Na Penha, Festa da Igreja do Rosário dos Homens Pretos recebe dezenas de visitantes

Festa acontece no antigo Largo do Rosário, no centro da Penha. Foto: Comunidade do Rosário

 

Por Amanda Leite

Humildemente erguida atrás do imponente Santuário Eucarístico Nossa Senhora Da Penha, a Igreja do Rosário dos Homens Pretos da Penha de França é uma velha conhecida dos moradores da região. A pequena e simpática capela azul é um antigo patrimônio da cultura popular e afro-brasileira e carrega uma história emocionante e pouco conhecida. Construída pela antiga Irmandade do Rosário dos Homens Pretos, comunidade formada por descendentes africanos que eram mantidos em regime de escravidão no século XVIII, a Igreja do Rosário foi idealizada a fim de se preservar a tradição dos ancestrais e refletir sobre história do Brasil.

Sempre marcada pela tradição, a Comunidade do Rosário realiza há quase 20 anos a Festa do Rosário dos Homens Pretos da Penha de França. O evento acontece durante todo o mês de junho, escolhido graças ao reconhecimento da igreja no dia 16 de junho de 1802, conforme atestam os documentos históricos.

A recepcionista Wânia Prático, 50, que trabalha perto do Largo do Rosário, uma charmosa praça onde se encontra a igreja, conta como o local sempre promove festas e comemorações do tipo: “É um espaço que abriga a diversidade, sempre acontecem feiras bolivianas ou de outras nacionalidades. Eu não perco uma!”, completou, rindo.

Cartaz da Festa da Igreja do Rosário de 2018. Foto: Comunidade do Rosário

Esse ano, a Festa do Rosário dos Homens Pretos foi organizada pelo Movimento Cultural da Penha, apoiada pelo Centro Cultural da Penha e tem com o tema “Somos Contas de um Mesmo Rosário”. O evento conta com diversas atrações para toda a família como apresentações de documentários, shows de dança, roda de samba e feira de artesanato.

O tema deste ano nasceu de uma composição criada pelo músico Tita Reis, exclusiva para uma celebração afro da Igreja, que compara as contas de um rosário às pessoas, revelando a importância de cada indivíduo para a coletividade.

“Rosário literalmente refere-se a um objeto que, durante séculos, as pessoas, especialmente as mais simples, usavam para fazer as suas preces e súplicas à Nossa Senhora. Mas também tem sentidos metafóricos,” explicou Claudia Adão, integrante da Comunidade do Rosário. “Ele pode fazer alusão a vida coletiva, a vida em comunhão uns com os outros, com a natureza, com nossos antepassados. O grande fio no qual colocamos as nossas contas, energia, vida e contribuição,” completou.

Durante a programação da Festa, o tema e questões como respeito às diferenças eram reforçados pelas atividades, como em rodas de discussão. “A Comunidade do Rosário é formada por diferentes rostos, gostos e histórias, sempre tentamos relembrar isso,” completou Adão.

A capela durante a missa no dia 16 de junho. Foto: Comunidade do Rosário

No dia mais simbólico do evento, 16 de junho, o grupo Ilú Oba de Mim apresentou “Akotirenes: O Yibi das Mulheres Quilombolas”. Dezenas de mulheres negras tocaram e cantaram em frente à Igreja e depois seguiram pelas ruas do bairro, guiando um grupo emocionado de pessoas que acompanhavam a performance. Em seguida, o Padre Jalmir Matias de Oliveira guiou a Missa Afro-brasileira que também levou inúmeros seguidores para a pequena capela.

“É muito emocionante participar de um evento como esse”, contou o estudante Arisson Lemos, 18, que acompanhou cada segundo. “É importante existir um ponto de resistência como a Igreja do Rosário, que relembra um passado triste da história do país”.

A Festa a Igreja do Rosário dos Homens Pretos acontece até dia 1º de julho e tem entrada é gratuita.

 

Leave a Reply