O cinema ativista de Patricio Guzmán mantém há 40 anos estreitos laços com a memória sobre as vidas afetadas pelo governo de Pinochet.

“Gostaria que os telescópios não olhassem só para cima. Que olhassem para baixo e, atravessando camadas de terra, nos pudessem dizer, finalmente, onde eles estão (nossos mortos). ”, diz Victoria, uma das narradoras da obra “Nostagia de La Luz”, que persevera na busca por mortos desaparecidos na ditadura do Chile. Assim também persiste o documentarista da obra, Patricio Guzmán, que há mais de quatro décadas registra narrativas a respeito do período da ditadura de Pinochet.

 

                                                                                                                    Foto: Reinaldo Ubilla

 

Patricio Guzmán (Santiago – 1941) é um dos cineastas chilenos mais aclamados atualmente. Começou sua carreira na década de 60, com um viés político e de denúncia sobre as atrocidades cometidas no período do governo do general Augusto Pinochet (1973 – 1990). Suas obras, que servem como documentos dos primeiros anos do golpe, hoje possuem um caráter de registro “antiesquecimento” sobre a época. Produziu 13 filmes sobre a ditadura e a memória de personagens que foram afetados por esse período. A repercussão de suas obras fez com que em 1973, Guzmán tivesse que partir em exílio para Espanha, depois em Cuba e França, onde vive atualmente.

O retorno à ditadura de Pinochet envolve aspectos de sua própria história, que trespassa a experiência de ter presenciado o golpe militar que derrubou o presidente socialista, Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973. Inclui também uma narrativa pessoal de perdas, como o desaparecimento do amigo, Jorge Hernán Müller Silva, capturado, com a namorada, pelas forças armadas em 1974.

Uma de suas primeiras e mais conhecidas obras é a trilogia “La Batalla de Chile” (A Parte I: Insurreição da Burguesia, Parte II: O Golpe de Estado e Parte III: O Poder Popular), lançadas entre 1975 e 1979. Os três filmes acompanham a queda de Salvador Allende e os primeiros anos após a tomada de poder por Pinochet. A obra ficou especialmente marcada por incluir a sequência do assassinato do cinegrafista argentino, Leonardo Henrichsen, em 1973, pelos militares. O registro foi feito pelo próprio Leonardo, enquanto vemos sua câmera cair após alguns tiros serem disparados em sua direção. Seu assassinato ocorreu durante uma tentativa anterior do golpe militar, em 29 de junho de 1973, evento conhecido como Tanquetazo, primeira tentativa de golpe malsucedida.

 

A memória é um tema a longo prazo e a pessoa avança muito devagar. Acho que o golpe de Estado continuará a ser um fardo por mais cem anos no Chile e que a Batalha do Chile só será mostrada em grande escala quando todos os envolvidos estiverem mortos há muito tempo”.

Guzmán em entrevista para a revista Ventana Latina.

 

Desde 2010, o documentarista tem se dedicado à investigação de espaços de memórias – tendo como norte os desaparecidos políticos da ditadura. Nesse mesmo ano, lançou o documentário “Nostalgia de La Luz”, vencedor do Prêmio do Cinema Europeu. A obra, tida por alguns críticos como ensaio documental, em função de seu aspecto jornalístico e histórico, busca um paralelo entre a astrologia e a incansável procura de um grupo de mulheres setentenárias por vestígios de familiares desaparecidos na época da ditadura. O documentário tem como cenário o deserto do Atacama. Justamente por ser o local mais seco do Planeta, as nuvens são escassas. Além disso, a poluição do ar é mínima e não há luzes por perto, o que garante maior visibilidade do céu. Por isso, ali se encontram os principais telescópios já fabricados.

 

                                                                                            CARTAZ DO FILME NOSTALGIA DE LA LUZ (2010)

 

A relação entre a astronomia, a arqueologia e o grupo de mulheres se dá a partir de um eixo em comum: a busca por um passado oculto. Em entrevista para o portal britânico, BFI Player, Guzmán comenta: “É um filme sobre o passado, uma demonstração de que o mais importante na vida é o passado, porque todo o território do passado é fundamental para as pessoas e para o futuro. Na medida em que somos seres humanos, somos os herdeiros de geração após geração que remontam à pré-história, e a matéria de nossos corpos é a questão das estrelas. Nós pertencemos à Via Láctea – essa é a nossa casa, não apenas a Terra”.

