Sem ânimo para trabalhar

Segundo a OMS, até 2020 a depressão deve ser a maior causa de afastamento laboral no mundo; para escritor, busca de felicidade é utopia do século 21

Por Barbara Bastos e Maria Victória Gonzalez

Nos últimos anos, tem crescido o número de casos de depressão e ansiedade no Brasil e no mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 4,4% da população do planeta  sofre da doença, enquanto no Brasil, país com mais casos na América Latina, 11 milhões de pessoas são afetadas.

Por isso, não é surpresa que a OMS preveja a depressão como a maior causa de afastamento por incapacidade até 2020. Atualmente, no Brasil,  as doenças mentais (como depressão, estresse, ansiedade, bipolaridade, esquizofrenia, entre outras) são a segunda maior causa de afastamento. De acordo com a International Stress Management Association Brasil, 70% da população sofre de sequelas decorrentes do estresse profissional, sendo que 30% são diagnosticados com a “síndrome de burnout”.

Entre os estados brasileiros, uma pesquisa do Ministério da Previdência Social mostra que São Paulo é o que mais concede auxílios-doença em casos de depressão, com mais de 18 mil benefícios. Depois vem Minas Gerais (8 mil) e Rio Grande do Sul (7 mil). Em 2016, mais de 75 mil trabalhadores foram afastados em razão dos problemas psicológicos e, nos casos episódicos ou recorrentes, o trabalhador teve o direito ao auxílio-doença.

Esses casos representaram 37,8% de todas as licenças do ano motivadas pelos transtornos mentais e comportamentais. Além da depressão, outros problemas foram diagnosticados como estresse, bipolaridade, ansiedade, esquizofrenia, entre outros.

Quase 200 mil pessoas se ausentaram do mercado de trabalho só em 2016, superando o número registrado em 2015, que foi de 170,8 mil. Segundo um estudo da London School of Economics, em 2016, no mundo todo, foram gastos (devido à baixa produtividade de quem tem a doença) 246 bilhões de dólares. No Brasil, esse valor chega a 63 bilhões, apenas atrás dos Estados Unidos, com 84 bilhões de dólares.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a depressão será a doença mais incapacitante do mundo até 2020, levando em conta que outras causas de afastamento têm sofrido uma tendência a diminuição, como as LER-DORT (Lesões por Esforços Repetitivos e Doenças Osteomusculares Relacionadas ao Trabalho), que já foram grande destaque entre os fatores de incapacitação.

Estima-se que entre 20% e 25% da população tiveram, têm ou terão um quadro de depressão em algum momento da vida, de acordo com estudos da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

Entre todos os trabalhadores afastados em razão dos transtornos comportamentais em geral, pelo menos 10 mil foram considerados acidentes de trabalho, ou seja, tiveram o ambiente profissional como agente desencadeador dos distúrbios.

Alguns especialistas destacam que há uma certa dificuldade em comprovar a relação do ambiente de trabalho e com os quadros depressivos, o que causa risco de subnotificação, ou seja, os índices podem estar abaixo da realidade.

Hermano Roberto Thiry-Cherques, autor do livro “Sobreviver ao Trabalho” (FGV Editora, 2004) comentou, em entrevista, os diversos fatores que podem causar a depressão. “Todas as situações desumanas: falta de perspectiva, falta de domínio sobre o que se faz, tarefas repetitivas, hierarquia disciplinar, isolamento’’ afirmou.

O cenário em que vivemos é totalmente instável e cheio de opções e tem a sua parcela de culpa na criação de gerações cada vez mais angustiadas. ‘’Embora a depressão seja uma doença diagnosticada faz tempo, na escala que nós estamos vendo hoje é um problema inédito e ela tem, certamente, uma relação importante com o universo do trabalho,’’ diz Alexandre Teixeira,  autor de “Felicidade S.A: por que a satisfação com o trabalho é a utopia possível para o século 21” (Arquipélago Editorial, 2012). 

