No Brasil, aproximadamente 70% dos trabalhadores sofrem com sequelas do estresse profissional

As doenças psicológicas vêm crescendo, enquanto os abusos morais são naturalizados. Estagiários relatam infelicidade e depressão já no início da inserção no mercado de trabalho.

Por Adriana Vieira, Elaine Bertoni e Giovanna Costa

Com no máximo 22 anos, os nascidos entre 1996 e 2010 são chamados de “geração Z”. São eles os jovens que sofrem com a pressão do sucesso num momento em que existem milhares de posts nas redes sociais definindo o que é ser feliz. Seja determinada por um tênis de marca, uma roupa cara que está na moda ou uma viagem ao exterior, a felicidade é exposta nas redes sociais como um emblema do que é ser um jovem bem-sucedido nos dias de hoje. De acordo com a psicóloga americana Jean M. Twenge, professora da Universidade Estadual de San Diego, em um artigo publicado no ano passado pela revista  “The Atlantic”, fisicamente esta é a geração mais segura que já existiu, mas a dependência das telas dos celulares e das redes sociais também a tornou a mais vulnerável na perspectiva psicológica. A conclusão da pesquisa é que o contato com os smartphones está tornando essa geração cada vez mais infeliz e suscetível à pressão.

Nos últimos anos, o aumento dos casos de depressão e ansiedade na adolescência têm preocupado pais, professores e profissionais da saúde. Os principais fatores para este aumento são: situações de tensão no âmbito familiar, foco excessivo no sucesso e principalmente medo de fracassar. Um dos primeiros indícios de que a vida adulta começou é a inserção no mercado de trabalho. Porém, as consequências da busca incessante pelo sucesso imediato neste início da carreira profissional podem ser drásticas. Além disso, a infelicidade no estágio aliada às atividades do dia a dia e aos desafios do ambiente acadêmico, é um fator capaz de contribuir para estes casos. Um exemplo da gravidade dessa questão são dados obtidos pelo Estado por meio da Lei de Acesso à Informação em 2017. Eles revelam os números de tentativas de suicídio em universidades: apenas na UFSCar, foram registradas 22 tentativas nos últimos cinco anos. Nas universidades federais de São Paulo (Unifesp) e do ABC (UFABC), cinco estudantes se suicidaram no mesmo período.

O sentimento de frustração durante esta busca se dá pelo medo de fracassar. Entretanto, quando se é estagiário, é necessário entender que este primeiro contato com a profissão foi feito exatamente para desenvolver o aprendizado, obter contato com a profissão escolhida, aprender com os erros e, finalmente, atuar na área escolhida. Entretanto, existem algumas condições que agravam esses problemas, como a pressão dos superiores, o abuso de poder, o excesso de tarefas diárias, pressão psicológica e a dificuldade de conciliar a faculdade com o estágio.   

O estágio visa à preparação para o trabalho produtivo de estudantes que estejam frequentando o ensino regular em instituições de educação superior. A atual Lei do Estágio, em vigor desde 25/09/2008, define os parâmetros que regulamentam as contratações de estagiários, como a carga horária, recesso remunerado, férias, o tempo máximo em que ele pode atuar, entre outros. Mesmo assim, o descumprimento destas leis é recorrente na maioria das empresas. Um exemplo muito comum é o excedente de horas trabalhadas. A lei do estágio determina que o estudante trabalhe no máximo seis horas diárias, ou seja, 30 horas semanais.  Logo, se o empregador exigir que o estagiário trabalhe por mais tempo, estará infringindo o contrato, uma vez que o contratado estará cumprindo jornada extra.

Fonte: pexels

O medo e a insegurança são os principais fatores que geram o estresse, a ansiedade e até doenças como a depressão. Por uma troca de chefe numa empresa de marketing e as pressões dos prazos da faculdade, a estagiária Karina Cucolo se sentiu extenuada. “Eu estava tendo que carregar nas costas sozinha os trabalhos em grupo da faculdade. No estágio, eu estava tendo que tomar todas as decisões, mesmo sendo estagiária. Entrei em colapso”. Foi nesse momento que começou a ter os primeiro sintomas de ansiedade, e consequentemente depressão, por sentir que não dava conta dos trabalhos que lhe atribuíam. “Escondi minha depressão até o final no serviço com medo de ser julgada”, contou.

A ansiedade causa sensações corporais desagradáveis, tais como tremores no corpo, aperto no peito, falta de ar, palpitações, medo intenso, frio no estômago, transpiração, entre outros. Segundo o Instituto de Psiquiatria Avançada e Neuromodulação (Ipan), a ansiedade é um conjunto de sintomas causados por uma uma liberação de substâncias (como a noradrenalina e a adrenalina) que têm um efeito estimulante que prepara o organismo para enfrentar uma situação de perigo real ou imaginária. Caracteriza-se pela antecipação dos momentos como uma reação de resposta ao estresse, preparando o corpo para fugir ou lutar em uma situação de perigo. Criam-se cenários desproporcionais ao fato em si, que geram pavor suficiente para abalar a pessoa emocionalmente, servindo como alerta para que haja a defesa de uma possível ameaça. Segundo dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil é o país com a maior taxa de pessoas com transtornos de ansiedade no mundo e o quinto em casos de depressão: 9,3% dos brasileiros têm algum transtorno de ansiedade e a depressão afeta 5,8% da população.

Fonte: Pixabay

Além de situações de herança genética, a ansiedade pode ser causada por permanência em ambientes estressantes, preocupação excessiva, eventos traumáticos, tensão muscular, problemas de sono, hipertireoidismo, uso de substâncias psicoativas (estimulantes em geral), abstinência (ao álcool, por exemplo), e principalmente, por medo e insegurança, características muito presentes na personalidade dos jovens. Segundo os especialistas do IPAN (Instituto de Pesquisas Avançadas em Neuroestimulação), preocupar-se com o futuro não é uma coisa ruim, afinal isso faz parte do sistema de defesa de cada um. Porém, é preciso estar atento em relação aos sintomas, principalmente quando aparecem sem motivo aparente e são constantes.

