Dificilmente alguém que ande atentamente na cidade de São Paulo não irá notar o grande número de pessoas morando de baixo de pontes, viadutos, passarelas ou mesmo no caminho para o trabalho ou para a aula. Na vila Mariana, zona oeste da cidade, não é diferente. A ABCP (Associação Beneficente e Comunitária do Povo), que possui como foco a reintegração de moradores de rua, conta a importância de seu trabalho perante essa parte da sociedade.

Com Sede na Rua Afonso Celso, número 1185, atua desde 2007 com vários projetos sociais. Entre eles, a distribuição de sopa para moradores de rua e o trabalho voluntário realizado com os moradores todos os sábados.

Moradores de rua tomando café da manhã na ABCP no dia 25/08/2018

Esses encontros têm a ajuda de voluntários e oferece aos moradores de rua café da manhã, almoço, banho e a oportunidade de encaminhamento para clínicas de recuperação aos dependentes químicos interessados em mudar de vida.

O voluntário Luciano, que trabalha fazendo o cadastro de usuários da ONG, explicou um pouco como funciona esse processo. Eles pedem informações básicas, como nome, local ou área onde o morados de rua reside atualmente e um documento de identificação. A pessoa que não tiver documentação pode tanto participar normalmente das atividades do dia quanto receber ajuda caso tenha dependência química.

Fontes: Prefeitura de São Paulo e Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas)

Outra curiosidade que Luciano apontou foi que, em média, oito vezes mais homens procuram a ONG em relação às mulheres e que, entre todos que chegam lá a cada sábado, uma média de 30% não vivem diretamente nas ruas, mas sim em centros de acolhida da prefeitura.

A assistente social da ABCP, Solange Gouveia, explicou como funciona o processo de internação dos dependentes químicos. A ONG tem uma parceria com 18 comunidades terapêuticas que integram o CAPS (Centro de Apoio Psicossocial), e acolhem os moradores pelo tempo necessário. Segundo Solange, o tempo médio de permanência vai de seis a 12 meses.

A ABCP também conta com uma república, na própria sede, para abrigar aqueles recém-saídos do tratamento, que costumam ser um número bem menor do que os que o iniciaram. A partir disso se inicia uma nova fase do processo, em que a ONG ajuda os moradores de acordo com o que eles precisam. O primeiro passo é ir atrás de documentação, caso a pessoa não possuísse quando foi internada. O segundo passo é ajudá-los a concluir o ensino básico e, por último, iniciar um processo de reintegração na sociedade e no mercado de trabalho.

Moradores de rua apontam a necessidade de locais como a ABCP, visto que nem as ruas nem os albergues da prefeitura têm recursos ou capacidade para atender a todos e a todas suas necessidades. Muitos afirmam que esses espaços da prefeitura não têm organização, segurança e, em alguns casos, funcionários pagam moradores para agredir outros vivente do loca, como relata Nádia Jelca, que já morou em diversos albergues.

Segundo ela, nenhum desses albergues oferece roupas ou produtos de higiene feminina como a ABCP. Ela explica que os funcionários ofereciam banhos extras ou mais comida para que os moradores agredissem outros que eles viam fazendo algo de que não gostavam ou que contrariava as regras.

Lucas, 38, passou a morar na rua depois de ter perdido a irmã para o câncer, o que, segundo ele, foi determinante para que se tornasse dependente químico. Ele usa a expressão “vício da preguiça”, que nada mais, em suas palavras, do que o fato de o morador de rua se adaptar a essa vida, achar cômodo viver pedindo comida, dinheiro ou favores, o que faz com que não pense em ir atrás de uma mudança. “Você vai se adaptando à rua”, ele comentou, acrescentando que muitos moradores de rua simplesmente aceitam a maneira como são tratados, “como lixo”, aceitando inclusive as vezes em que são roubados ou agredidos.

Muitas vezes o morador de rua não consegue aproveitar recursos como os albergues da prefeitura, inclusive por discordar das regras que são aplicadas. “Esse pode ou não pode é confrontante e, se a pessoa morando na rua não quiser mudar de vida, ela vai embora”, conta Tiago, 39, ex-morador de rua que hoje é voluntário da ONG.

Entrevistados Aparecido e Tiago – ex-moradores de Rua

Contudo, os obstáculos que esses indivíduos enfrentam não vêm apenas de quem vive em uma realidade diferente da deles. Aparecido, 42, ex-morador de rua, conta sobre os constantes perigos de se viver nas ruas. Ele diz que são comuns os casos de brigas e até assassinatos por conta de dinheiro ou até mesmo de comida. “Na rua a gente não tem ‘parça’”, ele fala referindo-se ao fato de que é comum ver os outros com inveja ou até falando maldades caso um morador arranje uma coberta ou alguma roupa um pouco melhor.

Assim, projetos como a ABCP se mostram importantes ao serem reconhecidos pelos próprios moradores de rua que os veem como fundamentais, pelo seu suporte e apoio imprescindíveis para a reconstrução de suas vidas ou também como um suprimento de suas necessidades básicas.

 

Por Gabriella Lopes e Maria Luiza.

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