Entenda como um microempresário faliu com um negócio inovador

Como um microempresário bem-sucedido no aluguel de vans perdeu dinheiro ao fazer uma aposta equivocada no interior de São Paulo.

Por Caroline Hikari e Letícia Rodrigues

 

Valter Wanderley tem 52 anos, é natural de Apiaí, interior de São Paulo, e trabalha desde 1989 com transporte, sendo motorista de van. Ganhava um valor razoável, segundo ele, que lhe permitia viver sem dívidas, porém trabalhava muitas horas para manter esse padrão e sempre teve a ambição de comprar um automóvel para iniciar sua frota.

Em 1992 abriu seu próprio negócio, a Valter Vans. Conseguiu o financiamento pelo banco e adquiriu quatro vans. O primeiro contrato foi com a prefeitura de Apiaí, que alugou os veículos para transporte escolar. Nesse período, Valter prestou serviço para outras prefeituras do Alto Vale do Ribeira. Somente em 1999, sete anos depois do financiamento, conseguiu quitar o financiamento e começou a lucrar com o aluguel dos automóveis. Com isso, aumentou sua frota, comprando mais duas vans.

Com 24 anos vivendo e lucrando com o aluguel de vans, Valter conseguiu poupar para investir em uma empresa fixa de grande nome. Seria como uma aposentadoria, visto que ele viajava muito com a empresa de vans. Pensou em um negócio que não existisse em Apiaí, pesquisou e decidiu investir em uma franquia da Cacau Show.

“Acreditei na ideia de abrir algo novo em Apiaí, queria garantir sossego trabalhando na minha cidade, era um lugar diferente para comprar presentes e desfrutar de bons doces, com a qualidade e fama que a marca carrega”, conta, frisando que em 2016, quando inaugurou a franquia, a cidade não dispunha de nenhuma loja de chocolates.

Valter acreditou na força da marca para deslanchar o empreendimento. Vendeu duas vans e juntou o dinheiro ao que havia economizado. Para abrir a loja da Cacau Show, o empresário investiu 150 mil reais.

A loja funcionava de segunda a sábado e tinha três funcionárias. O prazo médio de retorno do valor investido era de 18 a 24 meses, portanto ele continuava se sustentando com a Valter Vans. A média de lucro das lojas Cacau Show, divulgada pela própria marca, é de 20 mil reais por mês e alcança números maiores em datas comemorativas, como a Páscoa. Entretanto, a loja de Valter conseguiu os maiores rendimentos nas duas últimas Páscoas – 2017 e 2018 –  e a média dessas duas ocasiões foi de 17 mil reais. Nos outros meses, o rendimento ficava na faixa de 10 mil reais, muito abaixo da média comum das mais de 2 mil franquias da Cacau Show espalhadas em 26 estados brasileiros.

Durou 20 meses até as portas serem fechadas. O esperado para recuperar o valor investido era 24 meses, mas Valter resolveu encerrar o negócio a partir do momento em que se tornou necessário retirar dinheiro de sua empresa para manter os funcionários da Cacau Show. “Se continuasse, poderia até entrar judicialmente com processo de falência, porém congelar as transações financeiras da empresa só iria adiar o inevitável, a loja não tinha espaço para sucesso econômico em Apiaí, nem mesmo para se manter, a economia ainda gira em torno de coisas básicas”, diz.

Conversando com comerciantes que prosperam há mais de 20 anos em Apiaí, nota-se que as empresas que se estabelecem com sucesso tendem a ser supermercados, distribuidores de gás de cozinha e água, postos de gasolina e fornecedores de produtos para agropecuária. A cidade possui 25 mil habitantes e a economia gira entre o agronegócio e a única fábrica da cidade. O prefeito atual, Luciano Polaczek, acredita que empresas como a Cacau Show não tenham grande sucesso na cidade porque a maioria da população é rural e só vem para o centro urbano para fazer compra em supermercados e casa de insumos agrícolas.

Atualmente Valter conta com oito vans alugadas para três prefeituras diferentes, além de duas vans contratadas por grupos de alunos que viajam de Apiaí até uma faculdade em Itapetininga. O microempreendedor não pretende investir novamente em uma loja sem ter um retorno financeiro em um prazo mais rápido.

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