Por João Pedro Polido e Leonardo Pedro

Madame acende um cigarro. Um maço Chesterfield azul, daqueles com filtro sabor de menta. Restavam apenas três cigarros brancos, percebidos pela senhora com um meio sorriso nervoso.

Madame Concha: “Não posso ficar sem um desses. São os meus filhinhos, fumo desde os 14 anos. Minha mãe fumava também. Era empacotadora e me lembro da cara dela até hoje quando proibiram. Meu pai eu não conheci, graças a deus, dava muito problema para ela. Eu entrei na prostituição aos 17 e já fumava bastante”.

 Sem querer se identificar pelo nome, ela adorou a sugestão do Madame Concha. “Seria meu nome de guerra anos trás, muito melhor que Luna”, ria por entre as feições de uma mulher com seus 60 anos de idade. Nascida em Santos, Madame usava brincos de concha. Tinha cabelos pintados de loiro, olhos caramelos e um sorriso confiante que parecia onipresente em seus lábios.

 Madame Concha fora prostituta por 38 anos, passando pelas ruas e casas da Baixada Santista até ser convidada para trabalhar no “+ Love”, um prostíbulo da zona Sul de São Paulo.

 MC: Eu sou puta velha já. Porque puta mesmo nós nunca podemos deixar de ser, né. Vim para São Paulo com uns vinte e três anos. Fui convidada para trabalhar no “Love” por um cafetão que era meu conhecido da Baixada na época. Como em Santos eu trabalhava na rua, a maioria do dinheiro ia parar na mão dos donos do ponto e para mim só miséria.

 A legislação brasileira proíbe a exploração sexual de um indivíduo por terceiros. Entretanto, a realidade é outra e Madame Concha viu na mudança para uma casa em São Paulo como uma oportunidade.

 MC: Meu filho já tinha cinco anos e eu mal tinha dinheiro para comprar umas roupas para nós. Fora que em São Paulo eu sabia, por outras garotas, que o cafetão ganhava pelo aluguel do quarto, 30% do programa. Essas casas em São Paulo têm mais regras porque não fazem vista grossa. Isso falando das casas, porque na rua continua a mesma. Quem manda no ponto tem o dinheiro.  

 Em São Paulo, Concha conseguiu uma renda maior, entretanto, topou com a realidade da favela.

 MC: Em Santos eu morava em um sobradinho perto da praia. Aqui o que eu consegui foi um barraco para mim e meu filhote. A maioria das meninas na prostituição está atrás disso, quando não de drogas, um barraco e dinheiro para comida pros filhos. Sabe, tem também as sonhadoras que fazem programa para poder pagar um curso ou uma faculdade, mudar de vida. E tem as de luxo, não podemos esquecer, mas essas são minoria. É sonho e não realidade. Uns programas daqueles e eu teria filho médico ou advogado. Não dá para achar que o que essas meninas ganham é o normal.

 Madame Concha hoje tem cinco filhos e todos são maiores de idade. Criou-os e pagou por seus estudos, sem depender de ninguém. “Odeio contar com homem”, ela fez questão de ressaltar em várias oportunidades durante a entrevista.

 MC: A prostituição me fez ser quem eu sou e deu vez para eu criar os meus filhos. Posso ser puta, mas não tenho um filho bandido e nem político. Agora uma coisa eu tenho que falar também. Não sinto saudade não. Quando parei de trabalhar foi uma felicidade só. O ruim é que agora não recebo mais nada. E foi de um aperto no coração deixar as meninas lá e virar as costas.

 Vale ressaltar que o Estado Brasileiro oficializou a prostituição como profissão em 2002, definindo quem a pratica como sendo um profissional do sexo (meretriz, garoto de programa, transexual e travesti), garantindo direitos previdenciários e auxílio- doença para infecções genitais decorrentes da prática do ofício. Apesar disso, os próprios técnicos do INSS teêm dúvida acerca da legalidade da lei e o desconhecimento geral da população cria histórias como a de Madame Concha. Ao se “aposentar”, Madame passou a ganhar sua renda mensal costurando e adereçando roupas para apresentações de strip-tease.

 MC: A puta velha se aposenta só quando pode. Se precisar de dinheiro vai ter que voltar para o jogo de alguma forma. Eu consegui ir para a costura, mas ganho só uns trocados em uma semana inteira.  Ninguém olha para a gente quando não está de pau duro.

 Dona de um bom humor inabalável, Concha acendeu outro cigarro, sorrindo com seus olhos cheios de carisma. Usava um vestido preto florido e batia as havaianas brancas com os pés no chão. Tragou a fumaça e soprou, reservando uma carranca preocupada ao zelar pelo caminho das garotas de hoje.

 MC: Acho que hoje com a internet a gente aprende tudo mais rápido, né. Mas as meninas aqui da periferia tão tudo na mesma. Elas ficam lutando pelo pão e os machos só em cima. E só vai mudar quando o presidente for uma puta, te falo com toda certeza. Falam que nós somos do submundo, né. Por isso só vai olhar para nós, uma de nós mesmas.

 A profissão mais antiga do mundo e tratada com o conservadorismo e ideais datados da mesma época. Para Madame Concha resta o orgulho de ser o contrário de tudo aquilo que despreza.