Esportes americanos ganham espaço no Brasil

Por Gabriel Elias

Em tempos de Copa do Mundo fica mais evidente do que nunca que o Brasil é o País do futebol. Jovens ou adultos, homens ou mulheres, todo mundo conversa disso. Porém, em outros momentos, a nação parece demonstrar uma ponta de interesse em outras modalidades, por mais que isso seja muito novo ainda.

Nos últimos anos, os esportes americanos, como basquete, futebol americano e beisebol, vêm ganhando cada vez mais espaço nos lares brasileiros, e esse interesse faz com que fãs criem blogs e perfis nas redes sociais para aumentar o alcance das notícias, uma vez que os grandes veículos de comunicação do país ainda não encaram essas modalidades como assuntos de grande público-alvo.

Partida entre Philadelphia Eagles e New England Patriots, em 2007.                                               Fonte: Wikipedia

Essa forma de cobertura jornalística, ainda que amadora, impressiona pela proporção que vem tomando e pela maneira que é tratada. Atualmente, é quase impossível alguém entrar no Twitter e não achar uma página do seu time favorito de futebol americano ou basquete com conteúdo em português, e a grande maioria delas é produzida por amadores, ou seja, fãs que decidiram criar perfis específicos para falar sobre esportes americanos e seus times, como é o “Endzone Brasil” (@Endzone_Brasil no Twitter), que possui mais de 50 mil seguidores, e “oQuarterback” (@oQuarterback no Twitter), com quase 32 mil seguidores, por exemplo.

Dessa “brincadeira” podem surgir novas estrelas do jornalismo, como é o caso de Antony Curti, autor de mais de 2000 artigos sobre futebol americano desde 2009, fundador e editor-chefe do blog Pro Football, e agora também é analista de esportes americanos nos canais ESPN, tornando-se uma representação do sucesso que esse mundo das redes sociais pode trazer. Curti, inclusive, já lançou dois livros que considera fundamentais para quem quer aprender, e para quem gosta de futebol americano: “Manual do Futebol Americano”, com regras básicas e conceitos para iniciantes; e “Crônicas do Futebol Americano”, que consiste em histórias curiosas envolvendo o esporte. O jornalista também traduziu para a língua portuguesa o livro “Tire os Olhos da Bola”, de Pat Kirwan, obra muito conceituada sobre o assunto nos Estados Unidos. Seus companheiros de transmissões da NFL (Liga Norte-americana de Futebol Americano) na ESPN do Brasil também se aventuram no mundo dos livros, o que julgam essencial para adquirir novos adeptos e fãs da liga e da modalidade. O ex-árbitro de futebol americano no Brasil, Eduardo Zolin, também comenta os jogos na TV e lançou em 2017 o livro “Os Guerreiros da NFL”, sua primeira obra onde, junto com outro jornalista do ramo, Paulo Mancha, traz um compilado de informações históricas sobre times da NFL, seus ídolos, uniformes utilizados ao longo do tempo, histórias, etc.

Capa do livro “Manual do Futebol Americano”.                                                                            Fonte: divulgação

Mancha, que trabalhou com Zolin nesse livro, é um pouco mais experiente. Formado em jornalismo pela Universidade de São Paulo (USP) em 1991, foi repórter em várias editoras e revistas, tem um blog sobre viagens e foi um dos precursores nos comentários de futebol americano na TV brasileira moderna. Atuando nessa especialidade desde 2006, foi colaborador no Bandsports e no Esporte Interativo, antes de formar a equipe de transmissões da ESPN. Ele é autor do livro “Touchdown – 100 histórias curiosas, divertidas e inusitadas do Futebol Americano”, uma obra simples que traz histórias simples que marcaram a liga e o esporte ao longo das temporadas.

Seja pelas transmissões na TV, cobertura pela internet, ou livros, o crescimento desses esportes no Brasil tornou-se notável, e também chamou a atenção das próprias ligas. De acordo com uma matéria da Folha de S.Paulo publicada em fevereiro de 2017, a audiência do futebol americano no país entre 2013 e 2016 cresceu 800%, e a cúpula da NFL já demonstra interesse em incluir o Brasil no seu projeto de expansão no exterior, trazendo jogos comemorativos ou de pré-temporada, e já atua nisso com conteúdos em português nos seus perfis do Facebook e do Twitter. Segundo pesquisas, o Brasil já é o segundo maior mercado da NFL fora dos Estados Unidos, atrás apenas do México, e superando até o Reino Unido, que inclusive recebe jogos esporádicos de temporada regular todos os anos.

