Por Isabella Garcia, Leonardo Sasso e Luiza Schiff

 

Sentado numa poltrona preta com alguns furos, Jadson sorri. Fala ‘bom dia’ para o primeiro passageiro que entra no ônibus 8060, do Terminal Lapa rumo à Vila Piauí, em São Paulo. Quase dez da manhã e o sol já escaldante deixa a garrafa plástica de água quente. O passageiro nem olha, só passa seu bilhete único e se senta em uma das poltronas do transporte. Jadson, 37, é cobrador há sete anos e, mesmo com uma possível extinção da função, não se incomoda. “Tudo são rumores e não existe nada concreto”.

A retirada dos cobradores é um projeto antigo da Prefeitura de São Paulo. Começou com o prefeito Paulo Maluf, em 1993. O projeto atual é do ex-prefeito Fernando Haddad. O Tribunal de Justiça de São Paulo liberou outro ex, João Doria, para a retirada dos cobradores. Agora a decisão está nas mãos do prefeito atual, Bruno Covas.

Vinte mil trabalhadores exercem essa função na cidade. A extinção dos cobradores tem a mesma lógica da de outras profissões, como datilógrafa, leiteiro, telegrafista: o avanço da tecnologia e a redução das despesas. O cartão com chip torna anacrônica a figura do cobrador.

O dia a dia

Durante a viagem, o cobrador fica atento ao trânsito. Fala que a função é do motorista, mas sempre é bom ajudá-lo, pois muitas vezes, com o excessivo número de carros, principalmente nos horários de pico, o estresse toma conta do condutor. A dupla função não o incomoda, inclusive exerce com prazer.

O que realmente incomoda Jadson é a posição em que fica sentado. Ele e todos os outros cobradores se mantêm de lado em relação ao ônibus, que se locomove para a frente. “Tenho que ajustar a posição da poltrona, mas aí posso ter uma lesão, então tenho que burlar um pouco o movimento natural do corpo. É desconfortável, mas, com o tempo e a experiência, pegamos o jeito”, diz o cobrador, enquanto conta o troco de um rapaz, que parece estar com pressa para chegar à faculdade.

Os cobradores custam, em salários e encargos, cerca de R$ 1 bilhão por ano para a Prefeitura de São Paulo. Que prefeito não sonha com essa economia para investir em creches, postos de saúde, estradas? Nos corredores onde funciona o BRT – sigla para ônibus rápido em inglês –, o cartão agiliza ainda mais a operação de entrada de passageiros e aumenta a velocidade do transporte coletivo, item que rende votos em qualquer eleição.

O estresse diário da função não é o maior problema de Jadson, e sim o comportamento dos passageiros. “Muitas vezes me ofendem… poxa, estou trabalhando, dando bom-dia, tentando deixar o dia mais alegre e aí ficam brabos ou passam reto, sem olhar”, desabafa o cobrador. Apesar disso, entende que as pessoas pagam pelo serviço e têm direito de fazer o que quiserem.

A história do bêbado

Jadson para e ri. Lembra-se de uma história de quando fazia as linhas do centro de São Paulo. Não gostava do percurso, sentia receio. Principalmente, no final da noite. Muitas vezes, via pessoas loucas ou bêbadas entrarem no ônibus e tentarem fazer algo.

Um deles começou a contar a história de sua vida para o cobrador. Cansado, pouco ouvia. No fim das contas, até ajudou o bêbado. “Muitas vezes, as pessoas estão sozinhas, isoladas, carentes… Nos tornamos até amigos ou pelo menos um ouvinte”, diz.

O futuro

Jadson não acha o salário tão ruim, embora sonhe com maior estabilidade e uma grana a mais no fim do mês. “O valor é justo pelo que desempenhamos. Claro que quero mais, mas, pelo que faço hoje, está de bom tamanho”, diz o homem, que agora, no fim de mais uma viagem, já vê o número de passageiros dentro do transporte diminuir.

Começa a fazer os preparativos tradicionais de cada percurso. Conta o dinheiro recebido, olha a catraca para confirmar o número de pessoas que passaram pela roleta. Confere tudo. Bebe um gole de água e espera a chegada. A conversa com o motorista é em voz alta. Riem e comentam a goleada do Corinthians pela Copa Libertadores. “Até o Romero fez gol de bicicleta”, fala Jadson, alegremente.

Um dado que empresas de ônibus e prefeitos não gostam de ver abordado é a elevação exponencial de afastamentos de motoristas com problemas psicológicos provocados pelo estresse de acumular a função de cobrador e por se tornarem o único funcionário dentro do ônibus.

O cobrador termina a viagem e fala mais um pouco. Toma um café no bar da esquina. Acredita que não terá seu trabalho interrompido. Por experiência própria, sabe o quão difícil é extinguir a profissão. Fala da alta demanda que ele e o motorista já têm, juntos, então nem imagina se ficasse somente um deles no ônibus. “O fluxo de pessoas em São Paulo é gigante, vai ficar complicado só para o motorista. O trânsito vai ficar ainda pior”.

Daqui a pouco o ônibus segue viagem de novo. Até quando com o cobrador a bordo, é difícil de prever. A redução de despesas, a tecnologia e a velocidade do coletivo falam mais alto que a ameaça de aumento do desemprego, que o conforto do passageiro e que a preservação do equilíbrio emocional dos motoristas.

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