Por Aquiles Rodrigues e Maria Tereza

Foto: Reprodução/Internet


Quem vê os olhos de Genivaldo Gomes da Silva pela primeira vez, enxerga um homem trabalhador, construído como um muro resistente pelos anos de esforço. Com vasta experiência na área, o mestre de obras é exemplo na profissão que tem enfrentado difíceis condições e que forma seus profissionais a partir da prática e do amadurecimento.

“Comecei a trabalhar de pedreiro ainda na Bahia. Daí, vim pra São Paulo e continuei”, ele conta, revivendo uma história que muito se assemelha à de seus companheiros de profissão. Grande parte dos operários da construção civil que trabalham na capital vieram de outras cidades do Brasil à procura de oportunidades. Quase todos terminaram seus estudos no ensino médio e seguiram no ofício aprendendo através da prática. Ser pedreiro é como ser um artesão: as técnicas são passadas de mestre para aprendiz e a progressão se baseia muito mais na experiência do que no currículo.

Tendo se mudado para São Paulo ainda nos anos 80, Genivaldo acumula mais de 20 anos na profissão. “Eu trabalhei mais em construtoras, em obras de pequeno, médio e grande porte”, ele fala ao narrar sua trajetória como pedreiro “fichado” – forma comum de se referir à carteira de trabalho. Após acumular experiência e obter a gradual aprovação de seus superiores, ele subiu até o grau de mestre de obras. O trabalho com carteira assinada é a meta para esses operários, mas o setor tem enfrentado grandes baixas que forçaram a maioria deles a procurar alternativas.

A construção civil passou por um verdadeiro boom durante os anos 2000, registrando um aumento de mais de 500% nos empréstimos para investimentos no setor. Na época, tornou-se concreta a esperança de melhores condições de vida para os trabalhadores das regiões Norte e Nordeste do país, mas, com o tempo e a crise econômica, ficou difícil para os profissionais da área se manterem no mercado. O Produto Interno Bruto (PIB) do setor chega este ano à sua 27° queda consecutiva. Segundo uma pesquisa realizada pelo Sindicato Nacional da Indústria da Construção Pesada (Sinicon), o PIB do setor caiu 6,6% no primeiro semestre de 2016. De acordo com o IBGE, em relação ao mesmo período em 2017, foram cortadas 863 mil vagas. No final de 2013, havia 8,1 milhões de vagas. Hoje, o setor tem 6,7 milhões de trabalhadores.

Tornaram-se frequentes as aglomerações de indivíduos desempregados num local do centro de São Paulo. Como conta uma reportagem publicada em agosto de 2017 no site da BBC Brasil, a esquina das ruas Barão de Itapetininga e Dom José de Barros estão quase sempre lotadas pela manhã. Dezenas de profissionais inativos da construção civil se reúnem à espera de empregadores que já conhecem o ponto de encontro. Nesse cenário, cercado pela frustração dos humildes pedreiros, ficam claros os efeitos da crise no setor.

“A queda foi grande. Inclusive fiquei seis meses trabalhando fora de empresa, fazendo bico”, conta Genivaldo. Para ele e muitos outros, o trabalho por conta própria – os chamados “bicos” – foi a solução para se manter nos tempos de dificuldade. Alguns, porém, acabam tendo que trabalhar como profissionais autônomos. É o caso de José Carlos da Silva, de 57 anos. O pedreiro, baiano como Genivaldo, trabalhou por conta própria por mais de 25 anos antes de viver as condições de fichado por um período curto. Tendo se mudado para São Paulo aos 17 anos, ele também ganhou experiência no dia a dia das obras. José conta que, como autônomo, o serviço depende da demanda e da clientela construída com o tempo. Ele até preferiria trabalhar com carteira assinada, mas não é mais aceito em função de problemas cardíacos. “É o jeito, não tem como correr. Se ficar o bicho pega, se correr o bicho come”, ele enfatiza ao usar o ditado popular.

Apesar das complicações advindas de um infarto e uma cirurgia no coração, José permanece trabalhando por conta própria. Devido às condições desfavoráveis no setor, fica notável entre os pedreiros a força de vontade para seguir trabalhando. Grande parte deles tem famílias de até três filhos para sustentar. “Sabemos que isso é normal de qualquer profissão. Algumas coisas não dão certo, mas eu tento dar a volta por cima. A gente levanta a cabeça e segue”, afirma Genivaldo, com uma voz humilde e gentil, quase contrastando com a dureza de sua ocupação.

Na construção civil, encontram-se operários humildes e honestos. A força daqueles que tiveram uma vida dura desde o início se reflete na maneira com a qual lidam com as dificuldades. Podem surgir problemas de saúde no caminho, vícios e outros contratempos, mas os pedreiros estão sempre dispostos a trabalhar. O setor permanece no limbo da crise, mas a esperança de melhoras é sustentada pelos seus trabalhadores.

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