Migrantes movimentam a economia de São Paulo

A demanda por mão de obra em uma cidade em acelerado processo de expansão foi a principal causa do fluxo migratório. Atualmente, os migrantes têm forte participação no mercado informal

Por  Adriana Vieira, Elaine Bertoni e Giovana Costa

A economia colonial no Brasil só foi possível com o recurso da mão de obra africana escravizada, a economia cafeeira com mão de obra europeia estrangeira e o desenvolvimento industrial com a migração interna. Os deslocamentos populacionais no país ocorrem com mais intensidade desde os anos 1930, e baseiam-se na crescente transferência de população do meio rural para o urbano, principalmente para a cidade de São Paulo. Esse fluxo aumenta até a primeira década de 2000, quando, pela primeira vez, a chegada de migrantes foi superada pelo número de pessoas que saíram. A região metropolitana de São Paulo tem aproximadamente 45% de sua população adulta vinda de outros estados ou países. Essa proporção somente é superada pelo Distrito Federal, de acordo com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). A origem dos migrantes é variada, mas os habitantes do Nordeste lideram o fluxo. Os deslocamentos populacionais no Brasil entre os anos 1930 e 1970 foram determinados pela transformação social e econômica do país, marcada pelo êxodo rural, as migrações para as fronteiras agrícolas e o crescimento explosivo das metrópoles. A intensa migração dos anos 1970, quando 3,2 milhões de pessoas chegaram à região metropolitana de São Paulo, foi seguida de uma desaceleração na década de 1980 (2,6 milhões), mas de um crescimento semelhante nos anos 1990.

Pau de arara: por muito tempo foi o principal meio de transporte dos migrantes que saíam do Nordeste em direção à região Sudeste | Desenho: Percy Lau. Fonte: IBGE

 

Nos anos 1960 e 1970, o crescimento da migração foi impulsionado pela demanda por mão de obra em uma cidade em acelerado processo de expansão. As preocupações com esse movimento migratório começaram a aparecer na segunda metade dos anos 1970, devido ao crescimento desenfreado da população e aos baixos salários. Uma das saídas encontradas pelos migrantes nordestinos, por exemplo, era o comércio de retalhos, que consistia em adquirir os tecidos rejeitados pelos comerciantes do Brás.

 

ATUALMENTE

A diminuição do fluxo migratório para São Paulo na última década foi decisiva para que o Estado registrasse o menor crescimento populacional dos últimos 70 anos.  Segundo resultados demográficos divulgados pela Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), com base no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística: entre 2000 e 2010, a metrópole recebeu 47.946 migrantes por ano, valor que corresponde a um terço do total registrado na década anterior.

Durante esse período, segundo o IBGE, ocorreu um movimento generalizado de retorno dos migrantes. A redução das disparidades regionais, possibilitada pelas políticas de incentivo ao investimento industrial no Nordeste, além de medidas para aumentar a renda da população mais pobre, como o Bolsa Família e o reajuste do salário mínimo, estimulou muitos nordestinos a tomarem o caminho de volta. Neste período, a região Nordeste capitaneou o refluxo. O fenômeno se deu principalmente nas duas cidades que mais recebem migrantes, São Paulo e Rio de Janeiro.

Considerando apenas o estado de São Paulo, entre 2004 e 2009, o número de pessoas que saíram superou em 24 mil os que chegaram. Em 2004, a migração de retorno era representada predominantemente por nordestinos, com escolaridade média de 7,1 anos, afugentados por uma taxa de desemprego de 18,3%. Na época, um terço dos migrantes trabalhavam na construção civil ou em serviços domésticos, e ganhavam até um salário mínimo (em torno de R$ 260 na época).

Referente ao retorno dos migrantes, o coordenador do curso de Geografia da PUC-SP, Gustavo Coelho, explica: “Isso ocorre porque os processos que levaram ao estímulo dos imigrantes desapareceram”. Segundo ele, as atividades profissionais em São Paulo exigem, hoje, um outro perfil de trabalhador especializado, que, na maioria das vezes, não corresponde ao das populações residentes no interior do país. Coelho acrescenta os efeitos do envelhecimento dos migrantes que desembarcaram nos anos 1950. De acordo com o professor, “muitos deles e seus filhos hoje perceberam que, dada a péssima condição da qualidade de vida na metrópole paulistana, é melhor viver o resto de suas vidas em sua terra natal”.

 

O MERCADO INFORMAL

O doutor em demografia Luís Felipe Aires Magalhães, pesquisador do Observatório das Migrações (Unicamp) e do Observatório das Metrópoles (PUC-SP), nota a deterioração das condições de trabalho dos migrantes. “Vemos um mercado de trabalho mais flexibilizado, mais precarizado e mais terceirizado, sem as garantias que a CLT previa na época industrial”, diz Magalhães.

