Como nasceu e prosperou a cidade mais rica do país

Marcada desde sempre por contrastes, São Paulo teve crescimento explosivo no século XX. Veja a história por trás dos arranha-céus e indústrias da megalópole

Por Luiza Vilela

Quem vê a São Paulo encantadora de arranha-céus, tida como a maior e mais desenvolvida cidade do Brasil, o principal centro financeiro, corporativo e mercantil da América do Sul — agora no auge da superlotação de 12,11 milhões de habitantes —, não a imagina relegada a uma mera província de passagem para o café, descoberta por sertanistas, os bandeirantes, que vinham em busca de minérios ou indígenas para escravização. É difícil de acreditar que todos os 1523 quilômetros quadrados de asfalto há pouco menos de quinhentos anos já foram pedregulhos, grama e terra batida, restritos basicamente às ferrovias pelas quais as sacas de café passavam com destino aos portos de Santos e de Paraty. O ouro negro do Brasil, a segunda maior forma de economia do país depois da exportação de cana de açúcar, no período colonial, foi o principal estopim para a formação da megalópole de hoje.

Longe de arranha-céus, São Paulo começou como planície de passagem. No princípio de sua colonização, descobriu-se um fácil acesso ao litoral por dentro da cidade; uma maneira de ligar a capital do Brasil — na época, a cidade do Rio de Janeiro — e o principal local de produção de café, o Vale do Paraíba (mais tarde substituído pelo Oeste Paulista, com melhor desenvolvimento nas lavouras) ao porto de Santos, meio de saída para exportação. No começo, a cidade era composta por uma mistura de portugueses e índios. Foi só com a proporção que o negócio do café tomou que São Paulo cresceu aos olhos do Brasil e sua demanda por mão de obra nas lavouras se mostrou necessária para o andamento econômico do país.

A cidade empreendedora da linha de ferro e do café

Acervo Livre, ciclo do café

São Paulo, apesar de pequena, até o século XX tinha uma localização favorável, próxima à capital do país, o Rio de Janeiro.  Se nos séculos XVIII e XIX, a economia brasileira basicamente se concentrou na exploração do ouro em Minas Gerais, a partir de fins do século XIX, início do século XX, o café se tornou a principal riqueza do Brasil e produto de exportação global. Diferente do período da mineração do ouro, onde, basicamente, a exploração era feita com trabalho escravo e o transporte no lombo de burros e bois, no caso da exportação cafeeira o trabalho foi feito por imigrantes e o transporte por uma estrada de ferro”, afirma Carlos Honorato Teixeira, doutor em administração de empresas, mestre e economista pela FEA-USP.

Para satisfazer as necessidades da lavoura, a cidade recebeu uma importação em larga escala de negros, o que caracterizou em 1872 uma população de 31.385 habitantes, sendo um terço dela composta por negros e mulatos. Assim permaneceu até 13 de maio de 1888, quando, após seis dias de votações e debates no Congresso, a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea, que determinou a libertação dos escravos no Brasil. Com isso, a produção de café se viu em risco, e esse problema foi facilmente resolvido pela substituição de uma mão de obra por outra: a importação subsidiada (e depois espontânea) de europeus para as fazendas. Com a oferta de moradia e uma pequena porção de terra, os imigrantes vieram para cultivar e exportar o café, fato que aqueceu a economia da cidade. Centenas de milhares de europeus se deslocaram para trabalhar nas lavouras e tiveram que se realocar em São Paulo: foi aí que outra parte da economia começou a se desenvolver, a passos largos: o aluguel e construção de moradias que abrigassem todos os habitantes dentro da cidade. “Entre 1888 e 1900 passaram por São Paulo quase 900 mil imigrantes, dos quais 70% eram provenientes da Itália. (…) Nas duas décadas seguintes, outros 900 mil europeus passaram pela capital, distribuindo-se quase igualmente entre portugueses, espanhóis e italianos. Entre 1908 e 1930 se instalaram em São Paulo cerca de 50 mil sírios e libaneses, além de 35 mil judeus oriundos principalmente da Europa Oriental pós-Primeira Guerra Mundial” afirma a pesquisadora Raquel Rolnik, em seu livro “Territórios em Conflito – São Paulo: espaço, história e política” (Três Estrelas, 2017).

A crise de 1929 foi a responsável da crise cafeeira. Teixeira reafirma as consequências sofridas por São Paulo com a quebra da Bolsa de Valores em Nova York: “Vários renomados economistas estudaram com profundidade os impactos da crise de 1929 na economia cafeeira. Certamente a quebra da bolsa de Nova York afetou todo mundo e, como o café não é um produto de primeira necessidade, o Brasil foi muito afetado, e São Paulo, sendo o centro da produção do café quase quebrou junto com essa crise. Porém, o que é interessante da crise de 1929 para o Brasil é que a importância relativa do café para a economia já estava em declínio: suas variações de preço, dificuldades de controle da produção e enfoque em um único produto de exportação indicavam que novos caminhos deveriam ser observados e seguidos. Sucessivas crises nas décadas de 1910 e de 1920 indicavam que o poder na mão das oligarquias tinha data para terminar. Correntes mais modernizadoras batalhavam pela industrialização do país O mercado que crescia oferecia uma oportunidade de produção local e substituição das importações de produtos acabados. A crise acabou precipitando essa necessidade de mudança, gerou a Revolução de 1930, liderada por Getúlio Vargas, e conduziu São Paulo para ser o centro industrial do país, menos pela sua localização, neste caso, e mais pelo mercado que se formava, por uma jovem elite industrial e pelo excedentes econômicos da exportação de café. Os anos que se seguiram não foram fáceis, mas a mudança do modelo econômico na década de 30 facilitou uma retomada menos dramática”

