Por Thays Reis

Atriz Daniela Vega interpretando Marina em “Um Mulher Fantástica”

Isso acontece principalmente quando os papéis trans são desempenhados por homens cisgênero – quando a pessoa se identifica com o gênero com que lhe foi imposto. O dramaturgo trans MJ Kaufman fala, em entrevista para o jornal Howlround, sobre a necessidade de pessoas trans serem vistas para existirem para a sociedade “Eu acho que um elenco trans, interpretando papéis trans são importantes não só porque precisamos fazer nossos corpos serem vistos, mas porque muitas pessoas trans são materialmente impactadas pela transfobia.” explica o roteirista.

Se as pessoas transexuais não são vistas no cotidiano, a sociedade continua ignorante quanto a sua existência e vida, tornando-as sempre estigmatizadas, perpetuando estereótipos de que elas são doentes ou profissionais do sexo. Muitos transsexuais realmente trabalham na noite, cerca de 90% deles, consequência de uma sociedade preconceituosa que não lhes dá oportunidade no mercado de trabalho.

Jared Leto interpretando a personagem trans Rayon no filme Clube de Compras Dallas.

No mercado cinematográfico ainda há um agravante: Existe uma limitação de papéis para os quais atores e atrizes trans são escolhidos para interpretar. Dificilmente são escolhidos para fazer o papel cis gênero de um homem ou mulher. E os personagens transsexuais, que seriam os únicos para os quais seriam perfeitos, por vezes são dados a homens cis, dificultando ainda mais a inserção dos trans nesse mercado.

Buscando reconhecimento pela dificuldade de papéis transgêneros, atores cis recebem grande reconhecimento e prestígio por sua capacidade e interpretação, como Jared Leto, que em 2018 ganhou o Oscar de ator coadjuvante pela personagem transsexual Rayon no filme Clube de Compras Dallas.

A personagem Lili Elbe do longa A garota Dinamarquesa, interpretada por Eddie Redmayne.

Porém não foi apenas Jared Leto que surfou nessa onda. O ator Eddie Redmayne representou a protagonista Lili Elbe em A Garota Dinamarquesa. O filme revela extrema sensibilidade ao contar a história de uma das primeiras pessoas a fazer a cirurgia de redesignação sexual, porém também foi muito criticado por dar o papel principal, de uma história importantíssima para o movimento, para um homem cis.

Quando questionado sobre a escolha por Redmayne, o diretor Tom Hooper foi evasivo e contraditório “O acesso a atores trans, homens e mulheres, aos papéis de trans ou cisgênero, é fundamental. E eu sinto que no momento, dentro da indústria, isso é um problema”, afirmou à revista Variety. “Há uma gama de atores trans talentosos e o acesso aos papéis é limitado” diz o diretor..

De certa forma, o filme, que poderia ser impecável por exaltar a coragem e expor as dificuldades da transição,  perde em representatividade, porque as pessoas trans não se identificam “Assim como o black face um dia foi feito por brancos, por não lerem os negros como dignos de se representarem, venho a fazer uma intersecção com a nossa condição enquanto pessoas trans: sub-gente, prostituídas, sujas e precárias. O cinema prefere visar o buzz em cima do homem que se “traveste” do que reconhecer a humanidade contida na mulher trans que deseja ser atriz” diz Maria Clara Araújo, mulher trans que luta pelos direitos de suas iguais, em suas redes sociais, sobre o filme A Garota Dinamarquesa.

Porém, nem só de casos ruins vive o cinema. Daniela Vega, atriz chilena transgênero, interpretou de modo magistral Marina, uma jovem vítima dos preconceitos da conservadora sociedade chilena em Uma Mulher Fantástica. O filme ganhou na categoria melhor filme estrangeiro. Além disso, gerou uma comoção internacional ao ser a primeira mulher trans a apresentar uma categoria no Oscar. Isso sim é representatividade.

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