As pedras fora das quatro linhas

São poucas as crianças que não sonham em se tornar jogador de futebol. O glamour e a fama que circundam a vida de um jogador de elite alimentam as esperanças de muitos pequenos atletas ao redor do globo. No Brasil, onde a realidade da maioria é bastante dolorida, se tornar um profissional do esporte é muitas vezes a saída vista por um jovem para melhorar a condição de sua família. No entanto, nem mesmo no “País do Futebol”, este caminho é  fácil de ser trilhado.

Entre peneiras, testes e indicações, são milhares de jovens que tentam a vida no esporte mais popular do mundo. Um caminho de difícil acesso para quem não conhece ninguém dentro do meio e, por isso, tenta chegar ao seu objetivo por outras vias. Alguns poucos iluminados conseguem chegar ao futebol profissional sem passar pelas categorias de base, trilhando suas trajetórias no futebol de várzea ou, de forma mais comum, iniciando sua vida atlética no futsal.

Apesar de não ser a modalidade mais midiática, o futebol de salão, popularmente conhecido como futsal, é a modalidade esportiva mais praticada em todo Brasil. Por se tratar de um jogo similar ao futebol, mas disputado em um espaço menor (a quadra), o esporte é bastante difundido nas escolas e nos pequenos clubes brasileiros. No entanto, mesmo sendo amplamente praticado por crianças e jovens, a modalidade enfrenta muitas dificuldades na profissionalização.

Sem fundos para o esporte

Atualmente, o principal campeonato do futebol de salão no Brasil é organizado pela Liga Nacional de Futsal. Esta entidade é formada por representantes dos próprios clubes e não é ligada à Confederação Brasileira de Futebol de Salão, oficialmente entidade máxima do esporte. A formação da Liga é uma tentativa de valorizar mais a modalidade, que, segundo críticos, não recebia a devida atenção da CBFS.

“A situação do futsal no Brasil ainda é muito delicada. Por se tratar de uma modalidade não tão reconhecida pelo grande público, precisamos nos atualizar sempre para mantermos um campeonato de bom nível. Hoje os clubes se mantêm graças aos seus patrocinadores, que nos possibilitam contratar e manter um elenco completo para a temporada. Como não recebemos apoio financeiro da confederação, cedemos o espaço dos nomes dos times para atrair as empresas”, afirma Edson Sesma, diretor da equipe de futsal do Corinthians/UNIP

A situação dos times brasileiros, portanto, atualmente é de dependência em relação aos patrocinadores. Dos 19 clubes que disputam a Liga Nacional, 13 dividem seus nomes com algum patrocinador, como o próprio Corinthians, que há x anos se apresenta nas quadras como Corinthians/UNIP. Ou seja, mesmo um clube grande e bem estruturado depende do patrocinador para conseguir financiar a manutenção de sua equipe.

Quando se trata de clubes de menor expressão, o desafio é a ainda maior. Com patrocínios menores, a rotina é muitas vezes marcada por dívidas e salários atrasados.  “A realidade é bastante doída. Vivi momentos em clubes que não conseguiam nem sequer pagar o almoço do time. Vi muitos jogadores que são o sustento de suas famílias terem o salário atrasado por falta de verba,” diz Márcio Lima, ex-técnico de futsal da AABB e atualmente professor de educação física no Colégio Equipe e na Escola da Vila, em São Paulo.

O sonho de sucesso

São muitos os jovens que entram para o futsal com sonho de um dia migrar para o futebol de campo. Apesar de ser um desafio enorme, diversos jogadores profissionais, inclusive da atual seleção, se formaram nas quadras do futebol de salão.  Exemplos como Marcelo, William e até mesmo Neymar inspiram os pequenos atletas de futsal a sonhar com o sucesso nos gramados.

Independente da classe social dos atletas, o grande sonho da maioria é atingir o sucesso para conseguir a independência financeira e prover suas famílias. No entanto, quando se vem de classes sociais mais baixas, a pressão para se atingir este objetivo costuma ser maior. Quando uma família de baixa renda observa talento nos pés de seus membros mais jovens, é comum estes virarem uma esperança de ascensão social. Mas todos sabem que a pressão muitas vezes atrapalha o psicológico de qualquer pessoa.

“Quando eu comecei a treinar futsal,  tinha só 12 anos. Minha família sempre me apoiou demais, mesmo que não tivéssemos a melhor condição financeira. Mas assim, mesmo com apoio, a gente sente a pressão de ‘dar certo’ para poder ajudar a família, né? No fundo, é por isso que a gente se arrisca na vida de atleta”, diz Douglas Nunes, pivô da seleção brasileira de futsal.

Foto: Rodrigo Coca/Agência Corinthians

Mesmo com muitos atletas do futebol de campo tendo sido criados no futebol de salão, os que conseguem atravessar a ponte entre as duas modalidades são uma esmagadora minoria. Os que não chegam ao campo, quando atingem a maioridade, têm de tomar uma difícil decisão: seguir a trajetória no futsal ou desistir do sonho e procurar uma nova carreira. Para os que seguem, são muitas as adversidades.

“Hoje, graça a Deus, tenho a oportunidade de defender um clube gigante no cenário mundial, que me paga em dia e me mantém tranquilo para tocar minha vida. Mas eu sei que esta não a situação que muitos colegas de profissão meus vivem. A vida de jogador de futsal não é fácil,” disse Guitta, goleiro ídolo da seleção brasileira e do Corinthians.

Foto: Rodrigo Coca/Agência Corinthians

Os salários dos atletas são sem dúvida o maior problema do futsal no Brasil. Entre falta de infraestrutura, equipamentos e apoio midiático, o pagamento no final do mês é o que mais tira o sono dos jogadores. Enquanto os mais conhecidos, que representam a seleção brasileira e desfrutam da estabilidade oferecida por clubes europeus, recebem bons salários (nada próximo à elite do futebol de campo), a realidade dos menos conhecidos ou somente mais jovens é outra. Existem muitos jogadores, principalmente em clubes menores, que jogam em troca de salários irrisórios ou em troca somente da oportunidade de aparecer no cenário nacional.

O futuro do salão

Mesmo com a dificuldade vivida por aqueles que se dedicam para que a realização dos eventos de futsal, o investimento público na modalidade é quase inexistente. Assim como outros esportes menos populares, como vôlei, basquete e atletismo, o futsal tem um investimento muito baixo, para não dizer nulo. A grande diferença é que não é uma modalidade olímpica, o que dificulta ainda mais o desenvolvimento do esporte. Como não é disputado na maior competição esportiva do mundo, as verbas estatais destinadas ao COB (Comitê Olímpico Brasileiro) não são repassadas para a CBFS.

Apesar das dificuldades, o futsal evolui aos poucos. Mesmo ainda sendo muito dependente de empresas terceiras, o modelo de liga adotado no Brasil vem mostrando bons resultados. A profissionalização do ambiente do futsal aumentou a credibilidade do campeonato e facilitou a atração de patrocinadores. Com a Liga Nacional sendo transmitida no SporTV, mesmo que parcialmente, a competição ganha maior notoriedade no cenário esportivo e atrai mais público para os jogos. A ampliação do público, por sua vez, aumenta número de patrocinadores, o que, consequentemente, se reverte em melhores condições para os atletas.

O Brasil ainda está muito atrás dos países europeus que têm a modalidade muito difundida, como a Espanha, mas as pequenas esperanças de que tempos melhores estão por vir. Quem sabe, aos poucos, os atletas da modalidade poderão ter a segurança de uma vida digna praticando o esporte.

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