Os primeiros passos da caminhada para a mobilidade urbana

Acervo livre: patrimônio do Museu do Imigrante

Em 1867 foi implantada a primeira estrada de ferro em São Paulo para interligar Santos e Jundiaí. Esse foi o primeiro marco para a urbanização da cidade, visto que a partir dela surgiu uma malha de trilhos no estado com dupla função de transporte: tanto das sacas de café quanto dos trabalhadores. A partir daí, o crescimento econômico de São Paulo era iminente: deu-se início à contratação de mão de obra assalariada para a construção de ferrovias e outros serviços surgiram dentro da capital; um pequeno passo para o desenvolvimento da terra da garoa como o principal centro econômico do país. “Desde a primeira metade do século XVIII havia estudos para fazer uma ligação ferroviária entre a cidade de Santos, e seu porto no litoral, e a cidade de São Paulo. Com ascendência da cultura do café e a forte influência do Barão de Mauá junto ao imperador Dom Pedro II, começou-se uma viabilização de um  projeto de descida da Serra do Mar, os 800 metros de altura que separam a cidade de São Paulo da Baixada Santista. Para a viabilização de tal projeto foi feita uma concessão de 80 anos para a São Paulo Railway, de capital predominante inglês, com capacidade de construir e operar a ferrovia. Tal construção, ligando Santos a Jundiaí, ligando o interior ao litoral, passando pelo centro de São Paulo, foi fundamental na consolidação desse eixo econômico e logístico e viabilizando o escoamento da produção de café, e por consequência o crescimento da cidade”, afirma Teixeira.

Mais à frente na história da cidade, surgiu o bonde. No começo do século XX, havia dois elementos fundamentais para seu funcionamento, desenvolvimento e equilíbrio que, aos poucos, começava a se tornar caótico: a eletricidade e o bonde. Na virada do século, a maior parte do desenvolvimento econômico interno da cidade estava centrada no café e no controle das linhas de trem, exercido pela empresa The São Paulo Tramway, Light and Power Co. A Light São Paulo, como era conhecida, foi uma empresa de capital canadense que gerava e distribuía energia elétrica e transporte público por bondes para São Paulo. Foi a partir da Light que a pujança da cidade se fez mais evidente: com energia elétrica distribuída pelos bairros, água encanada (na década de 1940, a Light também foi responsável pela retificação do Rio Tietê, Rio Pinheiros e pela construção da represa Billings e da usina hidrelétrica Henry Borden) e transporte público para trazer operários dos bairros extremos para o centro, teve-se um acúmulo de capital gigantesco. E esse fator também impactou os cofres públicos. Na década de 1910, o prefeito Antônio Prado emitiu um parecer contrário à prorrogação do contrato da Light com a prefeitura, fato que causou grande contentamento na população, que reclamava das altas tarifas e do serviço de má qualidade oferecido pela empresa. Mas foi logo derrubado pela Comissão da Câmara e, apesar dos motins e manifestações populares, “a Light continuou a garantir seu monopólio, garantindo também regras de indexação dos preços de terrenos, gerando eixos de expansão e definindo, a partir de critérios de mercado, quem deveria ser beneficiado e quem seria excluído da provisão de infraestruturas (fornecidas pela empresa), em uma cidade cuja demanda por urbanização se expandia em ritmo acelerado”, como escreve Rolnik em seu livro.

É importante ressaltar que nessa época, os votos tinham uma abrangência muito diferente da atual, excluindo da participação política mulheres, estrangeiros, menores de 21 anos e analfabetos, a maior parcela da população de São Paulo na época, que já contava com mais de 100 mil habitantes. Sendo assim, apenas uma pequena parte de São Paulo determinava as ações políticas da cidade, o que garantia valores e direitos apenas a quem os políticos servissem e se interessassem. Como os votantes normalmente eram homens brancos, ricos ou pertencentes à nova classe média, doutores, advogados, banqueiros e negociadores, fizeram-se os seus desejos. Esse fato se reflete na infraestrutura atual dos bairros populares e dos bairros centrais, já que os limites econômicos de cada um dos grupos sociais de São Paulo são bem marcados de acordo com a localidade em relação aos empregos. Neste momento, o acesso ao bonde, por mais caro e precário que fosse, torna-se indispensável e sua acessibilidade é extremamente bem garantida por apenas algumas partes da população. Isso só veio a melhorar na década de 50, pouco antes da Ditadura Militar, quando as mulheres alfabetizadas conquistaram seu direito de voto.

