Copa 2018: o legado de uma política conturbada e um 7×1 dentro de casa.

Pesquisa mostra que 53% dos Brasileiros estão desinteressados pela Copa 2018.

Por: Fernanda Cui

A camisa canarinho já não estampa tanto o peito do brasileiro que, sem esperanças, parece estar indisposto a gastar galões de tinta verde e amarela para pintar as ruas pelo país. Mesmo que a seleção brasileira tenha conquistado o coração do povo com seus cinco títulos mundiais, o torcer se vê ameaçado diante do caos político e social. Na última terça-feira (12), o Datafolha divulgou uma pesquisa que indica que 53% dos brasileiros se mostram desinteressados pela Copa do Mundo, sendo o maior índice da pesquisa desde que começou a ser realizada, em 1994. Para muitos, o motivo pelo desinteresse está relacionado a corrupção do país e da CBF, a crise e ao 7×1 vexaminoso em 2014, e mesmo que em diversos momentos da história a política e o futebol tenham convergido, nunca o desanimo e o desinteresse foram tão grandes. Para exemplificar isso, voltemos aos primórdios da seleção.

A primeira Copa do Mundo ocorreu em 1930 no Uruguai, que além de anfitrião da competição, levou a taça em cima da Argentina por 4×2. Alguns anos mais tarde, em 1950, com uma Europa destruída pela guerra, o Brasil foi escolhido para ser o país sede e o Maracanã foi inaugurado na partida entre Brasil e México, com vitória por 4×2 para os brasileiros. Era ano de eleição, a primeira após 15 anos de Ditadura Vargas e os políticos não perdiam a oportunidade de fazer propaganda com a imagem dos jogadores que eles acreditavam ser os campeões. Mas a história foi diferente, em uma final desastrosa, a raça celeste derrotou o Brasil por 2×1, no triste Maracanazo, deixando a seleção desacreditada para os próximos anos da competição.

Mas os tempos de glórias não vieram a tardar. Mesmo com a desconfiança, foi em 1958 que o Brasil conquistou seu primeiro título mundial com uma vitória por 5 a 2 em cima dos donos da casa, a Suécia, amenizando o complexo de “vira-latas”, como conta  Senhor Geraldo de Souza, morador da Zona Norte de São Paulo, que na época tinha apenas 15 anos: “A conquista da Copa para nós foi motivo de esperança, o governo era bom e aquilo animou o brasileiro. O nosso futebol mostrou para o mundo a sua capacidade.”. Em todas as esferas da sociedade, havia um sentimento de otimismo. No esporte não foi diferente: o sentimento de aceitação passou a fazer parte do povo enquanto os jornais suecos elogiavam a seleção: “Nós suecos, voltando para casa, pensamos que acabamos de assistir a uma final de uma beleza excepcional, ganha por remarcáveis vencedores. Do fundo do nosso coração, estamos contentes de ter visto o título mundial atribuído ao Brasil.”

 

Figura 1. Seleção Brasileira comemora sua primeira Copa. 1958

 

Ao contrário do que ocorreu em 1958, que o título brasileiro teve forte impacto na personalidade e imagem do brasileiro, o bi-campeonato de 1962 esteve imerso em um contexto ideológico e político da época. Diante de uma Guerra Fria que afetava o mundo inteiro e um Brasil com o governo de João Goulart, a seleção conquistou o título na Copa no Chile. Quatro anos depois, em 1966 na Inglaterra, a seleção brasileira veio a atuar sobre cenário de regime militar e o sonho do tri se transformou em vexame histórico, que levou a uma eliminação precoce ainda na fase classificatória. A equipe apesar de apoiada pelo Governo Castelo Branco, ainda não tinha se tornado máquina de propaganda do governo, mas nada que um fracasso nos gramados ingleses não alterasse esse contexto.

 

  Figura 2. A Seleção do bicampeonato.

 

Era preciso mudar, o Regime Militar tinha pretensões de usar o futebol como propaganda política do seu governo e para isso acontecer, era preciso transformar o futebol apresentado na Inglaterra. Pressionado pelo governo, João Havelange, presidente da CBD, Confederação Brasileira de Desportos, chamou alguns militares para participar da direção da entidade. Mas, enquanto isso, o técnico anunciado para a seleção em 1969 foi João Saldanha, militante do Partido Comunista Brasileiro. Saldanha, além de levar o Brasil a Copa, não deixou de atormentar a ditadura. Em uma viagem ao México, o treinador montou um dossiê que citava mais de 3000 presos políticos e centenas de mortos e torturados pela ditadura, e o distribuiu a autoridades internacionais. Tal fato, não sairia barato. Médici, militar vigente da época, iniciou um esforço velado para derrubar João Saldanha do cargo.

