Especialistas debatem efeito danoso de série da Netflix

Por Kenya Marques

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 800 mil suicídios foram registrados em 2015, sendo 75% em países de média e baixa renda.

No mês de maio, voltou a ser exibida a série da Netflix, “13 reasons why” traduzida como os 13 porquês. A estória gira em torno de uma estudante que se mata após uma série de falhas provocadas por indivíduos dentro de sua escola. Uma caixa de fitas cassetes gravados por Hannah antes de se suicidar relata treze motivos pelas quais ela tirou sua própria vida. Foram apresentadas na primeira temporada cenas de estupro em duas meninas e de suicídio; agora são mostradas estupro de um menino e tentativa de tiroteio na escola.Atualmente está ocorrendo um debate sobre a toxidade da série e a romantização do suicídio, já se sabe do caso do jovem Franco Alonso Lazo Medrano, de 23 anos que se matou e deixou fitas para os amigos, assim como na série.

Representação de suicídio entre jovens

JusBrasil – Representação de suicídio entre jovens

O serviço australiano de saúde mental para jovens de 12 a 25 anos, o Headspace, emitiu um aviso no final de abril de 2017 em relação ao conteúdo gráfico apresentado na série devido ao aumento do número de ligações para o serviço após o lançamento da série no país.De acordo com a Fundação americana para prevenção de suicídio, “O risco de suicídio aumenta quando uma história descreve explicitamente o método do suicídio, usa manchetes ou imagens dramáticas ou gráficas, e quando a cobertura repetida, usa o sensacionalismo ou glamoriza uma morte.”

Diversos psicólogos e demais especialistas no assunto apontam sua opinião sobre a série, “O principal erro da série é, de longe, mostrar o suicídio de Hannah. A cena, que acontece no episódio final da primeira temporada, é absolutamente desnecessária na narrativa e claramente contrária ao que apregoam os manuais que discutem prevenção de suicídio e mídia” diz o psiquiatra brasileiro Luís Fernando Tófoli. Para a professora de psicologia da UFPEL “Ao assistir a série, a gente não torce para a menina não se matar (afinal, sabemos que se matou). A gente torce para que os responsáveis pela miséria dela sofram, se sintam culpados, sejam responsabilizados. A ideia das fitas parece brilhante: é a morte como vingança. “Me fizeram sofrer, não aguento mais… eu vou, mas eles vão junto”. Em outras palavras: é o suicídio romantizado”.

Twitter- !3 reasons why 2 temporada

Enquanto muitas pessoas acreditam no lado negativo que esta narrativa poderia trazer, outras pensam que a série ao mostrar seu conteúdo irá chocar o telespectador para que ele não tenha as mesmas atitudes de Hannah. De acordo com o showrunner Brian Yorkey “Muitas pessoas nos perguntaram por que nós mostramos Hannah se matando da forma como fizemos. Trabalhamos duro para que (a cena) não fosse gratuita. Queríamos que fosse difícil de ver, para ficar claro que não há nada que valha a pena (no suicídio)”.

Após repercussões negativas sobre a série, a Netflix colocou em seu catálogo um minidocumentário chamado “13 reasons why: tentando entender os porquês”, através dessa plataforma tanto produtores, atores, psicólogos e entendedores explicam o real motivo da série ter seguido a ideia de mostrar na tela o que havia sido escrito em um livro. É dito neste documentário que havia psicólogos acompanhando a criação do roteiro e as filmagens.  Para Brian existe uma razão para que a série tenha sido feita do jeito que foi “…Por que fizemos a Hannah se matar do modo que fizemos e porque mostramos. Nós trabalhamos muito para não ser injustificado, mas o objetivo era que fosse doloroso de assistir porque nós queríamos que ficasse muito claro, que não há nada de qualquer forma que valha um suicídio.”

Apesar da narrativa focar principalmente na questão do suicídio e na vingança na morte de Hannah, algo abordado é a questão do luto tanto de familiares quanto de amigos.

De acordo com a Dr. Anna Christina Cardoso de Mello psicóloga perita do tribunal de justiça “O suicida deixa a impressão que por mais que as pessoas tenham feito esforços, esses não valeram de nada. Em muitas culturas o suicídio é visto como algo que impede a pessoa a ser aceita pelo seu deus… Os familiares se sentem impotentes, triste, revoltados e até com raiva da pessoa que cometeu o suicídio, de não ter dado chances de receber ajuda, de não ter avisado, as pessoas acham uma decisão injusta.”

Apesar de a série ter intensões nobres, existe uma linha tênue, como se disse no documentário na: a cabeça do adolescente parece que tudo ficará do mesmo jeito para sempre.

 

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