Por Lara Guzzardi

O câncer de mama é o segundo tipo de tumor maligno mais incidente entre as brasileiras, atrás apenas do câncer de pele não melanoma. Essa doença inicia uma jornada árdua na vida de muitas mulheres e, na maioria dos casos, o tratamento implica na cirurgia de remoção dos seios para a retirada de tecido cancerígeno. Aproximadamente 63 mil mulheres fizeram essa cirurgia de remoção nos últimos cinco anos pelo SUS, segundo os dados do Datasus, e essa alternativa é considerada pelos médicos a mais segura para o tratamento de grandes tumores.

Campanha contra o câncer de mama.                                                                          Foto: Divulgação

 

Após a retirada da mama é bastante comum que várias pacientes não passem por reconstrução imediata, assim, consequentemente, elas acabem indo em busca de um sutiã que seja adequado às novas características do seu corpo. Mas a verdade é que dificilmente encontram, já que a maioria das marcas de lingerie cometem o engano de não venderem esse tipo de vestuário, pois há a falsa crença de que a procura por esses itens é escassa e, portanto, é um investimento não vantajoso. A falta de lingeries no mercado para mulheres mastectomizadas é um problema frequente e, por isso, algumas pacientes optam por customizar seus próprios sutiãs, comprando bojos à parte e costurando em suas próprias peças já existentes.

 

Sutiãs para mastectomizadas.                                                                                          Foto: Darling

 

O projeto De Peito Aberto, criado pela jornalista Vera Golik juntamente com o seu marido e fotógrafo Hugo Lenzi, lançou um abaixo-assinado online pedindo às 10 maiores marcas de lingerie brasileiras para criarem sutiãs para mulheres com mastectomia, com modelagem diferenciada, decote mais fechado, bolsos para prótese ou enchimento e com preços justos. Em resposta à iniciativa, a Darling começou a desenvolver dois modelos de sutiãs especiais com a ajuda de médicos e pacientes voluntários. A famosa marca Hope também se manifestou sobre o assunto e deve produzir um modelo “Mastec Lace” em breve.

Linha de sutiãs pós mastectomia da Darling. Foto: Darling

A maior parte dessas iniciativas são realizadas por mulheres que passaram pelo tratamento oncológico e pelo incômodo de não acharem produtos especializados para mastectomizadas, ou que conhecem outra mulher que passou por essa situação, a exemplo da Myriam Sanches que criou a loja chamada “Mama Amiga” em São Paulo, quando a prima foi diagnosticada há 30 anos com câncer e ela não encontrava em lugar nenhum produtos específicos para quem havia passado pelo procedimento.

Myriam Sanches, proprietária da loja Mama Amiga, em SP. Foto: Gislaine Miyono

Outra é a Lótus Lingeri, uma marca pequena e caseira idealizada pela designer Ana Cláudia Nalini, que teve como tema para sua primeira coleção o conceito “A Descoberta de Uma Nova Beleza”, desenvolvida especialmente para mulheres diagnosticadas com câncer de mama. O maior objetivo da Lótus é resgatar a auto estima da paciente oncológica através de soluções simples na modelagem dos sutiãs, assim, no forro de cada top há uma abertura na parte inferior, onde a cliente pode encaixar e retirar a sua prótese. Infelizmente, a produção da marca está parada, mas poderá voltar futuramente.

Fernanda Freitas, campanha 2015 das Lotus.                                                            Foto: Lotus Lingerie

A Mastec Up também é uma loja virtual de vestuário para mulheres que tiveram a retirada do seio, criada pela Ju Oliver. A dona da marca já passou pelo câncer e agora produz sutiãs com suporte para prótese externa e sutiãs assimétricos, em função de gerar mais sensualidade, conforto e amor próprio nas pacientes oncológicas. Além disso, existem iniciativas que ensinam as mulheres a fazerem seus próprio sutiãs especiais, devido justamente ao preço alto e a falta de lingeries do tipo “Mastec” no mercado. O Mamas do Amor é um deles e a fundadora do projeto, Fernanda Chahin Bali de Aguiar, conta um pouco sobre como surgiu a ideia: 

Fernanda, fundadora do projeto Mamas do Amor. Foto: Mamas do Amor

“Tudo começou quando recebi o diagnóstico de câncer nas duas mamas, em meados do primeiro semestre de 2016. Após o primeiro susto, os médicos indicaram a mastectomia bilateral, uma difícil decisão, porém necessária. Em procedimento cirúrgico, as mamas foram retiradas e no lugar delas, foi colocado um expansor, com vistas a uma nova cirurgia posteriormente, para colocação da prótese de silicone. Porém, passados 30 dias da primeira intervenção, uma bactéria se desenvolveu, então, foi preciso uma segunda cirurgia, onde o expansor foi extraído. Já sem as mamas, minha autoestima despencou e pensei em encontrar uma solução rápida, que me trouxesse a alegria de poder usar minhas roupas novamente e me sentir segura.  Veio a ideia de construir uma prótese externa, que eu pudesse colocar, enquanto aguardo a próxima cirurgia. A prótese externa de alpiste foi a solução, para substituir as mamas verdadeiras. Eu poderia colocá-las dentro do sutiã e retirá-las quando quisesse. A ideia, deu certo! As próteses externas, se moldam perfeitamente ao peito, não esquentam, não incomodam e devolvem a aparência estética natural de uma mama no sutiã. Confortáveis, econômicas, práticas! Minha autoestima voltou, comecei a usar minhas roupas novamente, estou me sentindo muito mais feminina e feliz! Se foi bom para mim, porque não compartilhar com outras mulheres que como eu, estão passando por essa situação? Desta forma, doamos próteses feitas de alpiste, com muito amor, para mulheres mastectomizadas que as necessitem, no Brasil, e dessa doação e vontade de ajudar o próximo que em 6 de outubro de 2016 surgiu o projeto Mamas do Amor. Hoje, o projeto Mamas do Amor, já envolve voluntários na confecção das próteses, vários apoiadores, Ongs como o Grupo Mulheres do Brasil e conta com a parceria de várias empresas doadoras de material para a construção das próteses.“

Já está na hora de as grandes marcas se envolverem mais com tudo o que está fora do padrão, incluindo o universo das mulheres pacientes oncológicas.

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