Pensado para retomar uma brincadeira esquecida nos últimos anos e reativar a memória de seus apaixonados, o bar Arquibancada Botões Clássicos ganhou vida. O local fica em uma tranquila travessa do bairro da Pompeia, zona oeste de São Paulo, e é uma junção de bar e futebol de botão.

O bar, inaugurado há pouco tempo, conta com uma junção de fotos, pôsteres, figurinhas e jornais colados por todas as paredes. No teto, estão penduradas algumas camisas e cachecóis dos mais diferentes times e épocas. O ambiente proposto remete ao histórico bar São Cristóvão, paraíso para os apaixonados por futebol de épocas passadas, localizado na Vila Madalena. À direita da entrada estão as quatro mesas para a prática  que, eventualmente, se transformam em alegorias do futebol mundial.

A ideia de um local para a prática do botão foi consequência do Botões Clássicos, loja virtual que faz botões sob encomenda há pelo menos 4 anos, fundada e idealizada por Luciano Araujo.  “Queríamos [ele e a família] retomar uma brincadeira de criança e, inspirados pela copa de 2014, faríamos um campeonato entre nós. O problema era que eu não tinha mais os meus botões e decidi faze-los”

Luciano é formado em Design e já trabalhou nas revistas Placar e Lance!, essa familiaridade com o mundo do futebol o ajudou na hora de fazer seu time. O time confeccionado chamou a atenção de amigos e parentes, que começaram a encomendar mais alguns botões com o designer. A princípio o negócio começou como boca a boca, mas o aumento da demanda fez com que fosse necessário um local de venda.

Camisas e loja de botões no fundo.

A formação de um público base, permitiu que os primeiros torneios fossem organizados em parceria com alguns bares, já que antes era apenas uma loja na web. Motivados pelo sucesso dos campeonatos e a alta demanda de jogadores, Luciano optou por abrir o seu próprio bar. Foi então que ele decidiu criar a “Arquibancada Botões Clássicos”, que completou 3 meses em junho.

O funcionário público Edival, frequentador mensal do local e que descobriu o estabelecimento pela internet, lembra que jogava muito quando criança, mas que perdeu o costume durante a adolescência, “O próprio futebol de botão foi sumindo do mercado. Agora, com o trabalho do pessoal, resgatou essa minha paixão de jogar botão. ”

 A história e evolução do futebol de botão

A história por trás da criação do futebol de botão é incerta. Embora alguns apontem que o botão tenha uma origem especialmente brasileira, a teoria mais aceita mostra ter sido criado no Reino Unido, já que existe uma página do jornal britânico Leader, do ano de 1910, em que é feita uma propagando sobre o jogo.

Teoria certa ou não, existem indícios da brincadeira em solo tupiniquim desde a década de 1920. A sua popularização está ligada ao publicitário Geraldo Décourt que lançou, em 1930, o livro com as regras oficiais desse jogo e acabou espalhando-o para o resto do país. Decourt é considerado o pai do botão até os dias de hoje, dando origem também ao Dia do Botonista, comemorado em 14 de fevereiro.

No início, o jogo era chamado de Celotex, fazendo referência ao material que compunham as mesas da época, e se utilizava dos botões das roupas para a personificação dos jogadores. Por fim, a caixa de fósforo era o verdadeiro paredão no gol, tentado sempre estar bem posicionado para defender a bolinha, que podia ser feita de miolo de pão ou cortiça.

A brincadeira continuou a evoluir e, nos anos 60, as tampas dos relógios quebrados tomaram o posto dos botões na brincadeira. Feitas de celuloide, material que é transparente, foi possível que recebessem uma demanda de tinta e a colagem do escudo do time e do número dos jogadores. Essa nova característica só aumentou a imersão do praticante com o ambiente do futebol e do seu time.

Nos anos 70, chegamos ao estágio que perpetua até hoje: os botões são feitos de acrílico e personalizados para cada time ou seleção; os campos são feitos de madeira com diferentes tamanhos, que variam de acordo com a sua proposta e praticantes; e a bolinha é de feltro. Grandes empresas de brinquedos, como Estrela e Gulliver, ficaram conhecidas por produzirem em grande escala os botões para todo o território nacional.

O jogo tornou-se parte da cultura brasileira, uma brincadeira comum e presente na maioria dos apaixonados por futebol, principalmente durante os anos de 1940 até o final de 1980. Até então era a maneira mais fácil, além de torcer e praticar futebol, para se inserir no meio futebolístico, seja ao se identificar como um dos botões e estar jogando ao lado de ídolos, seja como técnico ou como narrador das partidas.

O ápice da brincadeira veio em 1988, quando foi considerado um esporte de salão – semelhante ao xadrez e ao bilhar – e fundaram-se as federações estaduais e nacional do “Futebol de Mesa”.

Quando questionado sobre o desaparecimento do futebol de botão, Luciano pontua que a facilidade do videogame e o espaço, levando em conta a transição das casas para apartamentos, afetam muito, mas nada como o licenciamento, “O que mais pegou foi essa questão, principalmente nos anos 90. As empresas como Estrela e Gulliver sofriam, já que a demanda de produto era menor do que as empresas poderiam pagar de licenciamento. Hoje o trabalho é artesanal, e temos esse problema ainda hoje. Os clubes querem uma garantia mínima. Nós queremos resgatar o futebol de botão e não só vender“. Ainda relembrando do passado, Luciano conta uma curiosa lembrança com o futebol de botão, “ Tinha um botão do meu avô, que era o Canhoteiro. Não sabia quem era esse cara, apenas achava engraçado o nome. Nunca me esqueci desse botão, apenas anos mais tarde fui descobrir que era um jogador importante para a história do futebol e do São Paulo. ”

Felizmente os clubes têm sido mais compreensivos, quando lhes são mostradas as lembranças que o futebol de botão traz e sua importância cultural como meio de inserção no futebol. Isso tem permitido que o trabalho da Botões Clássicos se desenvolva e cresça, muitos jogadores famosos já receberam time e alguns jornalistas esportivos, como Mauro Beting e José Trajano, já visitaram o local.

Edival ainda conta um pouco de sua experiência em retomar a brincadeira de botão e em especial com a filha de 7 anos, tendo em vista que as crianças hoje tendem a se divertir, principalmente, com os meios eletrônicos. “Muitas das vezes a inciativa de brincar com os botões é da parte dela, em casa mesmo, já que temos o campo e os botões. Quando eu decido vir aqui, sempre chamo ela. ”

 

Arquibancada Botões Clássicos

Rua Raul Pompéia, 1011 – Vila Pompéia – São Paulo

 

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