Cresce incidência de assédio em coletivos paulistanos

Por Jamilly Santana

O número de denúncias de assédio no transporte público em SP cresceu. É difícil saber o número total de casos, mas o relato dessa jovem que já sofreu com essa situação ajuda a aprofundar o entendimento do quadro. Uma em cada quatro mulheres paulistanas já sofreu assédio nos ônibus, trens ou metrôs da Capital. Segundo a pesquisa divulgada recentemente, pela Rede Nossa São Paulo, o assédio no transporte coletivo é a situação de violência mais vivenciadas pelas mulheres no dia-a-dia.

A maioria das mulheres assediadas no transporte público tem entre 16 e 34 anos. Nas ruas, 13% das mulheres já passaram por alguma abordagem desrespeitosa, ou seja, foi agarrada, beijada ou outra situação sem o seu consentimento.

Outro dado revelador sobre as dificuldades enfrentadas pelas mulheres na capital paulistana é de que uma em cada cinco (19%) diz já ter sofrido algum tipo de preconceito ou discriminação no trabalho por ser mulher. A agência de notícias Maurício Tragtenberg (AGEMT) entrevistou uma jovem que sofreu episódio de assédio dentro de um ônibus e o caso ajuda a entender a perspectiva de vulnerabilidade da mulher no transporte público.

Fernanda Matarazzo, 18 anos

Eu, estava dentro do ônibus indo para a estação Barra Funda por volta das duas horas da tarde. O ônibus estava relativamente cheio. Não havia pessoas em pé, mas todos os lugares estavam ocupados. Entrei no ônibus e ao passar pela catraca, sentei ao lado de um senhor de idade, não é do meu costume sentar ao lado de homens no transporte público justamente por tantas atrocidades que vemos sobre abusos e assédios recorrentes, sempre que há assentos disponíveis ao lado de mulheres dou prioridade para sentar ao lado delas, no entanto, pelo cansaço e por ser o único lugar disponível, sentei ao lado do senhor.

Desde o momento que sentei percebi que ele olhando fixamente para mim, durante todo o percurso ele permaneceu olhando fixamente para mim, isso já estava me deixando extremamente desconfortável. Eu, estava vestida com uma blusa modelo cropped e uma calça jeans, ele ficou atentamente olhando para o decote da blusa, isso já estava me incomodando muito e eu não falei nada porque pensei “ah, ele só está olhando”, infelizmente, nós mulheres somos acostumadas com homens nos olhando o tempo inteiro ou mesmo passando na rua e mexendo com a gente. Em determinado momento ele colocou a mão na minha perna, no exato momento que ele fez isso eu olhei para a cara dele e perguntei de forma grosseira: “você está precisando de alguma ajuda? ” E ele olhou para mim e me chamou de “piriguetinha nojenta”.

Imagem postada no Instagram por Fernanda Matarazzo no dia do ocorrido. Foto: Instagram.

AGEMT: Para divulgar o acontecimento você publicou a imagem no Instagram, qual foi a repercussão que a imagem teve e quais os tipos de mensagem que você recebeu após a publicação?

Fernanda Matarazzo: Quando eu publiquei aquela imagem no Instagram, eu esperava receber apenas mensagens positivas porque depois das coisas que aquele senhor disse para mim dentro do ônibus, eu realmente fiquei me sentindo muito culpada por estar usando uma blusa decotada, um brinco de argola brilhante de dia. Esperava mensagens de meninas que colocassem minha cabeça no lugar e me lembrassem de que  a culpa não era minha e ainda bem, foi exatamente isso que aconteceu, eu não recebi mensagens negativas. Muitos homens, chegaram a falar que se estivessem por perto teriam tomado uma agressiva contra o senhor e as mulheres tiveram muita empatia e souberam diminuir o fardo que eu estava carregando, que não é só meu mas de todas as que sofrem com esse tipo de assédio diariamente.

AGEMT: Qual foi o comportamento das pessoas que estavam dentro do ônibus? Em algum momento alguém tentou lhe ajudar?

Fernanda Matarazzo: No momento do ocorrido ninguém que estava presente no ônibus tomou partido algum, as pessoas apenas olharam, dois homens, que aparentavam ter aproximadamente 25 anos, comentaram entre si sobre a situação e concluíram que o senhor estava errado em fazer o que fez, mas eles não chegaram a realmente tomar partido da situação. Após alguns minutos eu comecei a chorar por motivos de ódio, vergonha e nojo que estavam dentro de mim por conta de toda a situação, nesse momento, esses dois rapazes vieram falar comigo e perguntaram o que estava acontecendo e o porquê de eu estar chorando, eu expliquei a situação e eles começaram a perguntar para o senhor (que já estava em pé no ônibus com certa distância de mim) porque ele teria falado aquelas coisas para mim e o senhor respondeu que eu que estava errada, que eu o provoquei e faltei com respeito à ele. O senhor alterou o tom de voz e os rapazes voltaram para os seus lugares, deixando de lado a situação e o ônibus seguiu todo o trajeto como se nada tivesse acontecido.

AGEMT: Você relatou o comportamento sexual que sofreu no transporte público para as autoridades?

Fernanda Matarazzo: Não falei com a polícia, nem pensei nessa hipótese porque no momento eu diminui a situação por não ter tido tanta repercussão das pessoas ao redor pensei que ele apenas teria colocado a mão na minha perna, sem assim, compreender de fato a proporção do problema. Infelizmente, vemos casos como o homem que ejaculou na face de uma mulher ao final do ano passado e tantos outros, que quando algo acontece com você, você diminui o caso e esquece que aquilo também é um abuso.

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