado

Foto: Divulgação
Por Francisco Segall e Henrique Sales

 

Desde o dia 23 de outubro de 2016, data da partida entre Palmeiras e Sport pelo Brasileirão daquele ano, o 2° Batalhão de Choque da Polícia Militar do Estado de São Paulo com o apoio do Ministério Público do Estado de São Paulo e da Sociedade Esportiva Palmeiras decretou que apenas moradores, pessoas com ingresso na mão e sócios torcedores poderiam circular nos arredores do estádio do Verdão no pré e durante o jogo. Tal medida veio com a justificativa de combater os ambulantes e os cambistas na região do estádio e garantir a segurança dos espectadores contra pequenos furtos.

Naquele ano o Palmeiras foi líder não só do Campeonato Brasileiro. Segundo o Globo Esporte, a equipe palestrina teve o ticket médio mais alto do Brasil naquele ano, com o valor do ingresso girando em torno de R$ 62. Esse valor era cerca de 12% maior que o passe médio do segundo colocado, o Corinthians, que vendia o ingresso a uma média de R$ 55. Nesse jogo contra o Sport, especificamente, o valor médio do ingresso foi de R$ 69. O alto preço das entradas nos jogos do Palmeiras no Allianz Parque fez com que muitos torcedores trocassem as arquibancadas do estádio pelos bares do entorno, principalmente os que ficam na Rua Palestra Itália (antiga Rua Turiassu), porém, nem isso eles podem mais.

Em reportagem do Contraponto Digital de 21 de junho de 2018 sobre essa questão, o depoimento de Camila Rocha, telefonista de 23 anos, mostra o quão importante era essa reunião de torcedores sem ingressos nos arredores do estádio. A entrevistada relatou não ter condições de ir em todos os jogos do Palmeiras no novo estádio. A solução? Para se manter próxima do Palmeiras e do clima do jogo ela passou a frequentar os bares da região – e foi lá que conheceu muitos amigos entre 2014 e 2016. Porém, a realidade mudou. “Depois do cerco, a frequência de contato do pessoal caiu para uma vez a cada três meses pelo menos. Isso me incomoda muito e vejo que, de forma geral, a torcida se sente como eu. É uma medida que só afasta o torcedor pobre do clima de jogo”, afirmou a jovem torcedora.

Na última quarta-feira, dia 22 de agosto de 2018, às 21h, o Palmeiras enfrentou o Botafogo em jogo válido pela 20° rodada do Campeonato Brasileiro. Essa foi a 55° partida do Palmeiras no Allianz Parque desde que o entorno do estádio passou a ter entrada controlada em dias de jogo. Fomos até os arredores do estádio ver o que pensam os torcedores sobre isso tudo – e vimos que o continua sendo um assunto cheio de contradições que levanta diferentes opiniões e visões.

Torcedores do Palmeiras na Rua Palestra Itália antes do jogo contra o Botafogo. Foto: Francisco Segall

Chegamos na Rua Palestra Itália por volta das 19h e percebemos um clima tranquilo. O jogo não era lá de muita importância, é verdade – o foco do Palmeiras no momento é o jogo de volta pelas oitavas de finais da Copa Libertadores contra o Cerro Porteño (PAR). De qualquer forma, o público foi bom: 24.882 torcedores palestrinos compareceram ao Allianz Parque para ver o jogo. O ingresso ficou na média de R$ 58.

Abordamos alguns torcedores dentro do estádio para ver o que pensavam do cerco. Marcelo, torcedor de 41 anos, discorda quanto à justificativa de que o cerco é algo para manter a segurança dos espectadores. “Não se mantém a segurança cercando um espaço já que os problemas podem ir para a rua de trás (do Allianz Parque). Você permitir ou não que o torcedor sem ingresso entre na Turiassu não vai servir de nada”, disse Marcelo. Ele acrescentou que isso é mais uma questão de pressão dos moradores do entorno do que uma medida de segurança pública. “Para mim isso é mais uma questão dos moradores da Rua Turiassu que não querem bagunça na porta da casa deles. Quanto à segurança, o fechamento das ruas não resolve nada”.

Já Valério, de 50 anos, aprova integralmente a medida. “Ficou mais seguro para todo mundo e hoje a gente vê que a torcida do Palmeiras respeita o cerco”. Perguntamos se ele não achava a medida algo excludente, já que tira o torcedor mais humilde da festa. Ele disse que, embora houvesse esse lado, a medida ainda é necessária. “A gente se sente seguro agora. Hoje eu não tenho mais problema de trazer minha esposa e filhos para o estádio porque o clima de segurança aumentou”. Valério estava sozinho quando o abordamos.