Em 2015, com a obra El Botón de Nácar – com tradução “O Botão de Pérola” – Guzmán faz alusão à história de Jemmy Button, um adolescente Yagan vendido a um capitão naval britânico em 1830 por um botão de madrepérola. Os Yaganes, ou Yámanas, são um dos povos indígenas que habitam o Cone Sul, que abrange Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Peru e Brasil (sul) e em especial Tierra del Fuego. Com as missões inglesas estabelecidas no Século XIX (1841 -1886), registra-se que 90% do povo Yaganes tenha morrido em decorrência de doenças como febre tifóide, sarampo e varíola que foram trazidas pelos novos ocupantes. Cristina Calderón (1928) é a última descendente a falar o idioma Yagan, considerada “tesouro humano vivo” pelo antigo Conselho Nacional de Cultura e Artes do Chile.

O documentário mira o Oceano Pacífico como local de representações históricas, de catástrofes e origem de um povo. Esse espaço de construção e busca por uma memória coletiva também envolve a lembrança de inimigos políticos do governo militar que eram lançados ao mar com sacos ou pedaços de ferro amarrados aos corpos. Prática também realizada nas ditaduras argentina e brasileira, conhecida como “voos da morte”. O botão, assim como no caso do menino Yagan, é utilizado como referência ao último vestígio encontrado de um possível militante atirado ao mar, que é mencionado no filme. Estima-se que 1.200 corpos desapareceram dessa mesma forma durante a ditadura do Chile.

As obras “Nostalgia de la Luz” e “El Botón de Nácar” fazem parte de outra trilogia que terá como desfecho um filme que tratará sobre a Cordilheira dos Andes, ainda sem previsão de lançamento no Brasil.

Reinaldo Cardenuto, historiador e professor do Departamento de Cinema e Vídeo da Universidade Federal Fluminense (UFF), em artigo “Ser cineasta, ser historiador: Patricio Guzmán entre as memórias e a nostalgia da luz”, discute o cinema de Guzmán enquanto importante registro histórico:  “As lentes da câmera de Guzmán, obstinadas construtoras da história, são instrumentos para ampliar o olhar do espectador em relação a um passado que enfrenta o risco constante de desaparecer graças a interesses ideológicos conservadores”.

Memória e Justiça de Transição

A ditadura de Pinochet levou à morte mais de 3 mil pessoas, além de 38.000 torturados. Em 1978, foi aprovada por decreto a Lei de Anistia no Chile, que buscava servir de escudo a todos aqueles que pudessem ser criminalizados no futuro, em razão de suas atuações desde 1973. Até hoje a lei não foi abolida, mas em 1998 por decisão da Corte Suprema, tal decreto perdeu sua validade em casos de violação de direitos humanos. E, desde então, foram realizadas três Comissões da Verdade (1990; 2003; 2010), que resultaram em 28 mil denúncias e 106 condenações de agentes da época da ditadura militar.

A Comissão da Verdade é um órgão investigatório, instaurado por governos, que busca apurar eventuais casos de torturas, desaparecimentos e mortes dentro de um período histórico. Elas visam consolidar uma verdade e prestar devidos esclarecimentos a respeito da época a ser investigada. No Brasil, apenas em 2012 foi criada uma Comissão Nacional sobre a ditadura militar (1964 – 1985), sendo que esta não teve caráter punitivo pois, por decisão do Supremo Tribunal Federal, em 2010, a Lei de Anistia ainda teria validade.

O direito à memória e à verdade são componentes da chamada Justiça de Transição, que busca esclarecer violações e abusos cometidos por parte do Estado, assim como desmentir versões falsas – e muitas vezes caluniosas – sobre indivíduos, vítimas de tais atrocidades. O mais famoso exemplo no Brasil é o caso do jornalista assassinado Vladimir Herzog­, que teve sua morte forjada em suicídio.

Sobre a temática da memória e a importância de nações se voltarem constantemente ao seu passado, Guzmán em entrevista para a revista cultural Ventana Latina cita os casos do Chile e Brasil:

“No Chile, chegou-se a um ponto em que 40% dos casos envolvendo violações de direitos humanos foram julgados, mas ainda restam 60%, o que é muito, considerando que 20 anos de transição já passaram. Se alguém perguntar por que a justiça chilena tem sido tão lenta, chega-se à conclusão de que não há vontade política real. Até agora nenhum presidente teve essa vontade; esperemos que o próximo tenha. Neste momento, o Uruguai é muito ruim nesse aspecto, e o Brasil e a Guatemala ainda são piores. Mas é preciso continuar”.

 

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