Em 1924, houve o surgimento dos primeiros ônibus clandestinos como forma de compensar as tarifas exorbitantes da Light São Paulo (que na época tinha menos interesse nos bondes e mais na energia elétrica e a obtenção dos rios para canalização). O custo do ônibus era bem menor que os propostos pela empresa canadense, além do alcance aos bairros mais distantes do bonde. Ameaçada pelo transporte clandestino, a Light propôs então a criação de um metrô no centro da cidade, a ampliação dos bondes e um sistema de integração com os ônibus, incorporando quase 200 carrocerias em circulação. Mas não sem interesses. Como contrapartida, exigiu novamente o monopólio dos transportes por ônibus e o aumento do valor das tarifas, momentos antes congelado pela prefeitura para evitar o caos da população. Essa proposta da Light causou descontentamento político de muitos partidos da época, já contaminada pelas divergências ideológicas da Era Vargas e marcada por  fortes enchentes nos períodos chuvosos (que foram creditadas à Light pelo controle de encanação dos rios). Isso inviabilizou a renovação do contrato com a empresa canadense, que foi substituída por uma nova proposta, do então prefeito, Francisco Prestes Maia, para abrir a Avenida Nove de Julho e a extensa malha de rodovias que trazem o acesso (e hoje, o trânsito) à cidade. 

Na época, a proposta de Prestes Maia significou uma possibilidade ilimitada de crescimento urbano. O combustível (diesel) dos ônibus garantiu o crescimento horizontal de São Paulo e transferiu boa parte das pessoas da periferia a outras regiões da metrópole, fato que atenuou em alguma medida  as periferias superlotadas. Parecia um plano perfeito para resolver os problemas sem deixar de beneficiar a elite: além do ampliamento citadino, os novos imóveis espalhados no entorno das rodovias reduziam o aluguel para os trabalhadores e não desvalorizavam as propriedades na regiões centrais, permitindo que a nova classe média, que lentamente ocupava seu espaço no perímetro urbano, fosse capaz de construir sua casa própria em seu próprio tempo. O novo modelo de circulação deu origem às principais rodovias de São Paulo: Nove de Julho, Tamanduateí, Avenida 23 de Maio e as marginais Tietê e Pinheiros, todas com sistema de asfalto e canalização dos rios. Apesar do vislumbre de sucesso e solução de problemas da mobilidade urbana da época, sabe-se bem que o plano de Prestes Maia, promissor na teoria, não se fez assim tão efetivo na prática. A pauta da mobilidade urbana em São Paulo ainda é alvo de muitas pesquisas para que seu funcionamento seja, de fato, concreto. Por causa da canalização dos rios, é notável o caos urbano toda vez que chove com os alagamentos, a desorganização das vias para comportar ônibus e carros e eventos comemorativos, jogos etc. A superlotação da cidade exige uma locomobilidade eficiente, rápida, útil e funcional, circunstância que ainda é um objetivo para a capital paulista. Embora esse processo não tenha sido a melhor resposta de locomoção, foi responsável pelo primeiro passo de mudanças econômicas importantes, como a locomoção das indústrias ao longo das rodovias de interligação com outros estados, como a via Dutra e a via Anchieta, na região do ABC Paulista, um processo intensificado nos anos 1950.

Panorama do Trianon, acervo livre

Teixeira reafirma a importância do transporte, em 1940, durante a Segunda Guerra Mundial. “A cidade no início dos anos 40 começava a se notabilizar como um centro Industrial emergente. A ferrovia São Paulo Railway cumpria um papel relevante de transporte de suprimentos durante a guerra, no eixo do Atlântico Sul. O nosso relativo isolamento geográfico nas batalhas centrais permitia que o esforço de guerra na Europa trouxesse benefícios à nossa atividade econômica.”

Foi somente em 1975 que a primeira linha de metrô entrou em circulação na cidade, o investimento industrial mais importante e custoso realizados até então em São Paulo. A linha 1-azul, que ligava os extremos norte e sul da cidade, foi responsável pela maior estação de metrô da cidade, dentro da praça da Sé. Foi a partir dela que surgiu, como interligação, o começo e parte da linha 3-vermelha, que ligava os extremos leste e oeste, em 1979. Em 1987, com o intenso crescimento econômico de São Paulo, foi inaugurada a linha 2-verde e seguida dela, em 2002, a linha 5-lilás, todas as linhas até então estatais. A última linha inaugurada em São Paulo foi privatizada pela empresa Via Quatro e deu origem à linha 4-amarela, em 2010. De acordo com as estações, grandes terminais rodoviários se incumbiram do trabalho de levar a população onde (ainda) o metrô não chegava. E, paralelo ao transporte público, ocorreu a chegada e o desenvolvimento da indústria automobilística.

 

A São Paulo superpopulosa que passou de 30 mil para 12 milhões de habitantes.

Teixeira menciona o primeiro surto de população da época. “Em 1872, a população de São Paulo era de 31 mil habitantes, o equivalente hoje a 20 composições cheias do metrô da linha azul (ela tinha originalmente 51 composições ).  Em 1900, São Paulo tinha cerca de 240 mil habitantes e, em 1920, 580 mil. Esse salto de quase 20 vezes é reflexo puro do grande volume de imigrantes. Há registros de que a população de imigrantes entre as décadas de 20 e 40 representava 50% da população da cidade. Um relato da minha avó nascida em 1900, quando voltava de Portugal no mesmo navio que trouxe os braços e a cabeça do Cristo Redentor, em 1931, ao chegar ao Rio ficou impressionada com o número de pessoas negras e morenas, em proporção muito maior que na capital paulistana. Em São Paulo, àquela época, quase metade da população era estrangeira”.

