Trabalho, arte e música

Conheça alguns dos artistas que embalam as noites paulistanas

Por Ariane Freire e Júlia Cabral

São Paulo, terra da garoa, como muitos conhecem. Noite de uma terça-feira gelada, marcando dezoito graus no termômetro e sensação térmica abaixo dos quinze. Caminhando pela avenida Paulista, o movimento é menor que o normal em outros dias. Poucas pessoas na rua. Nos restaurantes, jantar romântico para alguns casais. Nos bares, grupos de amigos se reúnem para mais uma rodada de cerveja.

Em uma esquina próxima a um shopping, um museu e uma faculdade, o jazz de rua atrai alguns olhares. O som do saxofone, acompanhado por bateria e guitarra, embala a noite com um clima aconchegante. Algumas pessoas param para assistir, outras caminham sem tempo para uma pausa, mas apreciam de relance com um sorriso discreto. Quem fica, assiste até o final da música, dançando, filmando e deixando-se levar pelo ritmo.

Três músicos com diferentes trajetórias trazem para o público a banda Théo com Sétima.

Na bateria, Fábio Xucuru, um pernambucano que saiu de Recife para uma turnê musical na Europa, onde passou cinco anos e depois voltou para o Brasil. Estuda bateria todos os dias e afirma que, para ele, tocar na rua é o que há de melhor.

Na guitarra, Jessé Oliveira, que conta que tudo começou em Rondônia, quando conheceu um outro integrante da banda tocando forró. A partir daí eles curtiram o som um do outro, começaram a conversar e o grupo foi se formando – até parar na Paulista.

No saxofone, Danúbio Samboja, o músico que antes da formação dessa banda já tocava pelas ruas de São Paulo e, em meados de 2015, decidiu reunir alguns amigos para criar a Théo com Sétima.

A banda toca jazz, um pouco de blues e também pop. Os músicos contam que, além de tocar para eles, também buscam agradar quem está passando pelas ruas, fazer as pessoas reconhecerem um pouco aquele som, pararem e cantarem alguma coisa juntos.

“É nosso trabalho principal, a gente vive disso e veio para a rua porque tem esse lance de contato com a galera. A gente não vem só pela grana ou só pela música, é uma mistura dos dois”, afirma Danúbio.

Eles também ressaltam que, para trabalhar assim, tem que estar pronto para tudo. É tocar na rua, mas também nos eventos, nos bares, na igreja, dar aula de instrumento e estar sempre circulando. “É diferente de um trabalho em que você vai para um escritório, faz sua atividade e pronto, tá tudo resolvido”, explica

Mais do que uma apresentação, muitas das bandas que tocam nos espaços públicos destacam a importância desse contato direto com a plateia. A energia, a emoção e o reconhecimento daqueles que param por alguns momentos valorizam o trabalho desses artistas, que ocupam cada vez mais as ruas de São Paulo. “A banda é tudo pra mim, eu larguei tudo pra tocar na rua e fiz tudo pra estar aqui agora”, conta o saxofonista.

Em 2011, o Decreto Municipal 52.504 já garantia o direito à liberdade de expressão artística nos espaços da cidade. Mas foi em 2013 que essas apresentações foram devidamente reconhecidas como parte cultural e turística do município. Nesse ano, foi aprovada em São Paulo a Lei dos Artistas de Rua, regulamentando atividades como a música, o teatro, a dança, o malabarismo, a poesia e outras manifestações, para que os artistas não sejam hostilizados, presos ou expulsos do local em que se apresentam.

Com mais garantias e incentivos culturais, o número de artistas tem crescido nos últimos anos e, além de estarem pelas ruas, alguns deles também estão mapeados em sites como o artistasnarua.com.br, que a partir de informações colaborativas organiza horários, endereços, notícias e agendas dos grupos registrados.

Segundo dados do IBGE, o município de São Paulo tem mais de 12 milhões de habitantes e, embora a rua seja um espaço de constante invisibilidade para muitas pessoas, para outros é justamente o contrário, além de proporcionar uma experiência única que vai além dos grandes palcos, como afirma o guitarrista Jessé Oliveira:

“Tocar na rua hoje, na banda Théo com Sétima, pra mim é oportunidade. Abre muitas portas e traz visibilidade também. Ter a chance de tocar com os amigos é algo sem igual, sem comparação.”

Aliane

Caminhando na mesma calçada, logo ouvimos um canto lírico mais adiante. Seguimos o som e encontramos a cantora Aliane Cristina. A voz da mezzo soprano preenche todo espaço à frente do centro comercial e estende-se até a esquina seguinte.

Fugindo do comum, a jovem de 29 anos começou a estudar música quando ainda era criança e desde 2015 dedica-se, nas ruas, a cantar óperas carregadas de emoção, que dão voz e melodia aos amores da mulher em canções como “Mon coeur s’ouvre à ta voix”, da ópera “Sansão e Dalila”, do compositor francês Camille-Saint Saëns (1835-1921).

Aliane explica que fez essa escolha por seu timbre ser exatamente esse, com “extensão da metade do agudo a uma parte do mais grave”, e também por acreditar que vivemos em um tempo que pede pela diversidade.

“A gente tem que botar na cabeça alguma coisa. Que é o que quer levar para frente, o que te mantém viva, teu objetivo. Isso é o que mantém com gás,” diz ela, enfrentando o frio com blusas de lã, cachecol e gorro.

Sem conter a emoção, Aliane lembra como começou a se apresentar nas ruas de São Paulo. “Da primeira vez que eu cantei, me emocionei bastante. Porque foi ali no centro, com muitos prédios em volta, e a voz reverberou e veio para cima de mim. Então pensei sobre a beleza daquilo e senti a liberdade. As pessoas falam que me ouvem do outro lado da esquina. É meu coração que fala muito por mim. Chega uma hora em que ele se enche e eu deixo ele ir. Porque eu escuto a voz, mas passo emoção do que sinto no momento. É isso que quero expressar.”

Aliane, que já fez apresentações e estudos sobre ópera na Itália e em Portugal, conta ter escolhido a Paulista porque muitas pessoas que percorrem a avenida gostam de música clássica, ao contrário do que ocorre em outros lugares em que já se apresentou. “Eu fui cantar no Parque Dom Pedro, mas lá fui rechaçada. As pessoas me disseram para não ficar triste, pois não era o ambiente certo e me indicaram cantar em outro lugar, porque quem frequentava ali não gostava, nem entendia”.

“Eu estava misturando meu som com os caras ali do outro lado. Não sei nem se eles gostaram, mas eles estavam na bateria e eu estava cantando junto. A gente tem que botar as coisas pra cima! ”, conta, sorridente, antes de continuar falando de sua grande paixão. “Eu gosto da energia, que às vezes é leve demais e outras parece que vai explodir a qualquer momento. Depois que você se acalma, isso te faz realizada como ser humano. Cada pessoa que passa transmite uma energia assim”.

Para a jovem, a música é uma coisa primordial. “Eu tenho muito carinho, porque eu acho que a música expressa o amor. E o amor é tudo! Quando fala de amor, então…”.

Com ar apaixonado, Aliane relata que o amor a acompanha desde criança, quando “cantava as músicas todas como ópera e impostava canto lírico. Foi uma coisa que sempre fez muito bem”. A mãe sempre a incentivou, fazendo-a cantar para as visitas em casa.

A mezzo conta que, independente da dificuldade de trabalhar na rua, quer continuar a transmitir sua arte. “Se eu não fizer pelos meus sentimentos, vai ser difícil. Eu que tenho que fazer por mim”.

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