O whitewashing de Hollywood posto em xeque

A hashtag #OscarSoWhite (#OscarTãoBranco) se tornou histórica ao expor a falta de diversidade racial em Hollywood e na Academia. No ano de 2015, nenhuma pessoa de cor foi nomeada para algum Oscar. Em pelo menos 50 das 90 cerimônias, as pessoas de cor foram deixadas de fora.

Por Roberta Domingues

 

A hashtag #OscarSoWhite (#OscarTãoBranco) se tornou histórica ao expor a falta de diversidade racial em Hollywood e na Academia. No ano de 2015, nenhuma pessoa de cor foi nomeada para algum Oscar. Mas não é a primeira vez que isso acontece. Em pelo menos 50 das 90 cerimônias, as pessoas de cor foram deixadas de fora. Entre 1927 e 2012, 99% das mulheres que ganharam o prêmio de Melhor Atriz foram brancas. Entre os homens que ganharam Melhor Ator, o número é de 91%. O que acontece é que o Oscar só pode premiar quem atua nos filmes. Ou seja: por mais whitewashed que a Premiação seja, o problema reside mesmo é no elenco dos blockbusters que chegam aos cinemas.

 

Imagem: Youtube @FunkTheNews

 

A Hollywood branca

Whitewashing é o termo que explica a escolha de atores ou atrizes brancos para papéis que deveriam pertencer a atores de outras etnias, ou a decisão de fazer o personagem interpretado por esse ator branco o principal em uma história que se passa em outro país ou outra cultura. Whitewashing pode ser traduzido como “esbranquiçamento” (ou, literalmente, “lavagem esbranquiçada”). Lester Andrist, criador e colaborador do blog The Sociological Cinema — site que busca ensinar sociologia por meio de vídeos e da pop culture —, explica que existem quatro formas de whitewashing.

 

  1. Em filmes baseados em eventos históricos, em que atores brancos fazem personagens que são originalmente de cor. Por exemplo, um filme que fala sobre a história do Egito Antigo cujos personagens são pessoas brancas. Essa forma de whitewashing pode ser vista no filme “Argo”, que conta a história de como a CIA evacuou seis civis americanos durante uma crise de reféns em 1981. Ben Affleck interpreta Tony Mendez, o agente latino da CIA que comandou a operação.

Na esquerda, o agente Tony Mendez; na direita, Ben Affleck, o ator que o representou em “Argo”. Imagens: divulgação/@elixicana

 

Uma variação dessa forma é na adaptação da literatura de ficção, onde um personagem é descrito originalmente como sendo uma pessoa de cor e na adaptação é inexplicavelmente transformada em branca. Alguns exemplos marcantes são Aang, no filme “O Último Mestre do Ar”, que é um personagem asiático na história original, mas foi interpretado por um ator branco; Light Yagami, do mangá Death Note, que se passa no Japão, sendo whitewashed na sua versão live-action feita pela Netflix; Maria Hill, a assistente latina de Nick Fury, que foi interpretada pela atriz branca canadense Cobie Smulders nos filmes da Marvel; e o caso que foi polêmica, da índia nativa-americana Tiger Lily na história original de Peter Pan sendo interpretada por uma atriz branca na adaptação live-action, “Pan”.

 

Maria Hill, personagem latina da Marvel, foi representada por uma atriz branca. Imagens: reprodução

 

Tiger Lily, a menina indígena representada por uma atriz branca no live-action de Peter Pan. Imagens: reprodução.

 

  1. Em filmes que dizem ser baseados em fatos reais. Alguns eventos do filme reconfiguram a história para que um personagem interpretado por um ator branco seja o principal, forçando a audiência a presenciar a história do ponto de vista “branco”. Um exemplo é o filme “Dança Com Lobos”, que retrata a expansão para o oeste americano e, consequentemente, o genocídio do povo indígena nativo. O filme acaba mostrando o ponto de vista de uma pessoa branca sobre uma tragédia envolvendo pessoas de cor, ao invés de contar a história pela boca dessas pessoas que sofreram.

 

  1. Em filme em que a maioria do elenco é composto de pessoas de cor, mas os personagens principais, mais importantes e mais bem caracterizados e escritos são brancos. “Rambo”, por exemplo, é uma história que se passa no Vietnã, tem como maioria dos personagens vietnamitas, mas o personagem principal é um homem branco interpretado por Sylvester Stallone.