Durante uma entrevista, o treinador foi questionado pela não convocação do atacante Dario, o Dadá Maravilha. Saldanha não pestanejou em sua resposta: “Ele (Médici) escala o ministério, eu convoco a seleção.” Duas semanas depois, foi demitido e deu lugar a Zagallo. A geração de ouro, formada por Pelé, Tostão, Rivelino, Gérson, Jairzinho, Carlos Alberto, Clodoaldo, carregava junto a si, o peso de um regime militar. As altas investidas do governo em propaganda política com a imagem da Seleção, fizeram com que alguns torcedores negassem apoio a um time que traria para casa a tão almejada Jules Rimet.

Mesmo com a situação política do país e o confronto de opiniões, aquela seleção de 70 é considerada por muitos, a melhor. Para o senhor Geraldo, nenhuma seleção até hoje se compara com a de 70. Aquela geração que marcou história, deixou mais uma vez para os brasileiros, o orgulho. Mais tarde, em 94, a equipe viria a conquistar seu tetracampeonato, e em 2002, o penta.

 

Figura 3. A conquista da Jules Rimet

 

Alguns anos depois, em 2007, o Brasil foi escolhido para sediar a Copa em 2014. O clima era o dos melhores, a economia chegou a crescer 5,4% naquele ano, segundo o IBGE e a situação do país durante o governo Lula, trazia esperanças para a população. A escolha do Brasil como sede, deixou a maior parte do povo otimista, e mais uma vez o futebol tomou conta do brasileiro. Estes não imaginavam que as vésperas dessa edição o cenário seria diferente.  A Copa de 2014 aconteceu diante de um caos político, econômico e social. As obras não foram entregues por completo, e o Rio de Janeiro quase se viu falido por conta dos casos de corrupção. Nas ruas, os protestos eram intensos, e grande parte da população se opunha a situação do país naquele momento. O brasileiro que já deixava a seleção de lado por conta da política que abalava o cenário nacional, se questionou novamente quando deu de cara com o vexaminoso 7×1 para a Alemanha. Foi ali que a imagem de uma seleção pentacampeã foi ainda mais abalada.  Torcer pelo Brasil se tornou sinônimo de compactuar com uma política corrupta e um país em crise durante uma Copa que foi alvo de escândalos de corrupção, e esse legado permanece até hoje.

 

Figura 4. Delegação brasileira comemora a escolha do Brasil como sede da Copa do Mundo de 2014.

 

Ainda que Tite tenha resgatado o pouco de esperanças que resta para os brasileiros, por aqui ainda se vê muita gente questionar o torcer pela seleção diante de uma política conturbada e o quanto isso faz parte da cultura brasileira. Como contou o professor do departamento de Ciências Sociais da PUC-SP, J. P. Florenzano, em entrevistas passadas: “O Museu do Futebol, por exemplo, assim como os eventos ocorridos na chamada “década esportiva”, delimitada pela definição do país como sede da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016, representam um marco na tomada de consciência sobre a importância do futebol como patrimônio da cultura brasileira, mas ainda existe um longo caminho a ser percorrido no que diz respeito ao resgaste e preservação da memória coletiva”. Assim, a empolgação que não é como em outras edições, deixa isso evidente. Parece que toda a cultura que foi construída ao longo dos anos por conta do espetacular futebol apresentado pela seleção canarinho durante sua história, não importa tanto mais.

A seleção brasileira que se provou para o mundo com seu pentacampeonato e mostrou para a Europa que aqui também nascem os gênios da bola, sofre as consequências de um dos períodos mais obscuros do país. Em diversos outros momentos da história política do Brasil, a seleção se mostrou capaz de trazer o título para casa e alimentar no brasileiro, o gosto pelo futebol. Ainda diante desse cenário, cerca de 48% dos entrevistados pelo Datafolha apontam a seleção brasileira como a conquista do título. Talvez esse seja o momento da população compreender que sim, a política está intrínseca no futebol, mas não, torcer para a seleção brasileira não significa compactuar com a política e economia abalada.

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