A liberdade de escolha, a incerteza e o medo relacionados à profissão que um indivíduo quer seguir levam a uma angústia profunda na geração atual. Além disso, os ambientes profissionais, que estão cada vez mais competitivos e com maior pressão por resultados, aumentam progressivamente o risco de a doença ser propagada.

Infelizmente, os pacientes que sofrem com os distúrbios psicológicos ainda não possuem o apoio necessário, seja da empresa em que trabalha, dos colegas, gestores ou da própria família. Isso se dá em razão da dificuldade que as pessoas ao redor têm em perceber que o profissional precisa de ajuda e está passando por uma situação delicada.

A psicóloga Miryam Cristina Mazieiro afirma que as pessoas que convivem com um trabalhador que está enfrentando os problemas psíquicos devem acolher esse paciente, procurar se informar mais sobre esse tema e as suas questões, refletir se o estilo de gestão da empresa está associado aos problemas de saúde e de estresse dos seus empregados e considerar que o sofrimento mental pode ser um problema coletivo, e não de uma pessoa só.

Além disso tudo, as empresas precisam oferecer o suporte necessário e trabalhar na prevenção da depressão e de outros distúrbios psicológicos, sem contar que devem criar ambientes profissionais em que os funcionários consigam e se sintam livres para falar abertamente sobre a doença, sem que este problema tão grave seja rotulado como ‘’frescura’’.

Fonte: Pexels

Entretanto, apesar do aumento no número de casos, a maioria das empresas ainda não estão preparadas para lidar com a doença e suas consequências. Manoela Serra, autora do livro “O Diário Bipolar” (Autografia, 2016), que sofre de bipolaridade desde criança, afirma que “nunca houve um apoio para tratamento nem reintegração pela empresa” e até mesmo a perícia do INSS era incapaz de compreender a sua dificuldade. “Eu estava muito doente, depressiva e suicida, e quando cheguei para a perícia o médico falou: ‘você está bem pra trabalhar, isso não interfere em nada, se não quiser trabalhar peça demissão'”.

Apesar de casos como o de Manoela, a ação de uma vendedora que apresentou quadro depressivo por conta do trabalho e das pressões e humilhações que ela sofria no local teve perícia técnica feita por uma psicóloga reconhecida pelo Tribunal Superior do Trabalho e ganhou uma indenização.

Um exemplo famoso da brutalidade da depressão é o do piloto Andreas Lubitz, da companhia aérea Bermanwings, que em 2015 derrubou o avião em que estava trabalhando como copiloto, se suicidando e matando 150 pessoas. O caso, que chocou o mundo, ficou conhecido por conta das descobertas feitas depois: na casa de Andreas ele escondia uma requisição para que ele se afastasse do trabalho por conta da depressão.  Após esse caso, algumas empresas, com medo de que isso se tornasse recorrente, tomaram atitudes variadas.

Algumas, como a rede de laboratórios de medicina diagnóstica Fleury, fizeram estudos para medir os índices de incidência de doenças mentais e tomaram providências como atendimento psicológico e, em casos mais graves, encaminhamento para tratamento. Outro exemplo é o da padaria Benjamin, que criou uma diretoria de gente e felicidade que teria como propósito levantar a moral e proporcionar um ambiente de felicidade para os empregados. Em contrapartida, empresas como a Foxconn, montadora de gadgets chinesa, foram denunciadas por fazer os funcionários assinarem uma “cláusula de não suicídio”, depois que 13 funcionários se suicidaram num período de 12 meses.

Apesar de a depressão não estar na relação de doenças ocupacionais do Ministério do Trabalho e da Previdência Social, quando ela incapacita o trabalhador e é constatada em perícia médica realizada pelo INSS, gera o direito a recebimento de algum benefício, como o auxílio-doença.

