Apesar de ainda não ser muito popular, o hábito de leitura cresce entre os brasileiros

Nos próximos dias 25 a 29 de julho acontecerá a FILP, Festa Internacional Literária de Paraty. A 16º edição do evento contará com a presença da atriz Fernanda Montenegro e autora Hilda Hilst será a autora homenageada da vez.

A autora que faleceu em 2004 transitou entre diversos gêneros como poesia, ficção, crônica e até mesmo o teatral. Hilda Hilst é  a terceira mulher da história do evento a ser homenageada, juntamente com Clarice Lispector (A Hora da Estrela) em 2005 e Ana Cristina Cesar (Poética) em 2016 evidenciando a predileção por homens no ambiente cult-literário.

A curadora da FLIP, Josélia Aguiar, disse ao jornal O Globo, que Hilst é uma autora há muito tempo esperada pelo público do evento, mas que ela precisa ser mais conhecida já que a autora ainda não se enquadra entre os cânones de literatura brasileira. Alguns dos temas que autora, considerada questionadora e transgressora, abordou durante a sua obra como amor, morte, Deus, sexo e transcendência serão temas das mesas de debates da Flip – que começam a ter seus ingressos vendidos no próximo dia 26 de junho. A professora de matemática de 25 anos Carol Khuriyeh que atualmente está passando uma temporada nos Estados Unidos como Au Pair conta que está planejando com um amiga a viagem para Paraty afim de aproveitar a FLIP desde março deste ano e está muito empolgada, apesar de notar que círculo literário abordado na festa é um pouco fora da sua zona de conforto: “Imagino que vai ser sensacional, que vou amar, e vou querer voltar todo ano, mas eu realmente não conheço o trabalho das pessoas que tão lá – só a Fernanda Montenegro”

Todavia, nem só de celebração que a festa literária mais famosa do país vive: recentemente foi anunciado que o orçamento do evento seria cortado em relação ao do ano anterior em cerca de R$ 1 milhão. Em 2017, a verba chegou a R$ 5,7 milhões e deste valor, R$ 3,7 milhões foram investidos diretamente na festa. Segundo o que Mauro Munhoz disse ao jornal O Globo, um dos organizadores do evento, há cinco anos a FLIP tem sofrido os efeitos da diminuição do dinheiro investido em Cultura, mas ressalta que por causa disso eles têm procurado – e encontrado – parceiros para possibilitar a realização do evento.

Para entender como o Brasil consegue ter uma das maiores festas literárias do mundo e ainda sim estar cortando frequentemente gastos com Cultura e Educação, é preciso analisar alguns dados sobre os hábitos de leitura dos Brasileiros: segundo a pesquisa realizada pelo Ibope por encomenda do Instituto Pró-Livro em 2015, 30% da população brasileira nunca comprou um livro e 44% não leu nenhum livro nos últimos três meses. Na mesma pesquisa foi apontado que mais de 65% da população nunca teve nenhuma influencia que os fizessem a ler, mas quem teve foi em sua maioria por causa da mãe ou de algum professor.

Nem tudo está perdido: da pesquisa de 2011 para a de 2015 houve um aumento de 6% na parcela de população brasileira que lê, aumentando o índice de livros lidos em 150%, passando de 1,8 para 4,7. O aumento entre os jovens foi de quase 15%.

Apesar dos números ainda serem considerados baixos, Sônia Machado, presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) disse ao site Guia do Estudante, que o índice não é insuficiente apenas por estarem muito distantes dos números de países desenvolvidos e alguns países em desenvolvimento, mas porque inclui os livros obrigatórios, mas ressalta que o preço pouco acessível dos livros como um dos principais fatores que afastam a população dos livros exemplificando que até 2004 não existia edições de bolso (livros com edições mais simples e por isso de baixo custo em vista as edições regulares). O mercado editorial tem crescido a passos largos, com uma adição de quase 500 novos títulos publicados por ano e a grande inovação está nos livros digitais que, segundo uma pesquisa do SNEL em 2016, quase 90% dos títulos publicados pelas editoras brasileiras já tem sua versão digital.

Os ebooks têm a vantagem de serem baratos, fáceis de carregar e de não dependerem de recursos naturais para ficarem prontos. Para a produção 125 livros, levando em conta a média de 400 gramas cada um, uma árvore é cortada e por isso, em uma tiragem média de 3.000 exemplares cerca de 24 árvores são retiradas da natureza. Para quem não gosta de livros usados, a alternativa mais economicamente acessível e ecologicamente correta são os leitores digitais, sendo o mais famoso deles o Kindle da gigante americana Amazon que não apenas comercializa várias versões do mesmo produto com preços que variam entre R$ 299,00 até R$ 1149,00, mas que permite que os usuários acessem a plataforma Kindle através do seu smartphone baixando o aplicativo de mesmo nome. Além disso, eles têm o serviço Kindle Unlimited que permite que o leitor tenha acesso a mais de um milhão de livros por mês ao preço de menos de R$ 20.  A pré-vestibulando e leitora voraz de 18 anos, Jéssica Salazar, afirma ler mais de cinco livros por mês e que só consegue chegar a essa marca pela facilidade de carregar seu Kindle na bolsa quando saí, assim podendo ler no trajeto para os lugares e em momentos de espera: “Eu acredito que o livro físico nunca vai perder seu charme, é muito gostoso poder folhear um livro com cheiro de novo, mas não podemos ficar presos nesse formato de leitura para sempre. Se hoje podemos pedir pizza, fazer supermercado pela internet, por que não podemos ler?”. Jessica completou dizendo que economiza muito agora em que praticamente só compra livros digitais e que o dinheiro vai para poder comprar mais livros, sua verdadeira paixão.

Os ebooks não apenas facilitaram o acesso aos livros para quem quer ler, mas para quem quer publicar também: a plataforma de auto publicação da Amazon conta com milhares de livros de autores nacionais que sem essa alternativa talvez nunca vissem seus livros publicados devido a dificuldade que autores iniciantes encontram ao tentarem publicarem seus livros em editoras tradicionais.

Em contrapartida, o acesso facilitado aos livros digitais fez crescer assustadoramente o número de sites que disponibilizam os ebooks de maneira gratuita, impedindo as editoras de lucrarem milhões de reais que os usuários adquirem em livros piratas. Quem acessa o site brasileiro mais famoso em livros gratuitos, o Le Livros, já está acostumado a encontrar problemas na URL ou até mesmo encontrar o site “fechado” devido as tentativas quase que diárias em derrubar o site que é a verdadeira mosca na sopa das editoras: quando eles acham que conseguiram se livrar da iniciativa sem fins lucrativos que visa acabar com direitos autorais e os lucros absurdos das editoras, o site volta – para a felicidade dos milhares de usuários do site.

Com a frase “Propriedade intelectual é burrice, viva a revolução do conhecimento” o Le Livros se mantém através de doações de livros digitais, programadores e designers voluntários e doações de CryptoMoedas.

Em uma época de miscelânea cultural e tecnológica, precisamos tolerar mudanças de plataforma sem nos apegarmos a velhas ideias sem embasamento. Além disso, é necessário estarmos preparados para as mudanças e tomar cuidado para que na ânsia de ver as coisas mudarem, não nos tornemos seres que encaram a mudança de maneira combatível.

Leave a Reply