Por Gabriela Maraccini

Em uma última conversa com o público antes do fim da exposição, o artista nissei explica o processo de criação de “Paraíso – Desenhando o Efêmero”

Banner de apresentação da exposição/Foto: Gabriela Maraccini

Oscar Oiwa, artista plástico nissei, realizou, no dia 2 de Junho, a sua última palestra aberta ao público a respeito de sua obra “Paraíso – Desenhando o Efêmero”, em exposição na Japan House São Paulo desde o começo do mês de abril. O desenho feito em 360 graus de uma paisagem projetada dentro de um balão inflável esteve exposto ao público até a terça-feira seguinte, 5 de junho. A conversa com o público foi seguida de uma visita guiada pelo próprio artista dentro de sua obra e teve entrada gratuita.

Com início às dez e meia da manhã, Oiwa explicou mais sobre o processo de criação de “Paraíso” e de onde surgiu a ideia de fazer uma obra em 360 graus. Ele contou que, originalmente, o desenho foi feito na parede e no chão de um centro comunitário abandonado em frente a ilha de Ogi, no sul do Japão, onde fora convidado para participar de um festival, em 2010. Infelizmente, após dois meses de exposição, uma casa ao lado pegou fogo e destruiu todo o seu trabalho. “Apesar do choque, ficou a experiência e resolvi seguir em frente com os meus planos”, conta o artista em vídeo apresentado durante a palestra. A partir daí ele resolveu fazer uma obra muito maior em tamanho e em impacto – nasce, então, o desenho em 360 graus. “Queria que as pessoas pudessem entrar no desenho como se estivessem entrando na minha cabeça.”

Oiwa enfatiza, porém, que não foi um processo rápido. Foram anos de pesquisa sobre o material e a técnica a serem usados. “Toda vez que eu vou fazer algo novo, eu pesquiso. Nada é de uma hora para a outra”. Esse é o segredo de seu trabalho: dedicação. Além disso, para a obra em exposição na Japan House, ele conta que foram necessários catorze dias de trabalho, sete horas por semana, cento e vinte canetas usadas e que obteve ajuda de cinco assistentes, mas que todo o desenho foi feito por ele. “Eu não queria que os assistentes fizessem o desenho, pois poderia modificar o traço. Eu desenhava e eles pintavam a parte preta para ir mais rápido”, explica o artista.

Detalhes da obra/Foto: Gabriela Maraccini

E qual era o objetivo de Oiwa com uma obra tão grandiosa? Ele afirma que se trata de uma forma de tentar transformar algo tão abstrato como a ideia de paraíso em algo concreto. Além disso, o artista nissei explica que a localização da exposição também foi pensada. A Japan House São Paulo está localizada no centro econômico do país, a Avenida Paulista, servindo, então, a obra como refúgio para quem trabalha em uma das avenidas mais movimentadas da cidade. “Ela é uma bolha onde as pessoas podem fugir da correria e entrar num ambiente totalmente diferente.” Ademais, a Japan House é um dos poucos lugares em que a cultura japonesa é exposta gratuitamente ao público, por isso a importância de seu trabalho ser exposto nesse local. “São Paulo tem uma carência de lugares para mostrar a cultura japonesa, apesar de ter muitos japoneses vivendo aqui. A Japan House é um dos primeiros lugares.”

Sobre seus planos futuros, Oiwa conta que quer levar a exposição para outros lugares do mundo. “Eu quero levá-la para Londres. Quem sabe no próximo ano ela não vá para Los Angeles também”. O único desafio é encontrar um lugar que comporte a obra, já que “Paraíso” ocupa um grande espaço que galerias, muitas vezes, não oferecem. “São espaços menores. O pé direito em Londres é menor e em Los Angeles será dentro de um shopping, não sei se terá espaço, mas vou tentar”.

Oscar Oiwa realiza palestra na Japan House/Foto: Gabriela Maraccini

Sobre o artista – Oscar Oiwa nasceu e cresceu em São Paulo. Estudou Arquitetura na FAU – USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo). Seu gosto por desenho surgiu desde sua infância e, durante toda a sua juventude, dedicou-se ao seu talento artístico, fazendo desenhos para jornais escolares. Após sua formação, foi morar em Tóquio, onde pode fazer projetos de esculturas em espaços públicos por toda a cidade. Mais tarde, ganhou uma bolsa de estudos em Londres, na Inglaterra e lá aprimorou seu conhecimento em arte. Em 2002, mudou-se para Nova Iorque, onde vive até hoje. O artista possui obras em diversos acervos como The National Museum of Art, em Tóquio e Pheonix Art Museum, nos Estados Unidos, entre outros.

Durante a palestra realizada no sábado, na Japan House, Oiwa foi perguntado sobre as dificuldades de viver da arte em diferentes cidades, com diferentes culturas e oportunidades. “Não é fácil em nenhum lugar do mundo, as condições são diversas. Não tem um lugar mais difícil que o outro”, alega o artista. Ele compara Nova Iorque com Tóquio, usando como exemplo o sistema de saúde de maior qualidade no Japão, apesar de os Estados Unidos terem melhores escolas. Compara também o estilo de vida dos brasileiros e dos nova-iorquinos: “O que é bom no Brasil? Diversão. Em Nova Iorque eles só pensam em trabalho” e conclui “O ideal seria pegar uma parte boa de cada lugar”.

Oiwa também afirma que a sua inspiração não sofre alterações de acordo com o lugar onde ele está vivendo no momento em que produz suas obras. “Épocas de crise me inspiram um bom trabalho”, explica. “Eu faço o que tá na minha cabeça. Faço o que eu posso fazer hoje”.

Outras três obras menores do artista fazem parte de sua exposição na Japan House: After Midnight, The Dreams of a Sleeping World e Invisible Sea. Todas paisagens em óleo sobre tela.

Artigos de artesanato em exposição e à venda na Japan House/Foto: Gabriela Maraccini

Sobre a Japan House – espaço criado pelo governo japonês com intuito de difusão da cultura japonesa para o resto do mundo. Está, atualmente, localizada em três lugares do globo: Londres, na Inglaterra, Los Angeles, nos Estados Unidos, e em São Paulo, aqui no Brasil. A unidade brasileira encontra-se no número 52 da Avenida Paulista, próxima à estação Brigadeiro do metrô. Lá, além de obras de artistas, o público pode comprar, por um preço alto, artigos de artesanato japonês, além de produtos têxteis, como echarpes e bolsas, e plantas decorativas. Livros e mangás também são disponibilizados para consulta, mas não para venda.

O ambiente é agradável e os funcionários são bem atenciosos, explicando detalhadamente cada artigo em exposição e à venda. A entrada é gratuita e a casa funciona de terça a domingo, das 11 horas às 22 horas.

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