“Take Your Pills”: a obsessão por perfeição

Novo documentário do Netflix apresenta nova droga que atrai pessoas de todas as idades pelo efeito estimulante.

Os remédios levam em sua composição componentes químicos de anfetamina e metanfetamina – drogas sintéticas que estimulam o sistema nervoso – prometem garantir disposição, mais foco nas tarefas, melhor desempenho nas provas, isto é, aproximar o ser humano da perfeição.

O documentário, de Alison Klayman, trata principalmente sobre o uso exacerbado do Adderall que virou febre entre os estudantes, pela promessa de um desempenho milagroso e uma performance invejável no meio acadêmico, esportivo, profissional e até pessoal, por estimular vigor e entusiasmo.

O documentário apresenta histórias de estudantes americanos, da faculdade São Francisco, que desejam um bom desempenho acadêmico. Todos tinham conhecimento da existência da droga ou, na maioria dos casos, já tinham experimentado. O anseio por uma capacidade fora dos limites comuns do ser humano é o que estimula tamanha demanda da substância.  A popularidade do Adderall é tanta entre os jovens que o remédio ficou popular como o “crack universitário”.

Esses estimulantes são vendidos com prescrição médica para pessoas diagnosticadas com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).  Se enquadra na lista de substâncias legais de uso controlado no Brasil e nos Estados Unidos. O filme mostra que além do acesso com receita médica, é fácil encontrar o produto vendido em universidades ou colégios norte-americanos. Entre as entrevistas apresentadas, um estudante alega que é possível adquirir o Addreall com algum conhecido por dois dólares a pílula. “Take Your Pills” aborda o assunto de como a demanda excessiva por produção em massa, desempenho máximo nas tarefas diárias, cobrança no mercado de trabalho, exigência em se sobressair ou ser o melhor em determinada área, tornou as pessoas ansiosas e frustradas com o seu comportamento comumente humano, desejando ir além do que conseguem, tornando-as invencíveis e resistentes às necessidades fisiológicas. O uso de medicamentos psicoativos entre pessoas cada vez mais jovens vem aumentando ao decorrer das décadas.

Gabriel Fernandes, 23 anos, arquiteto, que já passou pela pressão dos cursinhos pré-vestibulares. O jovem diz que precisava ficar mais de sete horas diárias para conseguir completar seus estudos para as provas de vestibular. Foi então que Gabriel decidiu começar a tomar Adderall por recomendação de um amigo que disponibilizada receitas médicas. “A maioria de vocês pode se identificar com a dificuldade de ler um livro enquanto o seu celular apita, porque, naturalmente, isso significa que você precisa verificar todas as plataformas de mídia social que você tem antes de bloquear o telefone, e voltar a leitura. É um inconveniente real. De repente você percebe que olhou para o celular de novo quando recebeu alguma notificação e isso fez com você se distraísse cinco horas vendo vídeos engraçados no Facebook, ou pior, ofertas de um tênis em lançamento. Com Adderall, as distrações são coisa do passado, você percebe que tem uma visão de túnel ao olhar para o caderno e compreender mais afundo os exercicios, ao notar que passou sete horas e você continua com a cara nos estudos e  nem saiu da cadeira para ir ao banheiro. Essa incrível capacidade sobrehumana é o que mais atrai os estudantes como mostra no filme”.  Segundo Fernandes, as drogas psicoativas vão ajudar muito mais antes de sobrecarregarem seu corpo e mente com as terríveis consequências do uso à longo prazo. As demandas físicas, mentais e de tempo, do qual as pessoas são expostas diariamente, são incomparáveis ??ao que costumavam ser, e a sociedade reage criando maneiras de lidar e ter sucesso sob novas circunstâncias, com o intuito de manter o corpo humano acompanhando o crescimento inabalável dos meios tecnológicos e industriais. “Nossa sociedade encontrou maneiras de transformar quase tudo em algum tipo de experiência automática ou de piloto automático e, no entanto, estamos fazendo o oposto completo com nossos corpos. Por passar horas estudando sem pausas e os efeitos colaterais dos estimulantes psicológicos, comecei a ter transtornos mentais, confusões de personalidade e problemas de saúde, que são os efeitos colaterais não prescritíveis dessa droga”.

