Estudar muito para vestibular pode causar transtornos

Por Manuela Avanso

O atual sistema de ingresso nas universidades ocorre de forma não benéfica aos estudantes. As poucas vagas e o elevado número de concorrentes faz com que seja criada uma corrida de quem sabe mais ou consegue adquirir mais conhecimento. Entretanto esse conhecimento nem sempre foi aprendido de fato, ele somente foi memorizado de forma mecânica. As horas excessivas de estudo causam uma série de problemas nos jovens em condição pré-vestibular, como por exemplo ansiedade, estresse e insegurança além de incentivar a competição e sensação de inferioridade por não alcançar as metas. Há também uma glamourização do sacrifício dos estudantes, como se somente abdicando de toda sua vida para estudar para o vestibular o indivíduo conseguirá obter sucesso.

São comum matérias jornalísticas estapando a seguinte manchete: “estudante estudava 12 horas por dia e passou em dez faculdades de medicina”. Tal abordagem se torna problemática quando um indivíduo deixa de ter sua vida social para entrar em uma universidade. Além de não ser um cenário saudável por desenvolver problemas psicológicos generalizados, a prova da maioria dos vestibulares não mede a inteligência, somente o quanto o aluno conhece aquela prova. Esse fato gera nos estudantes uma insatisfação pessoal e falta de confiança em si mesmo, provocando a queda de auto estima intelectual. Muitos jovens acabam necessitando de ajuda psicológica por não conseguir lidar com a pressão familiar ou a pressão que eles fazem em si mesmos.

O termo “vestibular” deriva de “vestíbulo” que significa entrada ou ingresso, ideia que sintetiza bem a função desse exame. O modo como o sistema de ensino funciona no Brasil diz muito sobre o desempenho intelectual dos alunos. Disciplinas como artes e música não fazem parte do currículo do ensino público, gerando uma deficiência na formação individual e pessoal do estudante e fazendo com que tais áreas sejam negligenciadas.

A falta dessas disciplinas provoca a banalização dos conteúdos cobrados nas provas de ENEM e vestibulares, de modo que os estudantes apenas decoram fórmulas e esquemas vazios que posteriormente serão esquecidos. Esse rápido esquecimento dos conteúdos gera profissionais com fraca formação intelectual e sem o conhecimento de áreas essenciais para a vida em sociedade.

O estímulo ao desenvolvimento de problemas de ansiedade, falta de sono e desregulação do ritmo cerebral de descanso tem ligação direta com o sistema de ensino médio e a prova de ingresso nas universidades, isso porque o estudante baseia todo seu aprendizado em apenas uma avaliação. Os efeitos somados às mudanças hormonais da adolescência causa uma verdadeira transformação psicológica nos estudantes. Depressão também se tornou um problema comum nos vestibulandos pela alta carga de estudos que eles estabelecem, deixando sua vida social de lado ocorre uma sobrecarga emocional com consequências negativas. O principal sintoma dessa patologia é o desânimo e a falta de motivação para fazer atividades cotidianas. O estudante se sente mal consigo mesmo e perde sua vitalidade até mesmo nas coisas mais prazerosas.

Duas alunas que passaram pela experiência do vestibular de medicina, o curso com maior concorrência dos vestibulares em geral, relataram as dificuldades psicológicas sofridas no período de estudos. Uma delas, Isis Vicente já está cursando medicina e frequentou o ambiente de cursinho pré-vestibular por cerca de três anos, a segunda aluna, Julia Lopes, ainda está estudando para conseguir a aprovação em seu segundo ano de cursinho.

prova de vestibular (Fonte: Pixabay)

AGEMT: Como você se sentia psicologicamente quando estudava para o vestibular?

Ísis: Me senti extremamente esgotada e com a autoestima baixa. Foram anos na minha vida que abalaram meu psicológico, tive até que começar a fazer tratamentos e acompanhamentos psiquiátricos.

Julia Lopes: O estudo para o vestibular de medicina tem que ser muito intenso e sistemático, são horas bem extensas, cerca de 30 horas semanais de estudos. Além disso tem os simulados aos finais de semana. Tudo isso é muito exaustivo, e eu me sinto praticamente toda semana como se eu não fosse capaz de conquistar minha vaga. Há muitos momentos em que eu me sinto no limite e ao mesmo tempo nunca penso ser o suficiente para passar. Quando eu erro um exercício, já me sinto decepcionada porque penso que se tivesse errado esse na prova, ele seria a diferença entre entrar ou não na faculdade. Choro com frequência por me sentir exausta, mas ainda sem não deixo de me preocupar em não deixar a matéria atrasada.

AGEMT: Os conteúdos têm aproveitamento depois da aprovação no vestibular?

Ísis: Sim, pelo fato do método ser PBL (sigla em inglês do método de aprendizagem usado nas faculdades de medicina), nós usamos bastante conhecimento prévio de biologia e química.