 

Produtores e diretores sempre dão desculpas para justificarem a escolha de certos atores ou atrizes brancos para personagens não-brancos e para a falta de diversidade racial em seus filmes. Essas desculpas vão desde “esse é um elenco bem diverso porque temos personagens de outras etnias” até “escolhemos a melhor pessoa disponível para o trabalho”. Porém, não é certo dizer que um filme é realmente diverso etnicamente se essa diversidade está somente em personagens secundários e de menor importância. Representatividade inclui colocar atores de cor em personagens com grande participação e essenciais na história; não fazê-lo só ressalta ainda mais que pessoas não-brancas são somente personagens secundários, dispensáveis, extras. Se a “melhor pessoa” para representar uma pessoa de cor for uma pessoa branca, quer dizer que os produtores decidiram que não precisavam se importar com um elenco racialmente sensível. O nome e a imagem pública de uma pessoa parecem ter bastante influência no fato de ela ser ou não a “melhor” para tal papel.

Como exemplo de uma produção que foi sensivelmente racial na escolha de seus atores e atrizes, temos “Moana”. O filme da Disney tem personagens polinésios, e os produtores trataram de buscar dubladores dessas origens para dar voz aos personagens. Com isso, foi muito reconhecido e elogiado, além de ter ganhado uma legião de fãs e uma enorme quantidade de dinheiro.

A questão da representação racial nos filmes tomou tamanhas proporções que a comunidade negra celebrou com fervor o lançamento de “Pantera Negra”, um dos únicos super-heróis negros da Marvel. Além da representação negra, Wakanda — o país fictício onde a história se passa — é um país africano altamente tecnológico. “Pantera Negra” é um exemplo de como há oportunidade para representar etnias e povos historicamente reprimidos e marginais — os negros e os africanos — de forma racialmente correta e ainda ganhar dinheiro em cima disso, já que “Pantera Negra” foi um dos filmes da Marvel que mais faturou na história do estúdio (atualmente em terceiro lugar na lista, com R$1,333 bilhão em 01/05/2018).

 

 

O whitewashing no k-pop

A música sul-coreana tem tomado as paradas internacionais e feito milhões de fãs pelo mundo com seus ídolos carismáticos e talentosos. Infelizmente, assim como muitos indivíduos não-brancos, suas fotos são editadas com a finalidade de deixar o tom de suas peles mais branco.

 

Namjoon, da boyband coreana BTS. Foto: divulgação

 

Desde sempre a ideia de que branco é bonito é passada para as comunidades negras, latinas, asiáticas etc. As cores de pele mais escuras são associadas à impureza e à sujeira, além do clássico pensamento de que o tom de pele e as estruturas faciais europeias são os únicos aceitáveis e esteticamente bonitos. É comum que as pessoas dessas etnias façam cirurgias plásticas para modificar características típicas e usem cremes clareadores a fim de clarear e esbranquiçar a pele. Na Coreia do Sul, a cirurgia para criar uma pálpebra acentuada é uma das mais realizadas pela população — 1 em cada 72 pessoas já operou as pálpebras. Desse modo, o olho fica mais arredondado e lembra o padrão europeu.

Os ídolos do pop coreano (k-pop) são vítimas frequentes do clareamento de pele virtual. Em diversas fotos, os próprio fãs editam e tiram o tom de pele original, deixando-os mais brancos. Um dos sinais que uma foto foi whitewashed é o brilho não natural vindo da pessoa, deixando-as parecidas com vampiros. Além disso, as características faciais desaparecem quase completamente, eliminando as linhas que definem o nariz e as bochechas.

Com o alcance global que o k-pop tem, os fãs podem ser induzidos a acreditar que a pele branca e clara é a única realmente bonita e, assim, tornarem-se de certo modo internamente racistas, além de quererem clarear a própria pele para sentirem-se bem consigo mesmo. O perfil no twitter @nowhitewashkpop posta frequentemente fotos originais comparando-as com as editadas, a fim de denunciar a prática do whitewashing.

 

A cantora CL também teve o tom de sua pele alterado digitalmente. Foto: instagram

O cantor Kai e a cantora Yoona na capa da revista Elle coreana, fevereiro de 2016, versão editada e versão original. Foto: @Elle

 

Hollywood desde sempre priorizou atores brancos para todos os papéis, inclusive aqueles que não os cabiam — chegando até a fazer blackface para representarem pessoas negras em filmes mais antigos. Com a popularização da internet e da televisão, mas infelizmente presente desde a colonização europeia pelo mundo no século XV, o padrão europeu de beleza é o único aceitável. Porém, também com a ajuda da internet, esse padrão tem começado a ser quebrado. A hashtag #OscarSoWhite é só o começo da denúncia do esbranquiçamento da indústria do entretenimento

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