Por Carolina Faita

 

A moda envolve a ligação entre o vestuário e o período histórico em que estamos vivendo e surge de acordo com o contexto político, social e cultural de cada época. Portanto, a moda emergente na periferia reflete o comportamento de quem vive a realidade das comunidades localizadas à margem do centro urbano e também representa uma forma de inclusão e de resistência, uma vez que não procura, necessariamente, se encaixar nos padrões definidos pela ditadura da moda, mas, pelo contrário, se baseia na variedade de pessoas como uma forma de expressão.

No entanto, as barreiras entre centro e periferia vêm sendo quebradas, principalmente por meio de algumas iniciativas que promovem a interação da moda de grife com as comunidades periféricas. Um exemplo disso é uma parceria entre a São Paulo Fashion Week e a Secretaria Municipal de Educação, que levam o Projeto Moda no CEU a Centros Educacionais Unificados (CEUs), envolvendo desfiles, palestras, workshops, filmes e exposições, e que já recebeu estilistas de renome, como Alexandre Herchcovitch e Raquel Davidowicz (da marca UMA). O estilista João Pimenta realizou um desfile em 2014 no CEU Meninos e, desde então, participa de palestras da iniciativa e acredita que “Dentro da favela, a moda é pulsante e viva, porque tem muita gente, muitos tipos de pessoas vestindo coisas diferentes. E a moda precisa de contrastes”.

Projetos como esse contribuem para a ruptura do muro que separa a alta costura do estilo que surge em bairros carentes, pois “A moda vai ser de verdade quando todo mundo se envolver”, como declarou Pimenta durante uma palestra do Moda no CEU. Afinal, a moda da periferia traz como contribuição ao mundo fashion a diversidade de pessoas e, por ter um caráter de resistência, é mais humana.

Diante desse projeto, que traz toda a estrutura profissional do Fashion Week para a periferia, Alex Santos, morador de Paraisópolis de 27 anos, que já era envolvido com agência de modelo desde os 15 anos, teve a ideia de criar o “Periferia Inventando Moda” (PIM) a fim de formar pessoas da própria comunidade (estilistas, modelos, fotógrafos, maquiadores e cabeleireiros) para o mundo da moda. Ele desenvolveu essa iniciativa enquanto cursava design de moda e, a partir dela, tem o objetivo de representar a periferia no setor fashion.

Em entrevista, Alex Santos afirmou que “Por meio da moda, a comunidade, composta pela mistura de pessoas, encontra um jeito de cada um mostrar sua personalidade única”. Além disso, ele comentou sobre o estilo dos adolescentes “Na periferia, eles se inspiram, principalmente, nos artistas internacionais, mas sempre colocam sua personalidade nas roupas”.

O preconceito em relação à moda usada na periferia e, até mesmo, criada por estilistas da comunidade ainda é recorrente nos dias de hoje. “Um artista da periferia não pode fazer alta costura? A moda é geral, universal, não só para a elite”, finalizou o fundador do PIM.

A produção na periferia representa a história de resistência da comunidade, e agora busca seu lugar na indústria da moda. Constantemente, a moda periférica é comparada e até rebaixada à alta moda, o que dificulta sua expressão e a representatividade que pretende passar. Apesar desse impasse, mudar para se encaixar na indústria capitalista atual não é o objetivo, mas sim ter visibilidade em torno da sua importância como expressão que permeia a maioria da sociedade brasileira.

Leave a Reply