AGEMT: Quais foram os principais problemas que você teve que lidar na época do vestibular?

Ísis: Minha auto cobrança e insegurança foram meus maiores problemas, além das críticas de pessoas que nem sabiam o que eu passava!

Julia Lopes: Como eu presto cerca de 12 vestibulares diferentes, as provas são muito próximas umas das outras. Então quase não há tempo para tentar estudar entre eles. Eu me incomodo muito também com os comentários pós prova, que eu tento evitar ao máximo, ou com as correções das provas no mesmo dia de aplicação delas, porque se o resultado foi pior do que eu imaginava eu me sinto desestimulada. Além disso, claro que tem as provas em si, porque o nível das questões parece se elevar todos os anos enquanto o número de vagas permanece o mesmo. O tempo de prova muitas vezes é pouco para conseguir responder as questões do jeito que eu pretendia.

AGEMT: O modo como são cobrados os assuntos realmente seleciona os alunos que mais se prepararam?

Ísis: Acho que de forma alguma o vestibular mede o aluno mais preparado e com maior conhecimento. Conheci muita gente durante o cursinho que sabia demais e mesmo assim não conseguia passar!

Julia Lopes: Creio que não. Muitos alunos de fato se preparam e se esforçam muito ao longo do ano, mas são afetados psicologicamente ao realizar a prova. Como o tempo é curto, também há essa dificuldade que afeta a todos, sendo que muitas vezes você sabe resolver um exercício, mas não há tempo de fazê-lo. Acho que a sorte também conta muito na hora da prova, porque pode cair um assunto que você entende mais do que outros. Então não acho que o modo como eles cobram os assuntos de fato selecionam quem está realmente preparado para a prova.

AGEMT: Quanto mais perto das provas, você se sentia menos concentrada ou com dificuldade para dormir?

Ísis: Com certeza! Não rendia absolutamente nada nos estudos quando as provas estavam chegando e não conseguia dormir durante a noite, tanto que comecei a tomar indutor de sono para pelo menos conseguir dormir um pouquinho.

Julia Lopes: Eu me sentia menos concentrada no início das provas, e até eu sentir que estava 100% focada no que estava lendo, já havia passado uns 5 minutos de prova.

AGEMT: Na sua opinião, deveria haver uma mudança no sistema de ingresso nas faculdades?

Ísis: Creio que sim. Acho nosso sistema muito injusto e desgastante.

Julia Lopes: Acredito que no momento seja muito complicado criar um novo sistema, devido ao sistema atual ser tão tradicional e, portanto, a dificuldade de se reimplantar um novo método de estudo nas escolas e cursinhos a curto prazo. Mas sou muito a favor de que o número de vagas nas faculdades possa aumentar, ou que possa haver mais rotatividade nas listas de chamada. Também seria ideal que se extinguissem as compras de vaga, que impedem que quem de fato estudou muito para passar na prova consiga entrar.

Estratégias para estudar

A maior parte dos cursos preparatórios para o vestibular possui coordenadores que promovem a orientação dos alunos, tanto no quesito psicológico como de organização dos estudos. Conversando com o coordenador Vinicius Haidar, do curso Poliedro em São Paulo, foram esclarecidas algumas questões sobre o trabalho realizado com os estudantes.

Quando questionado sobre os principais motivos que os alunos o procuram, ele diz que isso varia de acordo com a época do ano. Nos primeiros meses de aulas, a principal preocupação dos vestibulandos é como se organizar para conseguir estudar todo o conteúdo das disciplinas, a coordenação nesse caso monta planos de estudos e promove palestras de orientação de auxílio. O desempenho nos simulados é outro fator que preocupa os estudantes.

O atendimento realizado pelos coordenadores e orientadores é também psicológico e envolve questões como ansiedade, falta de concentração e outros problemas causados pela elevada carga horária de estudos. O aparecimento desses problemas aumenta com a chegada do período das inscrições das provas, isso porque a dúvida sobre o futuro profissional aumenta e se a escolha do aluno realmente é a certa para sua vida.

O coordenador disse ainda que o fator que mais prejudica o desempenho dos alunos nas provas é a ansiedade. Esse problema pode diminuir o rendimento do aluno para aplicar seus conhecimentos no exame, mesmo que ele esteja muito bem preparado. Haidar afirmou também que o sistema tem problemas assim como qualquer outro já que existem muito mais indivíduos para um número pequeno de vagas. Esse cenário de falta de vagas traz a necessidade de se ter uma seleção, e ela acaba deixando alguns indivíduos de fora eventualmente.

Para uma mudança significativa na infraestrutura do sistema educacional, seria necessária uma mudança cultural completa no País e para isso seriam necessárias muitas gerações para que se concretize uma transformação efetiva de ensino. Isso provocaria uma mudança no sentido de criar um novo modo de seleção para o ensino superior.

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