Em 1901, São Paulo já contava com mais de 250 mil habitantes, com pelo menos metade desse número representado por estrangeiros. Foi mais ou menos nessa época que a capital experimentou seu primeiro surto industrial, com a implantação de indústrias (alimentícias, em grande maioria) nas planícies por onde passaram as ferrovias. Mais tarde, esses lugares ficaram conhecidos como Mooca, Tatuapé, Belém, Pari e Lapa, os bairros operários distribuídos nas zonas leste e oeste dos trilhos. Foram nesses primeiro bairros que também se alojaram os imigrantes, acomodados em milhares casas, repúblicas, apartamentos e cortiços. Uma forma alternativa de economia das famílias se formou nessa época: a dos aluguéis, dos mercados, dos serviços diversos e dos pequenos entretenimentos.

O acúmulo de habitantes em São Paulo, aliado às novas formas de obtenção de renda pelas camadas mais pobres da população, gerou desafios à capacidade do governo. Não demorou muito para aparecerem energia elétrica, asfalto, água encanada e saneamento básico, muito embora a implantação dessas ‘modernidades’ tenha sido estruturada e efetivada apenas em algumas regiões da cidade. Isso explica, por exemplo, por que alguns locais de São Paulo hoje sofrem mais com enchentes, falta de luz e de saneamento que outros: de acordo com a camada da sociedade que se instalava em determinadas partes da cidade, um tipo específico de tratamento era dado.

Em 1920, São Paulo se encontrava à beira do caos, com 600 mil habitantes, e estava predominantemente marcada pela desarmoniosa ideia de futurismo, representada pelo Zeppelin que sobrevoava o primeiro arranha-céu da cidade. É engraçado pensar que o surto de pessoas entrando na capital tenha sido tão brutal na época com tão poucos habitantes, se comparados à densidade demográfica atual. No último censo, de 2017, São Paulo registrou 12,11 milhões de habitantes e sua estrutura é muitas vezes denominada ‘selva de pedra’.

Em 1930, a cidade já tinha uma população enorme, mas fortemente abalada pela crise de 1929. Getúlio Vargas se aproveitou desse contexto. “Como quase todo o excedente econômico do café ficava em são Paulo, logo após a tomada do poder na Revolução de 30, ficou claro que Getúlio Vargas não governaria sem o apoio da cidade de São Paulo e do estado propriamente dito. Com a Revolução Constitucionalista de 1932, as tensões causadas pela ausência de uma carta magna colocaram em oposição o governo central de Getúlio e o estado de São Paulo. São Paulo foi totalmente derrotado, porém essa derrota não representou o fim da hegemonia paulista, mas criou condições para que, mesmo derrotada, São Paulo conseguisse concessões do governo central. Por outro lado Getúlio se aproximou muito da nova elite industrial paulista, direcionando possibilidades de investimento e criando uma relação simbiótica com o Estado e a população, chegando ao ápice de se tornar senador eleito por São Paulo, no mesmo ano em que foi eleito presidente da República em 1950 (isso era possível naquela época)”, diz Teixeira.

Na década de 1950, São Paulo já era o centro industrial e financeiro mais importante do país, com 2 milhões de habitantes. Dentro de um país que estava no começo de um processo industrial, a selva de pedra atraiu migrantes de todas as regiões que buscavam algum tipo de sucesso e trabalho garantido. São Paulo era, já naquela época, o centro da modernidade, da urbanização; a cidade onde as coisas, de fato, aconteciam. Da década de 1950 a 1970, a imigração estrangeira diminui consideravelmente para dar espaço à migração interna, sobretudo de Minas Gerais e de toda a região nordeste. Esse talvez tenha sido um dos maiores impactos socioeconômicos em São Paulo na época. Em busca de uma vida melhor e garantida pelo trabalho, a exploração dessas pessoas veio em forma de preconceito e racismo. Surgiu nesse período um movimento chamado “São Paulo não pode parar”, questionado por um grupo de engenheiros e arquitetos que desejavam estabelecer limites de altura para os edifícios.

Nos anos 1960, a superlotação praticamente demandou o alargamento de cidades próximas a São Paulo. Foi daí que surgiram as cidades da região metropolitana, focadas principalmente no pouco recurso industrial e no forte desenvolvimento habitacional. A premissa de terras bem mais baratas atraiu a classe média que não conseguiu espaço na Grande São Paulo, e foi justamente nesse período que se viu a necessidade de uma empresa responsável pela questão imobiliária fora de São Paulo. A Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo (Cohab-SP) foi encarregada dessa função e criou, a partir disso, uma exclusão socioeconômica dos habitantes de dentro de São Paulo e de fora da cidade. A criação de conjuntos habitacionais e condomínios comportou parte da sociedade capaz de investir em um imóvel a prestações, enquanto a camada mais pobre da população ocupou imóveis irregulares em terrenos baldios, que resultaram nas inúmeras favelas da cidade que ainda hoje existem e se proliferam.

