Por: Paulo Modesto Santos

 

Em maio de 2017 seis jovens morreram e outros ficaram internados em estado grave em vários hospitais de Buenos Aires após um festival de música eletrônica que ocorreu no complexo de Costa Salguero. Os incidentes ocorreram em um dos principais festivais da cena, o Time Warp, de origem alemã, que ocorre em todo o mundo desde 1994.  O universo das festas de música eletrônica ficou manchado após o acontecimento.

Depois de autópsia realizada por especialistas, ficou comprovado o motivo das mortes. Os jovens de 20 a 25 anos faleceram devido ao abuso indevido de entorpecentes. As autópsias mostraram que eles sofreram um edema pulmonar, o que provocou uma parada cardíaca, induzindo à morte. Tudo isso consequência do efeito da droga que consumiram no festival.

Festas rave, regadas a muita droga e música eletrônica. Não é segredo para ninguém que jovens fazem o uso recreacional em grande escala de substâncias psicoativas, drogas estimulantes ao sistema nervoso, durante suas noites de lazer. Aquelas que vem ganhando destaque nos últimos anos são o ecstasy, pastilhas que contém a substância MDMA, e cartelas de LSD, que são altamente alucinógenas. Tais substâncias, se usadas de forma controlada, sem exageros, apresentam baixo risco a integridade física e mental de seus usuários.

Porém, novos usuários de ecstasy estão morrendo por engano, ao ingerir outra droga muito mais tóxica. Os análogos ao MDMA e ao LSD tem se tornado cada vez mais frequentes, um perigo a mais no uso recreativo das anfetaminas. Muitos tem se tornado vítima desse paradigma.

Superman”; Este é o nome com que é comercializado a pastilha responsabilizada pelas mortes citadas no início do texto. Mas o que pouco se sabe é que esses tabletes possuíam a  substância PMMA, e não MDMA. Apesar de habitarem a mesma família, trata-se da para-metóxi-N-metilanfetamina, enquanto que o ecstasy é a substância 3,4-metilenodioxi-metilanfetamina.

Muitas mortes atribuídas como consequência direta do uso de ecstasy, na verdade, foram causadas pelo PMMA ou outras substâncias análogas, como a metanfetamina. Os usuários não sabem o que estão adquirindo, uma vez que são vítimas da política de criminalização, onde o nível de estudo e de informação é baixíssimo. Como essas drogas podem ser muito mais tóxicas,  quem as usa é surpreendido pelos fortes efeitos colaterais. Tal como o MDMA, o PMMA é uma droga empatogênica, fácil de ser confundida até pelo usuário mais frequentes.

O consumo de drogas é um dos grandes tabus da sociedade. Na maioria das vezes ela é apresentada como a grande responsável por overdoses ou viagens ruins, as famosas “bad trips”. Mas, na verdade, a grande e principal origem do problema é a falta de informação que nos chega sobre o assunto.

A maioria das pessoas provavelmente já experimentou em algum momento da vida alguma forma clássica de educação sobre drogas que focava apenas o ensino da abstinência. O PROERD é um exemplo. Esses programas têm se mostrado ineficazes, e podem até contribuir com o aumento do uso de drogas entre jovens e estudantes. A atual política de combate às drogas global propaga medo e desinformação.

O que é redução de danos

Estimular a reflexão, o auto controle e o conhecimento sobre o uso de drogas, visando a promoção de saúde e buscando a prevenção de doenças. Disseminar informações sobre as consequências e riscos relacionados ao uso de drogas. Em outras palavras, é o conjunto de estratégias que se ensinam aos usuários de drogas para se minimizar os risco relacionados ao consumo. Essa foi a definição do projeto Respire Redução de Danos dada durante festival de arte e cultura realizado no mês de maio deste ano na cidade de Ipoema/MG, com o qual estive presente.

Fotógrafo: Paulo Santos
Projeto Respire Redução de Danos

O projeto Respire frequenta festas de música eletrônica desde 2011 e exerce papel importantíssimo na prevenção e redução de riscos para frequentadores de raves. Os mesmos tratam a redução de danos como um padrão que deve nortear todas as ações quando se trata de substâncias psicoativas, e reconhecem a importância de ampliar suas participações para outros contextos de festas que não sejam apenas de música eletrônica. Com essa atuação, quem sabe, muitas mortes consequência do abuso de entorpecentes poderiam ter sido evitadas.

Outro lado apontado foi a crítica a guerra às drogas a partir de uma redução dos danos sociais causados pela política de drogas. O auto-conhecimento e a auto-regulação do consumo, baseada na informação e na experiência, se completam no âmbito social e político por só serem possíveis de existir com o fim da proibição e o fim da guerra às drogas.

Consequência de uma omissão histórica dos serviços públicos, o tratamento de usuários passou a ser de responsabilidade da justiça, o que contribuiu drasticamente para a disseminação de um preconceito que associa diretamente o uso de drogas a criminalidade, promovendo práticas nocivas de exclusão e separação. A atuação no ambiente das festas de música eletrônica pode ser um passo inicial para institucionalizar práticas de redução de danos enquanto políticas de saúde pública.

Como funciona a atuação nas festas

A intervenção do Respire se dá em festas previamente selecionadas, onde o acesso a quem faz o uso de drogas será constante.  Primeiro, é montado uma área de trabalho, um espaço afastado da música e do resto dos frequentadores para que os usuários possam se informar com a equipe sobre o uso de diversas substâncias e sobre a prevenção de doenças virais, como às DSTs e as hepatites.

Esta área também servirá de auxílio para aqueles que estiverem tendo experiências ruins ao ter ingerido alguma droga, com espaços confortáveis e acompanhamento psicológico. No âmbito da divulgação de informações na perspectiva da redução de danos, são distribuídos folders contendo as principais práticas preventivas para o consumo das diferentes substâncias.

Fotógrafo: Paulo Santos
Repouso e informação nas festas

Como já foi ressaltado, a atual política legislativa brasileira não tem respondido de forma eficiente a problemática da droga. Ela peca na regulação da produção, do comércio, e principalmente do consumo. Isso resulta no desconhecimento do usuário em relação ao que está consumindo, em substâncias mais tóxicas ao corpo humano, e em métodos inapropriados de consumo. Como resposta, é distribuído para as pessoas que fazem uso de cocaína o chamado Kit Sniff, com instruções primordiais para o consumo seguro, invulnerável a transmissão de Hepatite C.

Fotógrafo: Paulo Santos
Kit Sniff

 O kit agrega um espelho de metal, para que a cocaína não seja ingerida em locais  como o vidro da tela de celulares, um canudo de uso individual, para evitar a transmissão de doenças, e uma mensagem para estimular o auto-controle; ” Reflita sobre seu consumo de drogas. Pratique redução de danos”.

Outro método utilizado pela equipe durante as festas é o uso de reagentes químicos. A proibição afeta diretamente a produção das substâncias. São possibilidades incontáveis de drogas contidas em ecstasys, pós, cristais, blotters e gotas. Com os reagentes você pode identificar o que tem antes de decidir usar. Trata-se de usar uma fração mínima da sua amostra e pingar o reagente, acompanhando a evolução de cores da reação para descobrir o que contém ali.

Kit de reagentes comercializado online

 

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