“O racismo continua a estruturar a nossa sociedade”

Entrevista com Day Rodrigues, cineasta e ativista do movimento negro no Brasil

Por Gabriel Paes Velloso 

Day Rodrigues é cineasta e tem como um dos grandes pilares de seu trabalho o filme “Mulheres Negras: Projeto de Mundo”.  Para ela, não basta apenas apoiar o movimento negro, mas antes de tudo, entender qual é o contexto social em que vivemos:

“É preciso primeiro entendermos que o Brasil é formado por diversos grupos étnicos-raciais, e um deles é o povo africano, que antes de chegar ao Brasil, já tinha sua própria cultura, suas religiões e sua forma de conceber o mundo”.

A diretora está à frente de um dos episódios da série documental “Agenda Quebrando o Tabu”, sobre desigualdade, tema que vive e estuda diariamente: “Penso o que é o racismo estruturalmente, como ele se dá, como ele molda toda a sociedade e quais são as consequências disso na vida das pessoas”.

No episódio, que vai ao ar no canal GNT em setembro, Day escancara a disparidade entre ricos e pobres no Brasil, fato que se deve à estrutura racista de nossa sociedade.

“O racismo parte da inferiorização do negro em relação ao branco, da pessoa de ascendência africana e indígena como seres ausentes de intelectualidade. O racismo no Brasil é reflexo da ausência de pessoas negras nos lugares de poder, tomando decisões pelo futuro e pelo presente da sociedade. E quando falamos de racismo estrutural, queremos dizer que ele molda a concepção do Estado e das políticas públicas”, afirma a militante do movimento negro.

Muitas pessoas não gostam de associar o racismo institucional do país com a desigualdade de renda. Para elas, existem pessoas brancas vivendo na pobreza, assim como muitos negros enriqueceram – e isso não é mentira. Mas quantas pessoas estão nessas situações ‘fora do comum’?

“A pessoa branca precisa compreender que, nessa sociedade brasileira, do jeito como ela foi formatada na literatura e na televisão, tudo leva para que a pessoa branca tenha uma trajetória positiva, de oportunidades. Para a pessoa negra, não”, conta a diretora que não apenas sofre com os preconceitos diariamente, mas de fato se posiciona para mudar esse status quo falido.

“O simples fato de que a pessoa é branca, já lhe dá mais oportunidades do que uma pessoa negra. E o preconceito começa já na escola, quando há os xingamentos e a professora não dá atenção, na Universidade, quando os negros não são colocados como seres pensantes. Até no mercado de trabalho, porque a branquitude é corporativa e sempre indicará o amigo, ou o filho”.

E de onde surgiu tamanha desigualdade racial? A diretora afirma que passa diretamente pelo fato de não reconhecermos nossa cultura ancestral, dos verdadeiros povos que habitavam o país, no caso dos indígenas, e da grande massa que veio estruturar a base da população, os africanos:

“Temos que entender que o Brasil não tem só uma tradição europeia e branca. As escolas privadas fazem uma manutenção dos privilégios e não apontam, por exemplo, como funciona o racismo no Brasil”. Day completa, dizendo que “Um povo sem memória é um povo sem futuro. Não reconhecer as culturas de matriz africana, significa ausência de entendimento de quem somos nós”.

No entanto, questionada se o cinema é um caminho para expandir os horizontes das mentes racistas e fechadas, Day é pragmática:

“Eu não acredito que um filme seja capaz de mudar a vida de alguém. O Cinema pode até servir como forma de conhecimento, mas a questão é que não há diretores negros, com equipes negras e indígenas dirigindo longa metragens, e tendo acesso às verbas públicas para fazer com que seus filmes passem por salas comerciais, em grandes emissoras”.

O que Day quer é mudança. Ela reconhece as conquistas do movimento negro brasileiro até aqui, mas vê um horizonte muito maior a ser alcançado e, para tal, sente que precisa lutar ainda com outros preconceitos:

“Sempre existiram negros agindo de forma coletiva por uma mudança nesse sistema opressor. As pessoas antes eram chicoteadas, mortas em pelourinho e hoje são encarceradas, ou seja, nada mudou. O racismo continua a estruturar a nossa sociedade. E sendo mulher negra, preciso combater o racismo e o machismo. Como diz Audrey Lorde, ‘não há uma hierarquia das opressões, mas sim uma soma delas’.

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