Os bairros nobres, populares, o Centro Histórico e a Avenida Paulista

Rua XV de Novembro, acervo livre

Na primeira metade do século XIX, com o desenvolvimento acelerado da cidade, foi construído o centro de São Paulo, modificado por um projeto de Joseph-Antoine Bouvard no vale do Anhangabaú e centralizado num triângulo formado pelas ruas São Bento, Direita e Quinze de Novembro. A maioria das indústrias, bancos e edifícios de entretenimento se encontravam ali e reuniam milhares de trabalhadores de todas as classes todos os dias. Com prédios e  ruas já pavimentadas, a região da praça da República passou a atrair cada vez mais gente. Nela havia construções mais espaçadas, praças, jardins, cafés, lanchonetes e lojas chiques. Era o primeiro sinal de mudança e segregação de dois centros: o dos operários, que cruzavam a cidade de um extremo a outro para trabalhar, movimentavam a maior parte da economia e o desenvolvimento da cidade e se aglomeravam em cortiços distantes; e o da primeira elite paulistana, normalmente dona do próprio negócio, que frequentava grandes eventos, morava próxima ao centro e acumulava alguma riqueza.

As zonas de São Paulo começaram a apresentar uma disparidade de estruturas notável. Enquanto nos bairros operários e populares confundiam-se casas, cortiços, prédios e indústrias, onde tudo girava em torno do bonde; nos bairros centrais, a elite tinha apoio político para satisfazer suas necessidades da forma como lhe agradasse. Em 1890 nasce o luxuoso bairro de Higienópolis, cercado de áreas arborizadas e casas elegantes, determinado apenas a uma classe da população; e em 1894 há a inauguração da famosa avenida Paulista, com regras de construções a sua volta de forma a evitar sua popularização. O acúmulo de habitantes até hoje se caracteriza assim: nos bairros dos extremos do metrô, vivem aqueles que não podem viver próximos ao centro.

Os anos 1960 e 1970 foram responsáveis pela ampliação do centro velho para a Paulista e os jardins. Antes, São Paulo tinha o “centro tradicional” (marcado pelo triângulo das ruas Quinze de Novembro, São Bento e Direita) e o “centro novo” (da praça Ramos até a praça da República), que abrigavam todo o burburinho econômico, político e social da metrópole. A elite paulista se viu na necessidade, então, de afastar a plebe e construir seu próprio centro, longe de toda a pobreza e parte proletária. Isso aconteceu durante a época do “milagre econômico” no decorrer da ditadura militar, principalmente na década de 1960, momento no qual os bancos começaram a migrar para o subcentro que se formava dentro e nos arredores da avenida Paulista. Em 1956, a inauguração do Conjunto Nacional, primeiro edifício de uso comercial e habitacional, garantiu a migração para os jardins. Esse longo episódio determinou a crise econômica imobiliária do Centro Histórico, que durante os 50 anos do século XX mantinha o metro quadrado mais caro da cidade. Ainda hoje isso se mantém. Numa pesquisa rápida dentro de um grupo de Facebook do preço de aluguéis e venda de apartamentos na cidade de São Paulo, a diferença de preço do Centro Histórico para regiões dos Jardins é praticamente um abismo. Em 1968, a economia e popularidade da Paulista permitiu a construção do Museu de Arte Contemporânea de São Paulo, o MASP, que substituiu o prédio do Belvedere Trianon. Sua arquitetura única, pensada pela arquiteta Lina Bo Bardi, trouxe a discrepância de modernidade e sofisticação entre a nova região central e a arquitetura antiquada do Centro Histórico.

A exclusão social das periferias e favelas

Foi a partir da visível expansão horizontal, que a densidade de ocupação se tornou mais espaçada nas décadas de 1930 e 1940, com crescimento incessante após 1970, época na qual, de acordo com Rolnik, em sua pesquisa, “a cidade se espalhou vorazmente, engolindo morros e várzeas e conurbando com municípios vizinhos, quase sempre por meio de loteamentos irregulares e casas autoconstruídas, sem aprovação da prefeitura”. Na década de 1930, esse problema foi parcialmente resolvido com o Código de Obras, que persiste até os dias de hoje. Por meio dele é possível reconhecer casas e loteamentos sem regulamentação da prefeitura. A partir daí, as periferias que não estavam de acordo com esse código ganhavam o estatuto de extralegalidade, ou seja, fora das condições básicas do fornecimento estatal. É por esta normatização que a segurança pública, iluminação, esgoto e outros serviços básicos até hoje não chegam às favelas. Apenas em 1948, no governo de Jânio Quadros, as questões periféricas foram realmente abordadas no governo de São Paulo, em um contexto que incluía uma reforma do serviço eleitoral e trabalhista, na qual mulheres e os maiores de dezoito anos alfabetizados já podiam votar.    

Já no início dos anos 1990, boa parte das favelas foram removidas ou realocadas, de acordo com interesses empresariais, que ocuparam as áreas das comunidades e negociaram com a prefeitura para a retirada dos moradores. Como alternativa, foi oferecido aos domiciliados um valor negociável de passagem para retornar a sua terra natal ou realocação em apartamentos nas regiões do Jaguaré, na divisa com Taboão da Serra ou na Cidade Tiradentes. Boa parte deles se realocou nos apartamentos, mas a maioria migrou para outras favelas próximas. Houve resistência dos moradores do núcleo do Jardim Edith, que obtiveram do judiciário uma sentença favorável a sua permanência no local. Em 2015 a prefeitura de Fernando Haddad disponibilizou edifícios de habitação social, que hoje abrigam mais de duzentas famílias. Na virada do milênio, com o surto de urbanidade e densidade demográfica da cidade, São Paulo abrigava cerca de 11% de sua população municipal nas periferias e favelas.

