O que é primordial na área esportiva: a técnica ou o psicológico?

Após decepção em 2014, a seleção brasileira tem sido pressionada pelo público

Por Giovana Macedo

 

Rússia será o país sede da Copa do Mundo de 2018 (via Getty Images)

 

Com os preparativos para a Copa do Mundo 2018 da Rússia, muitas especulações estão surgindo acerca das apresentações de sua abertura, a organização dos jogos, os times vencedores e, principalmente, as performances dos atletas. Neste último, muito se discute sobre a preparação física e os treinamentos do time. No entanto acaba por ser esquecida a questão psicológica dos jogadores, que, sem dúvida, são os que mais requerem atenção.

É possível ver, mesmo quem não está ligado diretamente ao meio esportivo, que a atenção dada à técnica é diferente a dada ao psicológico, talvez por ignorância da equipe, que, infelizmente, acaba esquecendo que, além de ser jogadores, eles também são humanos. Na Copa de 2014, destacou-se em vários jornais a qualidade do time da Alemanha no que se referia aos recursos mentais, dado que o psicólogo esportivo Hans Herman contava com uma equipe de 12 psicólogos que trabalhavam com acompanhamento mental, orientação familiar, mapeamento de perfil, reuniões com os departamentos médico e de preparação física, além de contar com o apoio e suporte dos dirigentes e treinadores locais. Para a equipe alemã a mente e o corpo têm a mesma importância, o que é algo a ser exigido da brasileira.

Segundo o profissional formado na Universidade Presbiteriana Mackenzie e especialista em psicologia do esporte pelo Instituto Sedes Sapientiae Rodrigo Falcão, a parte mental não deve ser separada da parte técnica. “O ideal seria que todos os clubes tivessem um psicólogo inserido na comissão técnica e disponível nos treinamentos e nas competições”, diz ele. Mas são poucos os clubes que contam com um trabalho do tipo. Ele reforça que a psicologia do esporte, área existente oficialmente desde 1920 e que se dedica ao estudo comportamental de atletas no contexto esportivo, não só auxilia nos problemas como depressão e ansiedade, mas também procura desenvolver o que eles têm de positivo e no que se destacam, explorando suas habilidades psicológicas. Mas ele afirma que no contexto da Copa é extremamente provável que acabem vindo à tona medos, ansiedades, estresses e inseguranças. Portanto diz que “uma seleção para ser campeã necessita estar bem em todos os aspectos táticos, físicos e mentais. Caso uma dessas partes não estiver viável, a performance dos jogadores será prejudicada”.

Em relação à seleção brasileira atual, o profissional diz que do seu ponto de vista esse acompanhamento não está sendo realizado e aponta: “Ainda que o treinador Tite seja um grande líder e se dedique a manter o time unido, não é a mesma coisa que ter um profissional da psicologia presente”. Um exemplo sobre como o estado emocional e preparo mental podem influenciar e interferir nas horas decisivas é a semifinal entre Brasil e Alemanha na Copa do Mundo de 2014, em que a seleção brasileira perdeu de 7 a 1 em seu próprio território. Devastada e humilhada pelo público brasileiro e internacional, a seleção sem dúvida está sentindo uma pressão para a Copa de 2018 e Falcão analisa isso dizendo que “todo tipo de excesso de pressão é ruim técnica e mentalmente. Não há como negar que a comissão técnica está pressionando muito os jogadores”.

 

Jogadores decepcionados após semifinal contra Alemanha em 2014 (AP Photo/Martin Meissner)

Com isso, o psicólogo esportivo analisa que a falta de um profissional da área seja uma falha da CBF e sugere que poderia ser feito um trabalho a longo prazo, como a disponibilização do tipo de perfil de cada jogador à comissão técnica, com a finalidade de identificar as dificuldades e desenvolver as habilidades.

O argentino Juan Francisco Manes, professor de educação física, treinador pessoal e diretor técnico de futebol, quando questionado sobre se valia mais a parte técnica ou psicológica na hora do jogo, também afirmou que ambos são igualmente necessários para um jogador. No entanto ele aponta uma diferença dizendo que “o psicológico é capaz de melhorar e potencializar qualquer pessoa, enquanto na técnica há uma condição inata que faz com que uma pessoa seja tecnicamente melhor ou pior que outra”. Para o professor, uma pessoa que não tenha nascido com o talento esportivo não conseguirá ser boa em relação ao rendimento, mas com uma certa dedicação mental é provável que ela melhore e se fortaleça. “Com isso, acredito que o treinamento psicológico é importante, se não mais, tanto quanto o treinamento técnico, dado que é o que determinará o rendimento do atleta”.

Nesse sentido, não há como avaliar a técnica sem que seja considerado o psicológico. Visando o bom rendimento do jogador e da seleção em geral, é extremamente necessário que sejam reforçados os recursos básicos para atender e analisar o estado emocional durante toda a pré-temporada. Exemplo disso seria a contratação de uma equipe especializada para os acompanhamentos e identificações de perfis psicológicos, como a do alemão Hans Herman. Sobre a Copa do Mundo de 2018, espera-se que a seleção brasileira, que tanto foi julgada e humilhada há 4 anos, consiga aguentar as pressões externas e internas, dando o seu melhor sem abalar sua sanidade e mantendo-se forte e com a garra de sempre.

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