Copa de 78 na Argentina, ditadura, narcotráfico e futebol

A polêmica negociação que culminou num Mundial eternamente odiado

Na década de 70, a Argentina passou por um período revoltante, a ditadura militar do general Jorge Videla. Isso não impediu o país de ser o anfitrião da Copa do Mundo de 1978, porém fez com que ela se tornasse uma das mais contestadas e lembradas da história do futebol, principalmente devido ao fato de ter sido supostamente comprada pelo presidente do país-sede.

O elenco argentino era ótimo, tinha como principais jogadores o atacante Mario Kempes, que viria a ser eleito o melhor jogador da Copa, o goleiro Fillol, eleito o melhor em sua posição, e o zagueiro Passarella. Porém, mesmo com um bom time, não se previa que eles ganhassem. Os favoritos eram o Brasil e a Holanda, ainda que com o desfalque de Johan Cruijff, o melhor jogador holandês da época, que se negou a jogar devido ao regime vigente na Argentina.

Esse elenco argentino disputou a Copa de 78 (https://www.imortaisdofutebol.com/2013/03/07/selecoes-imortais-argentina-1978/)

Aquela Copa do Mundo teve um formato diferente do atual. Os 16 países participantes foram divididos em quatro grupos na primeira fase, e cada seleção jogou contra as outras três de seu grupo. Os dois melhores de cada grupo passaram para a segunda, formada por dois grupos (A e B). No A estavam os Países Baixos, a Itália, a Alemanha e a Áustria. No B, Argentina, Brasil, Polônia e Peru, novamente com as disputas apenas dentro do grupo. A seleção com o melhor desempenho do A passaria para a final e enfrentaria a melhor do B.

O Mundial foi marcado por diversas peculiaridades que favoreceram os donos da casa, como os vários erros de arbitragem em meio ao medo imposto pela presença do ditador no estádio. Diz-se que os argentinos não ganharam um jogo sequer sem a ajuda do juíz ou, no caso mais discutido, do adversário, tendo como exemplo o time peruano, que protagonizou o jogo mais polêmico do campeonato.

No grupo B, o Brasil brigava com a Argentina pela classificação para a final e ambos teriam o último jogo do grupo como o decisivo. O Brasil enfrentaria a Polônia, e a Argentina jogaria contra o Peru. Ambos os jogos seriam no mesmo horário, mas o time argentino pediu o adiamento de seu jogo para que assim soubessem o resultado necessário para superar a campanha do Brasil. O elenco brasileiro derrotou o polonês por 3 a 1 e com isso a Argentina precisava ganhar do Peru por quatro gols de vantagem para ultrapassar o saldo de gols brasileiro e se classificar, o que seria muito difícil. Àquela altura entraram em cena a corrupção, o ditador e o narcotráfico.

Fernando Rodríguez Mondragón, filho de Gilberto Rodríguez Orejuela, um dos ex-chefes do cartel de Cali, escreveu um livro, El Hijo del “Ajedrecista”, que revelava que o cartel de seu pai havia intermediado o encontro às escondidas entre a Federação Peruana de Futebol e Carlos Alberto Lacoste, braço direito de Videla, que teriam acertado valores para que os peruanos entregassem o jogo. Cada jogador do Peru embolsaria US$ 50 mil, a comissão técnica US$ 250 mil e o governo peruano receberia do argentino US$ 100 milhões em carregamentos de trigo. Em troca dos serviços prestados, o cartel de Cali contaria depois com alguns bons jogadores argentinos no seu time, o América de Cali. Além da compra do jogo, Mondragón denunciou que os argentinos jogaram dopados.

Em 21 de junho, às 19:15, começou o jogo entre a forte seleção argentina e a surpreendente seleção peruana, que contava com um ótimo goleiro e um prodígio camisa 10, Teófilo Cubillas, considerado o melhor jogador peruano da história. Era uma missão quase impossível para os anfitriões. Por isso o mundo inteiro, sem saber da negociação, se espantou com o placar final de 6 a 0 para a Argentina. O jogo foi recheado de falhas grotescas dos peruanos, que causaram uma enorme desconfiança em quem havia acompanhado a seleção até então. Tendo atropelado o Peru, a Argentina jogou a final contra a Holanda, e para muitos esse foi o único jogo limpo e merecidamente vencido, por 3 a 1, pela seleção argentina, que, após a vitória, levantou a taça de campeã do mundo pela primeira vez. Enquanto o Brasil terminou em terceiro após derrotar a Itália por 2 a 1.

 

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