Entre 1980 e 1990, São Paulo enfrentou um brusco processo de globalização e realocação de habitantes. Após 20 anos de Ditadura Militar, depois da Constituição Federal em 1988, houve na cidade um importante avanço no que se diz respeito à inclusão social. A gestão de Luiza Erundina foi primordial no acesso dos mais desfavorecidos aos direitos básicos pré-estabelecidos, por meio de propostas condizentes à moradia, como a demarcação das Zeis em áreas ocupadas por favelas e a introdução do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU). Também foi na gestão dela que a tarifa zero para transportes começou a se desenvolver. Apesar da tentativa, o processo de democratização depois do regime militar exigia não só de São Paulo como de todo o país implementação de políticas públicas em larga escala, fator que demanda quantidade significativa de gastos públicos. Para realmente se atingir uma dada democracia após os anos de chumbo, eram necessárias reformas urbanas e sociais que garantissem a inclusão dos extremos excluídos de direitos básicos de cidadania.

A industrialização de São Paulo durante a Primeira Guerra e seu papel na Segunda

Pode-se dizer que sua estrutura começou verdadeiramente no pós-Primeira Guerra Mundial, quando a cidade adquiriu (e ainda permanece assim) um caráter industrial muito superior aos outros estados brasileiros. A necessidade de uma industrialização veio de dois fatores principais: uma densidade demográfica além das capacidades estruturais da capital e das consequências da Primeira Grande Guerra, já que o Brasil (e, neste caso, especialmente São Paulo) exportava alimento para os países-membros da Tríplice Entente. Com a quantidade de indústrias e pessoas num único local, a procura por terrenos subiu consideravelmente, e a demanda de urbanização por parte dos habitantes instalou novas lojas, espaços e indústrias que resultaram na primeira grande irrupção de inflação da cidade. O descontentamento veio de todas as classes sociais, mas principalmente dos bairros operários, desgostosos com a nova estrutura excludente que se formava. Esses novos fatores econômicos do surto, associados à nova classe média e burguesia que se formava, resultaram num governo extremamente nacionalista e intervencionista.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o papel de São Paulo foi sentido na economia da cidade. “Os impactos econômicos foram naturais e similares aos sentidos em todo o mundo que acompanhava a guerra, mas não estavam diretamente ligados ao conflito em seu território. Em momentos de guerra a produção e desenvolvimento econômico aumentam, não por sua viabilidade, mas por sua necessidade política e estratégica. O presidente Getúlio Vargas, apesar de comandar uma ditadura com traços fascistas, passou boa parte da guerra em uma neutralidade duvidosa, vindo, em agosto de 1942, a se juntar aos países aliados, mas diretamente apoiando os EUA, declarando guerra aos países do Eixo, liderados pela Alemanha. Engajando-se discretamente no esforço de guerra, Getúlio Vargas negociou condições favoráveis que foram desde o aporte de recursos para a construção da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), empréstimos em condições favoráveis e até uma inusitada parceria com Disney que deu origem ao Zé Carioca e uma provável influência na ascensão meteórica de Carmem Miranda em Hollywood (dizem as más, línguas ferramenta de propaganda americana para cativar os brasileiros)”, continua Teixeira. A expansão dos imigrantes nessa época também foi outro fator importante dentro da cidade: “Do ponto de vista micro a grande massa de imigrantes especialmente italianos ficava preocupada com as possíveis consequências da guerra. As leis de nacionalização dos anos 40, forçando a nacionalização de empresas e indivíduos estrangeiros e riscos de perseguição a estrangeiros e pessoas julgadas de socialistas comunistas era uma constante. Clubes como Palestra Itália e Corinthians tiveram que expulsar mais de 150 sócios estrangeiros, no caso da Palestra inclusive mudar seu nome para Palmeiras, assim como fez as Lojas Mappin, primeira loja de departamentos de São Paulo, para casa Anglo-Americana.”

Urbanização e poluição, a influência econômica de um problema antigo

Um outro problema que se agravou na década de 1970 e 1980 foi o sistema de esgoto e a poluição em larga escala dos rios, que recebiam desde o final do século XIX os dejetos industriais e domésticos. A empresa responsável pela coleta e manutenção do esgoto, na época a Light São Paulo, não incluiu em seus planos estruturais uma estação de tratamento de esgoto. Em 1970, apenas 10% do esgoto coletado passava pelas estações de tratamento. Esse índice,que foi agravado enquanto os anos passaram, compõe hoje a região fétida das margens do rio Pinheiros e Tietê, que já não abrigam mais vida aquática e fazem a proliferação de doenças. Um dos maiores desafios de São Paulo é, sem dúvidas, recuperar as águas poluídas e torná-las úteis num futuro próximo. E isso ainda está muito longe de acontecer.