Além do uso de substancias estimulantes no meio acadêmico, drogas como Adderall ou Ritalina, vêm sendo usadas no meio esportivo. Causam sensações como: capacidade motora avançada, sentimento de ânimo e euforia, e mais entusiasmo físico e folego para treinamentos extensivos. O usuário se torna mais cuidadoso, atento, ativo, como um combustível fazendo com que ele consiga se esforçar em um treino durante longas horas. Grandes nomes no âmbito olímpico, como Michael Phelps e Simone Biles, foram detectados com doses de Adderall no sistema sanguíneo.  Como o uso é permitido para pessoas com transtornos déficit de atenção, não é algo penalizado na conduta esportiva.

Psicologo e neurologista, Edson Costa Simões, que atende vários pacientes diagnosticados, ou não com TDAH, que fazem uso de psicotativos, afirma que: “Adderall e outros estimulantes, trazem a sensação de sobreposição humana. Você se torna melhor do que qualquer outra pessoa que não toma esses remédios. Não ter medo de errar, se concentrar nas tarefas, produzir mais e mais, ser mais útil para o seu chefe que o seu colega de trabalho, isso tudo e ainda chegar em casa e ser capaz de fazer exercícios e dar atenção à sua esposa”.

Os efeitos colaterais desses entorpecentes são dinamicamente extensos. O uso prolongado pode causar graves complicações cardiovasculares e sobrecarga do fígado. Além dos intensos transtornos mentais, como surtos psicológicos, vício, ansiedade, graves casos de depressão. Isto porque, dá uma sensação momentânea de falta de invalidez ou capacidade ilimitada, sendo assim, muitos usuários só conseguem efetuar suas obrigações cotidianas com o uso da droga. “Todos os usuários, sem exceção, sofrem algum tipo de efeito colateral, fruto da consequência do desequilíbrio gerado pela droga, como mostra em vários relatos no documentário”, afirma Edson.

A cultura do consumismo gerou uma certa ressaca tecnológica na geração, que vem tentando mascarar os distúrbios com novas drogas. “Adderall é muita tentação para uma geração que toma remédios para dormir, acordar, relaxar, fazer sexo, se livrar da dor, perder peso, ganhar músculos, curar doenças, prevenir doenças, engravidar, prevenir engravidar, ser feliz, ficar dopado – a lista continua”, argumenta o psicologo.

Nessa onda hipocondríaca de pílulas para anestesiar as emoções ou cobrir as falhas, é deixado de lado experiências inerentes aos seres humanos. Experiências essas que, atualmente, são cerceadas com o uso de drogas estimulantes –  ou se melhor analisadas, drogas depressoras, pois, não se permite chorar, sofrer ou até aceitar os limites do próprio corpo e mente. Se limitam o devaneio, a arte, a reflexão e até a capacidade de criar e reinventar. Sentimentos como medo, angústia, raiva, são descartados e substituídos por foco, disciplina e precisão. Outras sensações como alegria, satisfação e bem-estar, são colocadas no lugar pela pressão de melhor desempenho e a frustração na ausência da substância.

“O mundo tecnológico e a mídia do consumo, fazem o indivíduo enxergar o ser humano como um mero objeto, assim, enxergam a si próprios como mercadorias. Se igualando a máquinas. O mundo industrial gerou à nós a obsessão de ser preciso como uma calculadora, de ser rápido como um computador, de ser incansável como a internet. Dessa forma, nos desarticulamos de sentimentos propriamente e unicamente humanos, para nos aproximarmos do comportamento de uma máquina”, conclui Simões. Com uma estética próxima ao “pop art”, o documentário mostra os efeitos persuasivos que os estimulantes causam. Outros filmes e seriados abordam essa relação de humanidade, perfeição e estimulantes, como por exemplo, o filme “Limitless” e a série de TV “Silicon Valley”.

 

Por Camila Naomi

 

 

 

 

 

 

 

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