Outro fato relevante é que o número de jogadores brasileiros nas grandes ligas americanas cresce cada vez mais, e Cairo Santos, kicker do New York Jets, time da NFL, é o primeiro brasileiro a atuar na liga. Esse fato foi noticiado por grandes jornais e empresas de comunicação, e ajudou ainda mais na propagação do esporte no país.

Cairo Santos, kicker do New York Jets. Fonte: Wikipedia

O resultado disso tudo fica claro na hora da grande final: O Super Bowl LII, que aconteceu no dia 4 de fevereiro, fez a ESPN liderar a audiência de toda a TV paga nacional por quase duas horas, e o número de expectadores do evento cresceu 14% em relação à edição anterior, segundo dados do Ibope. “Os resultados indicam que fizemos a aposta correta na NFL há mais de 25 anos, quando passamos a transmitir a liga no Brasil. Os fãs entendem e valorizam cada vez mais a modalidade, fato que explica nossa audiência crescente em mais um ano” disse German Hartenstein, diretor geral da ESPN do Brasil.

Além dos números expressivos na televisão, a ESPN também obteve sucesso graças a NFL em outras plataformas: o WatchESPN, aplicativo de streaming dos canais do grupo, atingiu o maior número de acessos únicos de sua história durante a partida entre Philadelphia Eagles e New England Patriots, a hashtag #SuperBowlnaESPN liderou os assuntos do momento no Twitter por todo o jogo, e a exibição do evento nos cinemas, que aconteceu pelo quinto ano consecutivo no Brasil, bateu recorde de bilheteria em todo o período. A partida foi disponibilizada pela ESPN em parceria com a Cinelive em mais de 110 telonas por todo o território nacional. A próxima temporada da NFL começa em setembro e, no Brasil, tem transmissão exclusiva dos canais ESPN na TV por assinatura.

US Bank Stadium, em Minneapolis, estádio que recebeu o Super Bowl LII.                        Fonte: Wikipedia

O sucesso de novos esportes provenientes dos Estados Unidos no Brasil não é uma exclusividade do futebol americano. O basquete também vem despertando enorme interesse dos brasileiros, e isso cresce cada vez mais. A NBA (Liga Norte-Americana de Basquetebol) já percebeu o “boom” da liga no Brasil, e demonstrou isso com a vinda do “NBA Global Games” em 2013, jogos de pré-temporada da NBA que acontecem em diversas partes do mundo, como Reino Unido, França, China, e também Brasil. A associação já tem sua primeira loja oficial no Brasil, situada no BarraShopping, no Rio de Janeiro.

Além de também participar ativamente nas redes sociais com perfis em português, a NBA promete mais para os próximos anos. Segundo o diretor comercial da liga no Brasil, Rodrigo Vicentini, em entrevista à Gazeta Esportiva: “O mercado do Brasil é extremamente estratégico, por isso tem esse grande foco da NBA aqui. Foi a modalidade esportiva que mais cresceu na temporada passada, hoje é o terceiro esporte mais popular e mais consumido. (…) Em relação à parte de merchandising, nossos produtos tem uma parceria com uma loja online e tem nossa primeira loja no Rio de Janeiro, com grandes planos de expansão. Então acho que os fãs podem aguardar por grandes novidades nesse segmento”.

Na TV, não poderia ser diferente. As finais de 2018, transmitidas exclusivamente pela ESPN para o Brasil, atingiram números históricos de audiência, com crescimento de telespectadores superior a 23% em relação às finais da temporada anterior. O sucesso fica claro quando a Globosat, maior grupo de emissoras do Brasil, adquiriu os direitos de transmissão da liga, para exibí-la nos canais SporTV, sua linha de esportes. O SporTV teve a exibição exclusiva das finais da Conferência Oeste desta temporada.

Partida do Boston Celtics, time da NBA.                                                                          Fonte: Wikipedia

No país do futebol não existe tempo ruim para outros esportes. Basquete, futebol americano e tantos outros esportes também existem, e cada vez mais ganham destaque. Agora, para se consolidar, falta incentivo e prática.

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