Acervo livre, imagens Rio Pinheiros

Tanto quanto os rios, a atmosfera de São Paulo não é a mais recomendada aos pulmões humanos. Hoje, mais de 11 mil pessoas morrem por ano por causa da poluição da cidade, segundo levantamento realizado pelo Instituto Saúde e Sustentabilidade. O acúmulo de gases poluentes no ar teve início em 1970, as indústrias lançavam no ar 75% das 350 toneladas de material particulado. Com uma atmosfera extremamente poluída, tornaram-se sensíveis os efeitos das chuvas ácidas e a proliferação de alergias ligadas à poluição. Houve no debate político uma preocupação com a pujança da cidade, mas foi logo cortado pela falta de vitalidade política, financeira e administrativa provocada pelo regime militar. A corrupção da ditadura, que durou mais de 20 anos, retirou grande parte das riquezas obtidas pela economia paulista e foi um fator de crise. “Em 1964, quando a ditadura militar iniciou, São Paulo tinha uma população de cerca de 5 milhões de habitantes, e, junto com o Rio de Janeiro, eram cidades centrais no processo de migração de milhões de brasileiros oriundos das regiões mais pobres do país, especialmente do norte e nordeste. Alguns estudos populacionais indicam que não houve no mundo fluxos populacionais dessa magnitude, direcionados a duas cidades, em um período de tempo tão curto e concentrado em três décadas”, afirma Teixeira. Os rumos que isso tomou no país, aliado a outras capitais do mundo, entraram no debate da deterioração da camada de ozônio e fizeram surgir as novas leis ambientais específicas para poluição, em 1994. Uma delas diz respeito (e é válida ainda nos dias de hoje) à solução Conama para estabelecer e monitorar os limites máximos de emissão de poluentes atmosféricos. Esse fator favoreceu e prejudicou, ao mesmo tempo,  uma gama de empresas paulistas econômica e juridicamente. A contenção de poluentes lançados no ar abriu setores e departamentos específicos dentro das empresas para manutenção das indústrias, o que significou a contratação de mais funcionários e despesas com tecnologia voltada para contenção de gases. Uma restrição marcante da legislação ambiental aconteceu há pouco tempo, quando o consenso mundial criou a proibição e anulação do gás CFC, comumente encontrado em sprays e cientificamente comprovado como destruidor da camada de ozônio, em 2010. Este elemento contribuiu positivamente para o surgimento de departamentos industriais voltados à regulamentação de gases em São Paulo. Hoje há o mapa de poluição do ar, registrado nos painéis de horário e temperatura espalhados pela cidade e disponível publicamente na internet (http://aqicn.org/map/saopaulo/pt/#@g/-22.3019/-48.6227/8z).

O desemprego e a dívida externa

Com o tamanho da dívida externa, herança principalmente do regime anterior, os recursos de São Paulo ficaram limitados. “O milagre econômico da década de 60 e 70 gerou crescimento percentual do PIB nacional na marca de dois dígitos durante alguns anos, e esse crescimento concentrou renda nas elites industriais, na construção civil, na área de serviços e na burocracia estatal. Se por um lado aumentou a concentração de renda e a disparidade social, por outro, aumentou a riqueza geral da economia, necessidade de produtividade, dinamizando fortemente a economia paulista e paulistana, assim como, a partir do primeiro choque do petróleo, em 1973, e do segundo choque, em 1979,  a crise da dívida do governo se acentuou, levando também São Paulo a sofrer dramaticamente, no que se convencionou chamar de década perdida, atrasando investimentos na infraestrutura pública, transporte, comunicação, saúde e segurança, agravando ainda mais a disparidade social”, diz Teixeira.

Após algumas experiências no exterior (como no Chile, nos Estados Unidos e na Inglaterra), chegou ao Brasil o neoliberalismo. Por meio de intensa fiscalização das finanças e cortes nos gastos públicos, o investimento em causas sociais e expansão da cidade em recursos distantes dos interesses do mercado. A soma desses fatores resultou séria crise econômica, que entre outras coisas gerou, principalmente em São Paulo, um enorme índice de desemprego, sensível para as indústrias. Apenas 10% da população era formalmente empregada em 1990.

O Plano Real apareceu como o exemplo fundamental da cultura neoliberal no Brasil, e São Paulo, como principal cidade econômica do país, teve sua economia sensitivamente abalada. “São Paulo como todo o Brasil sofreu muito com a crise econômica dos anos 80, até o início da década de 90. O empobrecimento da população, dificuldade de acesso ao crédito, inflação foram realidades que marcaram demais o povo paulistano, especialmente porque em um processo inflacionário, o custo de vida dos pobres aumenta muito mais rápido do que o custo de vida dos mais abastados. Uma das curiosidades interessantes do impacto do Plano Real, é como ele foi determinante para a volta do foco na produtividade.  Grandes empresas industriais, bancos, varejo se acostumaram com os ganhos fáceis da gestão financeira de recursos aplicados a taxa de juros elevadas , no que se chamaria overnight – uma taxa de juros diária aplicada, de um dia para outro (por isso nome overnight) No fim da década de 80 e início dos anos 90, mais importante do que ter um bom produto e um bom preço era ter um departamento financeiro competente  para aplicar os recursos, evitando as perdas da inflação Com a estabilização dos preços as fontes de ganho no mercado financeiro diminuíram, substancialmente. Com isso, as empresas não ganhariam mais no giro financeiro e teriam que se adaptar, e focar na produtividade. Muitos ficaram pelo caminho, é o caso das lojas Arapuã, G Aronson, o próprio Mappin, além de alguns bancos como o Comind, o Nacional e o Bamerindus, mesmo não tendo sedes na cidade de São Paulo, essas quebras impactavam o mercado financeiro. A concentração dos negócios das bolsas do Rio e de São Paulo em São Paulo e o movimento de privatização das áreas de comunicação, energia e outras estatais consolidaram a liderança de São Paulo.

