Por Carolina Giorgi, Maria Beatriz Santos e Nathalia Alcoba

O Brasil terminou o mês de abril com 90,7 milhões de pessoas trabalhando, seja com carteira assinada, seja na informalidade, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Infelizmente, contudo, entre as diversas ocupações existentes, algumas não têm grande visibilidade para a sociedade.

De maneira geral, são cargos que não exigem um conhecimento específico e são  destinados a pessoas com baixa escolaridade, que, dessa forma, recebem uma remuneração menor do que a média dos trabalhadores. Qualificados muitas vezes como serviços “marginalizados”, são atividades – difíceis, como qualquer outra – que não recebem reconhecimento. Os exemplos de profissões que se encontram na situação descrita acima são: porteiros, faxineiras, vigilantes, “motoboys”, coveiros, entre outros.

Uma das profissões mais sujeitas à invisibilização é a de faxineiro. É uma função predominantemente feminina: segundo a Relação Anual de Informações Sociais (Rais), do Ministério do Trabalho,  as mulheres representam mais de 70% da categoria. Trata-se, na maioria das vezes, de uma ocupação precária, uma vez que os trabalhadores são expostos diariamente a contaminações por conta de vírus e bactérias, além de intoxicações devido ao contato excessivo com produtos químicos. O serviço também provoca diversos problemas de saúde, como dores na coluna, alergias, lesão por esforço repetitivo (L.E.R), artrite, varizes, entre outros.

Entretanto, apesar das dificuldades físicas e do preconceito da sociedade, este trabalho é desempenhado com orgulho por muitos profissionais, que se sentem reconhecidos e felizes com a profissão.

Elisabete Aparecida Nunes, 53, nasceu no interior de São Paulo e mora na capital há 35 anos, no bairro Jardim Lucélia, no Grajaú. Trabalha como faxineira em um shopping na região do Paraíso e diz, com sorriso no rosto, que gosta do que faz.

Elisabete conta que já prestou serviços como terceirizada, mas, que apesar de a função ser a mesma, prefere ser contratada diretamente pela empresa para a qual trabalha. Segundo ela, o contato é diferente, além de a remuneração e os benefícios serem melhores.

Sua rotina é a mesma todos os dias, mas isso não é um problema, ela diz. Às 7h sai de casa e pega uma condução para chegar ao trabalho. Lá, permanece até as 17h e, depois disso, vai para a casa fazer sua segunda rodada, cuidando de seus filhos.

“O que eu mais gosto é o contato com os clientes, com vocês”, diz a uma das repórteres, que na ocasião trabalhava como lojista. “Me sinto ótima, gosto muito! Não tenho queixa de ninguém daqui. Gosto muito!”, exclama Bete, como gosta de ser chamada.

Apesar dos esforços físicos que realiza em suas tarefas diárias e da rotina cansativa, a faxineira aparenta felicidade e orgulho do cargo que ocupa, ressaltando a possibilidade de ajudar seus filhos. Questionada sobre o futuro, ela ri, olha para cima e diz que não pretende deixar de ser o que é, muito menos sair do seu emprego. “ Assim me sinto uma pessoa boa. Mas no futuro me vejo melhor porque tenho uma filha que trabalha em um emprego bom, então vejo um futuro bom para ela e me vejo em uma posição melhor também”, afirma.

Tatiane Vieira de Paula, 32, está trabalhando como faxineira pela primeira vez. Mãe de dois filhos, moradora de Barueri, região metropolitana de São Paulo, ela conta que, na empresa em que presta serviço, não se sente a “menina da faxina”. Pelo contrário,  sente que a tratam de igual para igual, o que faz com que se reconheça como uma funcionária, assim como todas as outras.

Sua rotina é pesada. Acorda cedo para conseguir deixar as filhas no transporte escolar e passa o dia percorrendo os andares da empresa, onde conhece e faz questão de falar com todos, e o contrário também acontece.

A faxineira diz que gosta muito do que faz, mas comenta que, para ela, o que importa é dar um bom futuro para suas filhas e seu marido. Com um brilho no olhar e uma expressão que mostra força de vontade, conta que está fazendo cursos à distância e que deseja melhorar de cargo, embora queira continuar trabalhando com pessoas, lidando com elas no dia a dia, o que aprendeu a gostar sendo faxineira.

Assim como Elisabete e Tatiane, com idades e histórias diferentes, muitas outras mulheres que trabalham com limpeza sentem orgulho do que fazem, lidam com os desafios diários de uma sociedade extremamente preconceituosa, que muitas vezes trata essas pessoas como se fossem inferiores.

Em uma outra empresa, na região de Barueri, que não quis se identificar, diz que os funcionários têm dias mais alegres quando a faxineira mais conhecida do andar chega, uma vez que ela trabalha cantando todos os tipos de música brasileira, e que sua voz encanta a todos, ecoando pelos corredores.

Por fim, Tatiane acrescenta: “É muito gratificante você estar em um local e as pessoas agradecerem, reconhecerem, pedirem com jeito e não como se fosse minha obrigação. Espero que em um futuro próximo todas as mulheres que trabalham com limpeza, seja onde for, se sintam assim também”.

 

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