O estádio se ergue pintado de suor e sangue

Operários são submetidos a péssimas condições de trabalho em construções de estádios na Rússia, para a Copa das Confederações e a Copa do Mundo

Operários na construção do estádio de São Petersburgo, na Rússia (FOTO: PAWEL KOPCZYNSKI/REUTERS)

Enquanto torcemos, suamos frio e gritamos ao assistir os passes de bola do nosso time do peito. Esquecemos que, meses antes, o estádio a que se dá mundialmente atenção, foi construído por operários ignorados que obtiveram “salários não pagos ou atrasos de salários de vários meses, trabalho a temperaturas inferiores a 25 graus negativos, sem proteção suficiente e a ausência de contratos legais”, segundo HRW(Human Rights Watch), no dia 15 de junho de 2017.

Operários que construíram estádios para a Rússia sediar a Copa das Confederações de 2017 e a Copa do Mundo de 2018 foram vítimas de “abusos trabalhistas e exploração”, afirma a HRW. A ONG visitou e documentou seis de sete obras de estádios com irregularidades. Além de tentar maiores informações com entrevistas aos trabalhadores, estes “indicaram que tinham medo de falar e que temiam represálias dos empregadores”, ou seja, a falta de direitos básicos era visível.

A organização Human Rights Watch denunciou a FIFA (Federação Internacional de Futebol) com um relatório de 34 páginas chamado “Cartão Vermelho: Exploração de Trabalhadores da Construção nas sedes da Copa do Mundo na Rússia”. Ou seja, ela não cumpriu o compromisso de monitorar as condições de trabalho nos estádios em construção ou reforma. O relatório contém 42 entrevistas de trabalhadores e estrangeiros nas obras dos estádios de Moscou, São Petersburgo, Kaliningrado, Rostov, Sochi e Ecaterimburgo.

Os turistas que chegarem para o Mundial verão que não são os únicos estrangeiros, uma vez que a Rússia é o segundo maior receptor de imigrantes do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Segundo o Comitê Organizador Local da Copa, 50% dos trabalhadores que construíram os estádios são imigrantes de países da Ásia Central, Bielorrússia e da Ucrânia.

Ainda, o presidente Vladimir Putin costuma dizer que os imigrantes são fundamentais para a economia russa. Em contrapartida, o presidente declarou, em abril deste ano, que “a fronteira russa deve permanecer bem protegida e, ao mesmo tempo, deve ser tão transparente quanto possível para aqueles que a atravessam legalmente e com boas intenções”. Além disso, de acordo com pesquisa do Instituto Levada, “67% dos russos veem os trabalhadores imigrantes como uma invasão de cidadãos de países pobres que deve ser freada”, ou seja, a marcante xenofobia é um empecilho para trabalhadores que tentam ganhar a vida.

Nas obras dos Jogos Olímpicos de Verão de 2016, realizado no Rio de Janeiro, Brasil, houve 11 mortos durante a construção. Segundo o relatório da HRW e informações cedidas pelo Sindicato Internacional de Trabalhadores da Construção e Madeira, 17 trabalhadores morreram durante as construções dos estádios russos.

“A Fifa ainda não demonstrou sua capacidade de efetivamente vigiar, impedir e remediar os problemas”, afirmou Jane Buchanan, diretora-adjunta da HRW. Desde 2015, a Fifa comprometeu-se a melhorar as proteções de direitos humanos em relação as Copas do Mundo. Em 2016, afirmou que estava organizando um sistema de monitoramento das condições de trabalho para a Copa deste ano. Em 2017, enviou uma carta à HRW, explicitando o funcionamento do sistema e que havia sido resolvido problemas revelados pelo monitoramento. No entanto não publicaram detalhes de abusos encontrados pelos inspetores, onde e quando ocorreram as violações que relatava na carta, ou quais ações foram tomadas pela Fifa e aos danos causado aos trabalhadores.

Segundo o Pacto Internacional sobre os Direitos Econômicos, Sociais e Culturais e a OIT (Organização Internacional do Trabalho), é reconhecido o “direito de todas as pessoas de gozar de condições de trabalho justas e favoráveis”, incluindo sempre o direito a saúde, salários e segurança do trabalho. Buchanan afirmou que “torcedores de futebol, jogadores, treinadores e outras pessoas têm o direito de saber quem está construindo os estádios da Copa do Mundo e em que condições. A transparência é essencial para a proteção adequada dos direitos humanos”.

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