Foi dessa falta de recursos, sobretudo, que resultou a diminuição na densidade crescente de São Paulo. Segundo Raquel Rolnik, em “Territórios em Conflito”, “o setor de serviços, embora crescente, não chegou a absorver mão de obra no ritmo do crescimento da demanda. Os empregos do setor terciário diferiam em qualidade dos postos de indústrias”. Foi também nesse momento que o desenvolvimento tecnológico começou a superar em larga escala a mão de obra humana pela automática, principalmente nos setores industriais. Apesar da obtenção de renda da indústria não sofrer tanta alteração econômica pela produção automática, rápida e eficiente, gerou o índice absurdo de desemprego dos anos 1990 em todos as camadas da sociedade paulista, desde as mais pobres às mais ricas. Esse foi o fato essencial para o aumento expressivo de contratações informais, incumbidas de trazer os desempregados novamente ao ambiente de trabalho, mesmo que desprovido de todos os direitos dos trabalhadores com carteira de trabalho assinada. Em 1999, metade da população da Região Metropolitana de São Paulo não tinha carteira assinada. A economia da cidade, nesta época, sofreu ajustes severos. Apesar de pouco, São Paulo continuou garantindo os empregos mais bem remunerados do país e 20% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil. Esse crescimento alavancou a posição da metrópole: se antes São Paulo tinha o caráter de cidade promissora brasileira, para garantir o funcionamento da economia do país, agora entrava no âmbito de cidade promissora nacional, para estabelecer conexões entre o Brasil e o mundo. Surgiram os centros comerciais e empresariais ao longo das marginais (e ainda hoje permanecem assim nas regiões da avenida Berrini e Vila Olímpia, por exemplo), os shopping centers, parques, praças, expansão de ruas exclusivamente comerciais de todos os tipos, de alto escalão ou mesmo de fábrica. A caracterização dos bairros em São Paulo se fez ainda mais presente na megalópole (porque a essa altura já podia ser caracterizada dessa forma), e junto com ela, como foi desde o começo de sua história, um abismo de evidente separação dos grupos sociais pela disposição dos bairros.

O começo de uma cidade violenta

Cada passo para frente do crescimento de São Paulo significava outros dez da população excluída e desfavorecida que se multiplicava pela cidade. Neste contexto, uma série de atividades se desenvolveram na ilegalidade. A falta de estrutura de algumas regiões estimulou o surgimento do narcotráfico e outras práticas ilícitas. Esse tipo de economia gerava renda para alguns e por isso discutia-se a relação política com os interiores da cidade. Conforme São Paulo crescia e enriquecia, mais acentuados eram seus índices de desigualdade social, maiores as ilegalidades, a violência a superpopulação. Foi nesse contexto que se criou a Polícia Militar paulista, extremamente violenta  e aparentemente militarizada apenas contra alguns grupos sociais. Essa violência urbana também desenvolveu outras formas de obtenção de renda e também gerou impactos econômicos na cidade: houve aumento no número de policiais e recursos públicos foram elevados para tentar garantir alguma segurança dentro da cidade, mas foram os próprios habitantes de São Paulo que recorreram ao seus próprios meios de proteção, aliada à tecnologia. Câmeras, cercas elétricas, alarmes e equipamento de segurança começaram a se desenvolver na cidade na virada do milênio, fato disseminado hoje e habitual para os cidadãos. Não existe prédio residencial sem segurança, ou casas sem alarmes e cercas elétricas. A violência ilustra  a convivência na cidade: a classe média atrás dos muros e no alto de seus prédios, a rua como território de perigo.

Hoje, a Terra da Garoa se estabelece como capital do estado de São Paulo e principal centro financeiro, corporativo e mercantil da América do Sul. É também a cidade mais populosa do Brasil, do continente americano, da lusofonia e de todo o Hemisfério Sul, com população estimada em 12,11 milhões de habitantes. Também é caracterizada como a cidade brasileira mais influente no cenário global, a 14ª mais globalizada do planeta. Uma cidade historicamente trabalhista, extremamente miscigenada, economicamente ativa, socialmente comprometida e, principalmente, desejada por muitos migrantes e jovens. São Paulo abriga desigualdades, abriga problemas historicamente estabelecidos, demanda urbanização e modernização a todo instante. Isso causa, sobretudo, uma divisão de pensamentos. A política brasileira ainda tem muito a desenvolver dentro do caos urbano, e sabe muito bem disso. O governo do Estado de São Paulo e a prefeitura são parâmetros para todas as cidades do país e chamam atenção pela maneira como suas atividades são exercidas. É notável a preocupação com uma cidade de tamanho porte, que abriga nuances de cinza, luzes refletidas na água e nuvens densas. Mesmo assim, sabe-se que hoje, São Paulo é a terra daqueles que não param, das 24 horas em funcionamento, a cidade da indústria, do emprego, da economia, das oportunidades (que, diga-se de passagem, são mais  oportunas para alguns e menos para outros), da garoa, dos museus e é claro, do pingado pela manhã, pastel e caldo de cana no almoço e x-burguer no jantar.

 

 

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