Com o enfraquecimento da indústria e o crescimento do setor de serviços, a inserção de nordestinos no mercado informal foi ampliada. Dentre as funções que ocupam atualmente, estão a de vigias, balconistas, vendedores e faxineiros. Além disso, há outra categoria de trabalho que se expandiu: o trabalhador por conta própria, ou autônomo, como camelôs e outros profissionais do setor de serviços. Hoje, o comércio de retalhos ainda acontece e consiste na compra de sobras das confecções, sendo grande parte oriunda do comércio coreano e das indústrias têxteis. Estruturado em uma rede de vendas conectada pelo Brás, este mercado abrange cada vez mais regiões, chegando a Pernambuco, Rio Grande do Sul e Minas Gerais.  

Trabalho informal | Fonte: Esquerda Diário

A desigualdade da oferta de emprego, o nível de salário e as taxas de crescimento econômico estão entre os fatores que explicam o deslocamento populacional. Na procura de melhores oportunidades, percebe-se o fluxo de pessoas em busca de trabalho, educação e salário. A estudante de Publicidade da PUC SP Aianne Schramm, se mudou para São Paulo com o objetivo de ter, quando se formar, melhores oportunidades de trabalho. Quando questionada sobre as maiores diferenças entre a Bahia e SP, destaca: “Aqui parece que as coisas andam, funcionam de verdade, seja na questão do transporte público interligado e de boa qualidade, se comparado a Salvador, seja nas variadas ofertas do que você procura”.

Com muito receio, a manicure Leoneide Barbosa, de 39 anos, veio para São Paulo em 1996, em busca de uma de uma vida melhor: “Eu não queria vir para São Paulo, mas vim por causa de trabalho, porque lá no Nordeste é realmente escasso”, conta, lembrando-se dos relatos animadores que ouvia daqueles que haviam migrado. “A gente via que quem ia para São Paulo conseguia comprar roupas, sapatos, ajudar os pais. Dependendo, a pessoa comprava até casa. Então a gente enxergava a cidade como a oportunidade de nossas vidas”, afirma Barbosa, para quem “as portas estão sempre abertas” quando se é honesto e trabalhador.

O preço dos serviços e dos produtos também pode ter influência na decisão de se mudar, explica Barbosa: “Aqui os valores são acessíveis para nós. Quando as pessoas compram um chinelo lá no Nordeste, usam até quebrar porque, se for comprar outro, é muito caro, é o preço de um sapato aqui.”

O trajeto de ônibus e caminhão é comum para quem vem de outras regiões. As viagens muitas vezes são feitas em condições quase desumanas, com poucas paradas, sem boas condições para higiene e alimentação. Foi o que ocorreu com Américo Nascimento, natural de Pernambuco, que viajou sete dias para chegar em Ferraz de Vasconcelos, sua cidade há 56 anos. A busca por uma vida melhor o trouxe para a metrópole paulista, onde conseguiu sustentar sua família, apesar de lamentar a distância de sua terra natal, que impossibilitou sua presença em momentos de perda, como aconteceu há um ano quando sua mãe faleceu.

Barbosa fala das dificuldades que sofreu em seu trajeto até São Paulo, mas diz não se arrepende da escolha: “O caminho que a gente fez não é nada fácil. Tivemos que abandonar tudo, inclusive a família. Nós só tínhamos uma casa lá, que nem móveis tinha. Então tive que ficar três dias dentro de um ônibus, grávida de seis meses do meu filho Vítor. Mas foi a minha decisão mais acertada. No começo eu tinha pretensão de ficar só cinco anos aqui e voltar para lá. Eu pensava assim: com cinco anos eu vou conseguir dinheiro para comprar uma casa e eu volto. Mas já se passaram 20 anos e eu não tenho mais essa pretensão. Jamais.”

EDUCAÇÃO

De acordo com o Ipea, nos últimos anos o migrante nordestino registrou aumento de renda e escolaridade. Dessa forma, o instituto afirma que “a ideia de que a migração significa pobreza é parcial e só se aplica de forma relativa e em casos precisos”.

Em contrapartida, a maioria da população de rua de São Paulo é formada por migrantes. O censo divulgado pela Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS) da Prefeitura mostra que 73,4% do total das pessoas acolhidas nos centros da Prefeitura são migrantes. A coordenadora do Observatório de Políticas Sociais (Cops), Carolina Lanfranchi, afirma que muitas pessoas vêm para a capital em busca de emprego e assistência, mas terminam morando nas ruas. “Muitas fazem trabalho temporário, em construção civil, e quando [o trabalho] acaba não conseguem retornar”, diz Lanfranchi, apontando a situação de rua como consequência deste processo.  

Com os retrocessos do governo Temer, num momento extremamente frágil da democracia e às vésperas das eleições, o Brasil se vê num impasse e numa situação duvidosa em relação aos limites territoriais. A população de migrantes, um dos alicerces da economia paulistana, se vê abandonada neste momento de tensão política. Durante muito tempo, os migrantes foram estereotipados e marginalizados. É preciso garantir seus direitos e realizar políticas sociais que assegurem condições dignas.

 

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