Estagiando em um escritório de advocacia, Daniel* lembra de situações intimidadoras, como tentar conversar com os sócios diversas vezes pois o próprio RH não o ajudava na solução de certos problemas. Em relação à jornada de trabalho, conta: “Era muito desgastante, tinha dias que saia às 22h, 23h e até de madrugada”. Além disso, se sentia em um ambiente muito hostil e competitivo, o que provocou uma queda em sua imunidade por causa do desgaste físico e emocional. Segundo pesquisa da International Stress Management Association Brasil, 70% dos trabalhadores brasileiros sofrem de sequelas do estresse profissional. Entre elas, dores, cansaço crônico e depressão. Em relação à última, de acordo com um estudo da OMS, 5,8% da população brasileira tem esse problema, um total de 11,5 milhões pessoas. É o país com maior prevalência de depressão da América Latina e o segundo com maior prevalência nas Américas, ficando atrás somente dos Estados Unidos, que têm 5,9% de depressivos. De acordo com esses estudos, a previsão é de que a depressão será a maior causa de incapacidade no mundo até o ano de 2020. No Brasil, é considerada a segunda causa de afastamento do trabalho, só perdendo para as Lesões por Esforço Repetitivo (LER), também conhecidas como Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho (DORT).

Fernanda* já precisou lidar com graves questões emocionais e contou sobre sua frustração no estágio no setor bancário. Tudo teve início quando seus colegas começaram a arcar com mais tarefas que ela, fazendo-a se sentir “inútil”. Além disso, tentar conciliar o trabalho com a faculdade de economia a fez passar por um desgaste emocional e físico maior do que imaginava. “Foi só por causa desse estresse que eu percebi que tinha crise de ansiedade e início de depressão”, disse. Em uma situação ainda mais grave, Paula* já foi muitas vezes destratada e humilhada por seus superiores em uma emissora de televisão durante seu estágio. Conta também de problemas de saúde física e psicológica: “Sou uma pessoa muito ansiosa, tinha episódios de crise de pânico e eles ficaram muito frequentes no trabalho. Fiquei doente física e emocionalmente várias vezes por causa de estresse.”

Fonte: Unsplash

A psicóloga Beatriz Silva destaca a importância do momento de aprendizado do jovem que está exercendo sua função em um estágio: “É preciso lembrar que é um estágio, que eles não são profissionais, e portanto, quando conseguem dar conta do serviço, é um mérito pessoal, e quando ocorre algum problema é preciso lembrar que é um método de aprendizado, que isso faz parte do processo”. Ela ainda destaca a necessidade do estagiário de lidar de maneira menos dura consigo mesmo: “Essa época costuma causar problemas porque não estamos familiarizados com soluções. Se o estudante não diminuir o nível de exigência dela mesmo,  pode causar doenças principalmente estresse e ansiedade”. Aquele que não produz ou não atinge as metas estabelecidas é marginalizado e visto por seus semelhantes como inútil e essa falta de apoio de colegas é um dos fatores de risco para o sofrimento mental, explica Josiane Mota Lopes, na dissertação de mestrado “LER/DORT e depressão:  uma reconstrução (auto)biográfica do adoecimento em trabalhadores”, defendida em 2011 na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Lopes lembra a necessidade de o trabalhador se sentir livre para criar e agir num ambiente profissional. “Os adoecidos crônicos não perdem só a autoestima, mas, também, a sua identidade. Ao se perceberem como pessoas limitadas em um mundo onde para ser reconhecido tem que ser saudável e capaz, aquele que está fora do padrão de normalidade culturalmente instituído não é valorizado”, escreve Lopes, citando a socióloga Kathy Charmaz.

A advogada trabalhista Amanda César explica a relevância da Lei do Estágio: “É importante pois regulamenta uma relação de emprego que tem cunho principalmente educativo, geralmente o estágio é a porta de entrada para o mercado de trabalho”, diz, para em seguida reforçar: “Acredito que como em qualquer relação de emprego, não são todas as empresas que cumprem a legislação aplicável a estes trabalhadores.”

As Lei do Estágio assegura os seguintes direitos: bolsa-auxílio, vale-transporte, máximo de seis horas diárias, direito ao recesso remunerado de até 30 dias e no máximo dois anos na mesma empresa. Além disso, é de direito do estagiário, contar com o Seguro de Acidentes Pessoais, que o assegura caso ocorra algum acidente no ambiente de trabalho. Entretanto, algumas destas regras não são colocadas em prática.

Quando questionada sobre a solução para estas questões, a advogada analisa que “uma forma eficaz de correção do problema seria uma fiscalização mais incisiva dos órgãos competentes como Ministério do Trabalho e Emprego e Ministério Público do Trabalho, com a imposição de multas mais duras nos casos de descumprimento da lei”. Além desse controle fiscal, é necessário que o estagiário se conscientize sobre seus direitos e se posicione no ambiente de trabalho, conforme a advogada Fabíola Marques orienta: “O estagiário deverá conhecer seus direitos e exigir seu cumprimento. Se observar que as regras não estão sendo cumpridas, ele poderá denunciar o seu descumprimento no Ministério Público do Trabalho ou no Ministério do Trabalho e obter seus direitos na Justiça do Trabalho, sempre consultando um advogado especialista na matéria”.

* Os nomes reais foram alterados para manter a identidade dos estagiários preservada.

 

Leave a Reply