No dia seguinte ao jogo resolvemos visitar os bares da região e ver como foram impactados pela medida. Primeiro paramos n’O Sobrado, um bar que fica próximo do cruzamento da Rua Caraíbas com a Venâncio Aires. “O lucro caiu um pouco e o movimento também, mas nada assombroso. Junto com o cerco veio a fiscalização forte contra o comércio ambulante, então quem consumia com quem vendia irregularmente passou a vir aqui para o bar. Creio que quem sentiu mais isso foi o Bar Alviverde, que era o centro da aglomeração”, disse Eduardo, o dono do bar. “Na final da Copa do Brasil contra o Santos, em 2015, o pessoal falava que dava para ouvir as pessoas que estavam na rua de dentro do estádio. Elas faziam mais barulho. Hoje o clima é outro”, relatou. O “Bar Alviverde” ao qual ele se referia é o Bar Savóia, que foi nosso próximo destino.

Fachada do Bar Savóia na esquina da Rua Palestra Itália com a Rua Caraíbas. Foto: Henrique Sales

Como bem previu Eduardo, o Savóia sentiu muito o cerco. O bar fica de frente ao Allianz Parque e era o centro de toda a aglomeração. “Caiu bastante o movimento. Eles tiraram os ambulantes, mas não deixam as pessoas circularem livremente. Aqui era o ponto de encontro das pessoas”, disse o dono do bar. “Em umas partes as coisas melhoraram, em outras pioraram. Por exemplo, antes tinha muito camelô, muita ‘maloqueirada’. Hoje em dia não, hoje é um público mais ‘exclusivo’, mas é pouca gente”, disse. Ele estima ter perdido 50% das vendas em dias de jogo.

A Associação Amigos da Vila Pompéia foi uma das defensoras do cerco na época. Procuramos a associação para saber o que mudou de 2016 para cá na perspectiva dos moradores da região. Ao entrarmos em contato com eles, nos orientaram a falarmos com o Movimento Água Branca. Por e-mail, o Movimento Água Branca disse que “há diferença entre dias de jogos, dias de shows e eventos religiosos. O cerco não deve ser tratado como algo tipo torcedores versus moradores”. “A aglomeração de pessoas atrai cambistas, flanelinhas, assaltantes e vendedores ambulantes, com barracas, carrinhos de isopor, churrasqueiras que ocupam ruas e calçadas. Os bares ocupam calçadas e ruas com mesas e cadeiras. As torcidas organizadas fecham ruas, soltam fogos próximos das janelas dos apartamentos”, se referindo a situação antes do cerco do entorno do estádio.“Os moradores dos condomínios localizados na área do bloqueio dizem que melhorou para entrar e sair das suas casas, por não ter mais as barracas de ambulantes. Entendemos que o bloqueio destas ruas trouxe benefícios – para a segurança dos torcedores e moradores, para o trabalho do policiamento, para o fluxo de entrada ao estádio, para o acesso a serviços de emergência, e para o acesso aos condomínios residenciais e vilas destas ruas”, finalizou. Apesar do posicionamento do Movimento Água Branca, entre os moradores existem algumas vozes que destoam. Rafael, de 18 anos, é um deles. “Acho o cerco uma medida completamente absurda. Acaba sendo uma espécie de locação do espaço público: só aqueles que pagaram o ingresso para o jogo tem o direito de circular em determinada área”, disse. “Em termos de segurança, não mudou nada.Aqui sempre foi um local já muito bem policiado”, completou.

Muita coisa rolou desde aquele jogo contra o Sport em 2016 até hoje. O Ocupa Palestra! nasceu como um movimento organizado de torcedores palmeirenses que buscam derrubar o cerco imposto pela Polícia Militar e vem angariando apoio. Recentemente a CET cobrou cerca R$ 2,2 milhões do Palmeiras na Justiça como forma de ressarcir os custos operacionais pelo fechamento da Rua Palestra Itália – fato que deu ainda mais gás à discussão. Entre defensores do cerco e gente que quer derrubá-lo, a única certeza que fica é que, por mais que o tempo passe, tal assunto continua e continuará sendo motivo de muita divergência.

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