A orquestra chamada futebol

A função do treinador no esporte mais popular

Por Lucas Batista 

As funções dos técnicos são incompreendidas por grande parte do público de futebol. Há quem coloque sobre esses profissionais toda a culpa do rendimento de um time e há aqueles que os acham quase irrelevantes para o resultado final. É com tal desconhecimento que as críticas ocorrem e as discussões tomam forma, seja numa mesa de bar, num estádio ou em uma casa antenada na partida. 

O técnico tem a responsabilidade de treinar os atletas nos fundamentos básicos de cada posição, assim como dar ao elenco um padrão tático, uma formação e um estilo de jogo. Portanto, se o forte de um time é a jogada aérea em cobranças de escanteio ou faltas, há, sim, o dedo do técnico. Se o time mantém bem a posse de bola até achar falhas na defesa adversária ou se sabe se defender e contra-atacar, há o dedo do técnico. Se estão sendo escalados os jogadores corretos, que se complementam com suas características, há o dedo do técnico. Obviamente, se tudo isso está dando errado há o dedo do técnico também. 

Dorival Júnior aplicando treino pelo São Paulo (http://www.lance.com.br/sao-paulo/primeiro-tatico-dorival-junior-escala-nem-cueva.html)

Em entrevista coletiva, o ex-técnico do São Paulo Dorival Júnior, afirmou que nem sempre o profissional responsável pela equipe tem influência no resultado. “O treinador tem culpa até que momento? O treinador não faz gols. O treinador leva a equipe até a intermediária e monta um sistema defensivo firme”, disse, após derrota de 1×0 no clássico contra o Santos pelo Campeonato Paulista deste ano. E é verdade: quem está em campo são os jogadores, portanto se o time se impõe, está bem estruturado mas ainda assim perde chances claras e/ou toma gols fáceis, a falha provavelmente é na qualidade técnica do elenco. Cabe ao treinador nesta situação aprimorar o fundamento em que o time está pecando com maior intensidade ou mudar a estratégia em campo, ao mesmo tempo em que mantém o grupo estável e unido. Caso falhe em uma dessas etapas, seu fracasso e sua consequente demissão são eminentes. Foi o que ocorreu com o próprio Dorival, que cedeu lugar ao uruguaio Diego Aguirre no comando tricolor. 

Zidane no comando do Real Madrid (https://www.record.pt/internacional/paises/espanha/detalhe/oficial-zidane-deixa-o-real-madrid.html)

Há situações, porém, que o técnico faz toda a diferença. Zinedine Zidane assumiu o Real Madrid em meio a uma temporada conturbada, em que o Real Madrid estava tendo péssimos resultados sob o comando de Rafa Benitez – o time merengue havia perdido de 4×0 em casa no clássico contra o Barcelona, num jogo em que o argentino Lionel Messi começou no banco e só entrou após o terceiro gol catalão devido a problemas com lesão. Após Zidane ter assumido o cargo, o Real Madrid ganhou três Champions Leagues consecutivas, o que nunca tinha acontecido na era moderna do torneio. O argelino naturalizado francês deixa o cargo este ano sem ter sido eliminado em mata-mata continental nenhuma vez, e sem ter mudado drasticamente a forma de jogar da equipe. O diferencial no período foi a gestão pessoal. Zinedine soube como incentivar e como moldar seus jogadores para situações difíceis, tanto é que em todo esse período o time madridista nunca apresentou um futebol de brilhar os olhos mas, ainda assim, obteve os resultados mais favoráveis possíveis. O Real simplesmente ganhava, errando pouco, sem convencer, mas ganhava. Mesmo quando saía atrás no placar, o clube não se desestabilizava e buscava a virada, sinal da força mental de Zidane e seus jogadores. 

Não é necessário nem ir à Europa para ver tais mudanças acontecerem. Em São Paulo, Fábio Carille deixou o Corinthians para treinar o Al-Wehda, da Arábia Saudita, e Osmar Loss assumiu o clube. O alvinegro paulista vinha de uma sequência de cinco jogos sem perder, com vitórias importantes como no clássico com o Palmeiras e a goleada de 7×2 contra o Deportivo Lara, que classificou o clube para as oitavas da Libertadores  Sob o comando de Loss, as coisas mudaram, e para pior. O técnico já preparou o time para sete jogos, e o clube paulista saiu derrotado quatro vezes, com dois empates e só uma vitória. É cedo para avaliar, mas o início é desanimador. 

Tite dando entrevista como treinador da seleção brasileira (https://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2016/09/29/tite-tem-segundo-maior-salario-entre-os-tecnicos-de-selecoes-diz-jornal.htm)

Outra experiência envolvendo treinadores corintianos é a de Tite. Campeão brasileiro, deixou o clube para assumir a seleção brasileira que, até então, estava em uma situação preocupante. Eliminado precocemente de ambas as Copas Américas pós o 7×1, o time comandado por Dunga não convencia e corria riscos de nem ser classificado para a Copa do Mundo 2018. Com Tite, não só a classificação veio, como também o recorde de maior número de vitórias consecutivas nas eliminatórias sul-americanas e o lugar de número 1 no ranking da Fifa. A seleção ganhou forma, padrão de jogo, um senso coletivo, uma defesa sólida. Isso é, claramente, dedo do técnico. 

Thierry Henry, comentarista da “Sky Sports” britânica e ex-jogador, contou o que Pep Guardiola, atual técnico do Manchester City e ex-técnico de Barcelona e Bayern, explicava às equipes que comandava. Segundo ele, Pep era bem claro ao dizer que seu trabalho era levar os jogadores até o último terço do campo, e o deles era concluir a tarefa com gols. Assim tem de ser: treinador guiando como e o que os jogadores tem de fazer, potencializando-os, e os jogadores aplicando os ensinamentos. É como numa orquestra, em que os músicos são os que efetivamente tocam, acertam ou erram as notas, mas são instruídos por um maestro, que dita o tom e ritmo da canção. Ao final da Copa do Mundo veremos o maestro vencedor. Que saibamos avaliar seus méritos de acordo com sua função nesta enorme orquestra que é o futebol. 

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