Rua Domingos de Morais, número 1587, bairro Vila Mariana na zona Sul de São Paulo. Próximo à estação de metrô, que leva o mesmo nome do bairro, encontramos uma construção de poucos andares, com tonalidade creme e alguns cartazes nas janelas. Não eram cartazes quaisquer, mas sim divulgações de atividades que poderiam ser feitas neste estabelecimento, o Osaka Naniwa-Kai. É aqui que encontramos a Meguriai Kai – Associação de Karuta de São Paulo, pioneira no país, onde ocorre a prática do Kyogi Karuta, a variante competitiva do jogo.

O karuta pode parecer um jogo monótono e simples de baralho, mas não, é um esporte que envolve reflexo rápido, uma memória excelente e dois compilados de 100 cartas. As cartas desse baralho não são as mesmas que conhecemos, nelas estão escritos 100 poemas de diferentes autores. Esses são datados da era Heian, que perdurou entre o ano de 794 até meados de 1185, mas a sua compilação foi feita um tempo depois.

Tulio Oliveira Muniz, praticante e fundador do grupo de karuta em São Paulo, contou sobre o caráter aristocrático do jogo em seu início. “Por muito tempo foi um jogo aristocrático, o baralho era dado como presente de casamento na alta classe japonesa e era todo feito à mão. Com a chegada da imprensa, começaram a produzir em larga escala e se transformou em um esporte.”.

A origem do karuta está ligada há um tradicional jogo de conchas (consistia em encontrar a paisagem correspondente ao poema, utilizando conchas que só se encaixariam com sua metade original). Com a chegada dos portugueses, o baralho tradicional (52 cartas e 4 naipes) foi apresentado para os habitantes daquela terra e começou a ser utilizado no lugar das conchas. O próprio nome “karuta” vem da tradução da palavra carta.

O responsável por formar essa antologia poética foi Fujiwara no Teika, contratado por um nobre para compilar 100 poemas para serem utilizados como enfeite para as paredes de sua residência. Todos os poemas pertenciam ao gênero “tanka”, um estilo japonês de poemas formados por 31 sílabas totais, mas divido em 5 versos de 5,7,5,7,7 sílabas. A antologia contém poemas de todos os tipos, mas predominam os de amor e as paisagens.

Treinamento de reflexo entre dois alunos.

Tulio especificou que existem inúmeros temas e tipos de karuta, desde os utilizados para alfabetização de crianças até os com pontos turísticos ou  nomes de peixes. Mas ele ressalta a importância do compilado tradicional de Fujiwara no Teika. “ A antologia é decorada até hoje por crianças e adolescentes nos colégios do Japão. O Oshiman [colégio japonês de São Paulo] também são obrigados a decorar.”.

O jogo é simples de ser compreendido. Existem dois tipos de cartas no baralho: as Yorifuda, que apresentam o poema total; e as Torifuda, que contém os últimos dois versos de cada poema.

As 100 cartas de leitura irão para a mão de um leitor, enquanto as outras 100 serão embaralhadas. Cada jogador escolherá 25 aleatoriamente, e deverão posicionar suas cartas em 3 linhas, tendo 1 centímetro de distância para a linha superior e 3 centímetros entre os campos. Os jogadores têm 15 minutos para memorizar a posição de cada um dos 50 poemas.

A partir daí, lê-se um poema inicial e o jogo começa. O objetivo do jogo é bater na carta correspondente ao poema que está sendo lido, antes do oponente. Quando se pega uma carta   do campo adversário, você passará uma de suas cartas para ele, ficando com 24 cartas em seu campo. Caso seja uma das cartas do seu campo, basta retirá-la. O primeiro jogador a acabar com suas cartas é o vencedor.

O Efeito Chihayafuru

Tulio Muniz contou sobre como encontrou o jogo. “ A maioria das pessoas conhece o jogo pelo anime Chihayafuru. Comigo foi assim também: comecei a ver o anime e fiquei super interessado no jogo, mas não existiam, na época, grupos onde eu pudesse jogar. ”

Chihayafuru é um mangá que foi lançado em 2007 e continua sendo publicado até hoje. Em 2011 foi lançada primeira parte do anime, baseado nos mangás, com 25 episódios. Em 2013 foi lançada a segunda parte com mais 25 episódios e há uma previsão do lançamento de uma nova parte, para 2019.

O anime conta a história de Chihaya Ayase, jovem garota que dedica sua vida a apoiar sua a irmã na carreira de modelo. Mas ao conhecer um garoto jogador de karuta, ela começa a praticar o jogo e alimenta o sonho de ser a melhor jogadora do Japão.

Tulio ainda comenta sobre a tradição de jogar e a popularização recente do jogo: “ O karuta é, originalmente, um jogo de Oshogatsu, jogado durante o ano-novo em um modo mais recreativo. Antes, a vertente mais competitiva era menos popular. Depois, com esse advento do Chihayafuru, com o mangá e anime, viralizou muito mesmo, possibilitando essa abertura maior para a popularização. ”

Atualmente a prática do karuta vive uma fase de expansão internacional, muito em função do anime e da facilidade de encontrá-lo na rede. A popularização permitiu o surgimento de grupos nos Estados Unidos e na Europa, e um início de integração entre esses grupos fora do país de origem. No restante do continente asiático, iniciou-se uma onda mais impactante da prática, principalmente na China e Coréia, pela proximidade e facilidade de acesso aos mangás, que são muito difíceis de achar no ocidente.

O karuta no Brasil

Foi em junho de 1908 que o navio Kasato Maru atracou no porto de Santos, nele estavam os primeiros 781 imigrantes japoneses que vinham para o Brasil. No ano de 2018 se completam 110 anos da vinda deles, que deixaram suas origens e acreditaram no Brasil como um leque de oportunidades para suas famílias e futuras gerações. Os nikkeis, que hoje estão na 5º geração, tiveram sua parcela na formação da nossa cultura contemporânea brasileira, e o karuta é a parte dela que hoje começa a conquistar espaço no cenário nacional.

Muniz comenta sobre a formação do grupo, que este ano completará 5 anos. “ O grupo não existia antes do anime. Ele foi fundado em setembro de 2013 e desde então, não tivemos outra temporada de Chihayafuru. Mas a maioria, vem conhecer por conta do anime ou porque conhecem alguém que já pratica ”. O idealizador do grupo também conta sobre a periodicidade dos encontros, que ocorre sempre às sextas-feiras, das 19 às 22 horas, com média de 12 pessoas por aula.

Quando questionado sobre a pluralidade dos participantes das aulas, recebemos uma resposta curiosa: a maior parte das pessoas que participa do grupo, nãoaponesesa.

Ao falar com Cristina Maki Endo, uma das alunas de karuta e professora na Fundação Japão, diz que é uma representação da integração das diversas culturas do país por meio de um jogo, “Aqui tem a junção de pessoas que não são descendentes, mas que praticam por causa do mangá, e de pessoas descendente, como eu, que sabiam da existência, mas não tinham onde jogar. Eu conheci o Meguriai pela internet, e realmente, para mim, foi a ligação do antigo com o novo, e também do oriente com o ocidente. Aqui é muito fácil de ver essa mistura interessante, e que tem tudo a ver com os 110 anos de imigração japonesa. O Brasil faz essa ponte da mistura de várias nações. O karuta no Brasil também é isso. ”

Grupo do Meguriai-Kai após a aula.

Centro Meguriai-Kai

Rua Domingos de Morais, 1587, Vila Mariana – São Paulo

Aulas todas as sextas-feiras das 19h às 22h

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