As causas desses quadros depressivos são as mais variadas; podem ser desde a exposição a produtos tóxicos (que podem levar a neurointoxicação), a transtornos de estresse pós-traumático ou desgaste mental. No caso da Foxconn, o centro de pesquisas que fez a denúncia descobriu humilhações públicas, falta de proteção contra produtos químicos e jornadas de 80 a 100 horas semanais sem intervalo para refeições. De acordo com Miryam, “devem ser também observadas as questões do ambiente, para que o trabalhador não seja o único culpabilizado”

Segundo Alexandre Teixeira, um dos fatores que podem desencadear as doenças mentais é a chamada ‘’crise de propósito’’. Essa crise leva em conta que as pessoas passam a maior parte do tempo que estão acordadas no trabalho. ‘’Se essas pessoas não encontram um sentido para aquilo que elas fazem no seu dia a dia e acham que a atividade que consome a maior parte do tempo delas não faz sentido, evidentemente isso deprime, desmotiva.’’ afirma o autor. As consequências, observa, são inúmeras.‘’Elas tendem a ficar menos motivadas com o trabalho, tendem a produzir menos, ter resultados piores e provavelmente uma cobrança maior, uma pressão maior por resultado e, se não conseguem atender essa pressão, isso tende a aprofundar esse ciclo depressivo”.

A crise de propósito está relacionada com a escolha que uma pessoa vai fazer e, mesmo que seja algo que lhe dê prazer, uma parcela significativa do tempo vai ser consumida fazendo coisas que não agradam o trabalhador. Teixeira cita o slogan ‘’faça o que você ama’’ e diz que o romantismo profissional que rodeia essa geração é inadequado e visto como uma utopia. “As pessoas te pagam para fazer um trabalho, parte do que você faz vai ser complicado, chato e desagradável. Buscar um trabalho que te faça feliz, em que você ganhe sabedoria, aprenda e ganhe energia, eu acho que é uma utopia que vale a pena seguir’’, afirma.

Segundo Miryam, os transtornos mentais não surgem da noite para o dia e muitos dos sinais externos do estresse e de outros problemas podem ser notados pelos gerentes e colegas. Esses sinais aparecem em forma de alterações constantes no humor e no comportamento da pessoa. ‘’Irritabilidade, indecisão, absenteísmo ou desempenho reduzido’’ são exemplos que a psicóloga usou.

Ela ainda comenta que uma pessoa nessa situação pode aumentar o consumo de álcool e drogas e, nesses casos, os superiores e os colegas de trabalho não abordam o assunto por achar que se trata da vida particular do trabalhador e não diz respeito a eles. Mas, apesar disso, a especialista ressalta que deve existir uma consciência maior dos gestores de que esses problemas existem no ambiente de trabalho e precisam ser abordados, já que ‘’a saúde e a segurança fazem parte de suas responsabilidades’’, como ela afirma.

As autoridades de uma empresa devem demonstrar que tratam os problemas mentais com seriedade e compreensão. Evitar críticas destrutivas, buscar explicações e fazer comentários agressivos como ‘’isso é frescura’’ é um passo importante para lidar com esse tipo de coisa.

Assim que o transtorno for diagnosticado, o trabalhador deve ser orientado sobre os recursos organizacionais e de saúde disponíveis e ser encaminhado ao Serviço de Saúde Ocupacional. Além de ‘’no dia a dia, oferecer ajuda, colaborar para que atinja suas metas, monitorar e dar feedback ao trabalhador sobre o seu desempenho e refletir se o estilo de gestão pode estar associado ao aparecimento de estresse e de outras doenças mentais’’, conforme sugere Miryam.

Outras medidas cabíveis sugeridas pela psicóloga para evitar que o trabalhador desenvolva transtornos psicológicos decorrentes do trabalho são, por exemplo, lideranças que orientem e consigam engajar e capacitar os funcionários de acordo com o perfil de cada um e organizações que protejam a saúde mental de seus empregados. Para ela, é importante ‘’cuidar para que a cultura organizacional seja pautada em valores positivos e de valorização de seu capital humano’’. Além disso, é essencial promover um ambiente voltado para a cooperação e ajuda mútua entre os funcionários, já que o apoio social tende a reduzir os efeitos do estresse e dos demais transtornos.

Por fim ela aconselha que as empresas modifiquem seus ambientes de trabalho, pois quando o  “adoecimento apresenta relação com o trabalho, somente cuidar do indivíduo e retorná-lo a um ambiente adoecedor” pode aumentar os riscos de recaídas.

 

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