Vila Madalena tem esboços do “jáis” aos domingos

Todos os domingos, a Vila Madalena, na zona oeste da capital paulista, é agraciada pelas notas calculadas porém sinceras do projeto “Jazz Na Rua”.

Por Gabriel Buchmann Freire

A ideia já tem três anos, criada pelo jornalista e promotor de cultura, Gilberto Dimenstein com o intuito de contar a história de quase um século de tradições (e subversões) musicais a partir do Jazz. Além de ter como principal objetivo entreter as pessoas familiarizadas ou não com o gênero, muitas vezes visto como algo erudito.

Dimenstein escalou o músico e compositor Muari Vieira para comandar o projeto. Nascido em Brasília no início dos anos 1980, Muari logo iniciou seus estudos musicais, escolhendo o piano, instrumento que logo trocaria por seu inseparável violão. Aos 12, mudou-se para os Estados Unidos, onde se apaixonou pela composição e pela improvisação, praticando-as com técnicas de gravação nos finados gravadores de fita com 4 canais. Logo aos 14, dessa vez, foi morar no Equador, onde estudou em uma escola internacional assim sendo influenciado por diversas culturas do mundo, principalmente a música de cada uma delas.

Chegou então o momento de Vieira se encaminhar para o ensino superior e não havia dúvida de que seu caminho era a música. Ganhou uma bolsa de estudos para uma das faculdades de maior prestígio no mundo, a Berklee College of Music em Boston, nos EUA. Lá, Muari teve contato direto com a música que ele tanto ouviu durante a sua vida, principalmente a música negra, como jazz, funk e soul. Porém, focou seus estudos em violão brasileiro e erudito, gravando seus dois primeiros discos ainda na faculdade.

Após 5 anos de estudos, Muari voltou ao Brasil para levar a vida como músico profissional, agora em São Paulo, trabalhando como freelancer, músico de apoio e professor (algo que de acordo com ele, sempre foi um grande prazer pessoal). Após alguns anos, conseguiu se estabelecer como um nome de destaque na cena instrumental paulistana, tocando em diversos palcos como o Jazz nos Fundos, o JazzB, entre outros. E voltando às suas primeiras influências musicais, empunhando sua guitarra novamente, depois de alguns anos longe.

Então ao receber o convite de Dimenstein, Muari só pôde dizer “sim”. Debruçado sobre um vasto repertório de canções de jazz, cada uma de épocas diferentes, variações diferentes do gênero e tentando juntá-las para criar um repertório que agradasse tanto o público leigo como os ouvintes fervorosos do jazz, além de ser uma programação 100% gratuita, que é um dos pilares ideológicos do Jazz na Rua.

Foto: Gabriel Buchmann Freire

E pode-se dizer que grande parte desses objetivos foram cumpridos, Pedro Asfora (18 anos), músico e frequentador assíduo do Jazz Na Rua diz um pouco sobre o ambiente: “O Jazz na rua tem um estilo meio praiano, descontraído, instantaneamente você relaxa. Escolhe seu lugar, senta, pega uma cerveja, acende um cigarro. Pode levar a namorada, o cachorro, a família, e não precisa necessariamente gostar de jazz e por isso, é até possível que você passe a se interessar por jazz.”

Já outras pessoas, como João Navarro (22), fazem comentários mais contemplativos sobre o projeto: “Eu já vim algumas vezes no Jazz na Rua, ótimo show, ótimos músicos, espaço sempre agradável. A ideia de criar uma projeto de jazz na rua é algo fantástico, não conheço outros projetos assim já que não participo ativamente na cena de jazz paulistana, mesmo gostando muito do gênero.

Imagino que o intuito por trás de projetos assim é mudar o estereótipo que o jazz assumiu de ser um gênero musical elitizado, apropriado por uma elite cultural e financeira, o que me parece muito contraditório em relação às origens do jazz nos EUA, que em seu ápice de popularidade, todos os grandes músicos eram negros e que tocavam essa música de resistência negra. E por isso, a história do jazz traz consigo esse caráter subversivo muito forte, daí essa elitização me parece algo muito triste, então projetos que tem como objetivo essa democratização do jazz, colocando ele de graça e na rua são, para mim, algo muito importante. Por mais que ainda se trate de um espaço como a Vila Madalena que é um espaço elitizado da cidade, algo que pode ainda se ampliar, democratizando ainda mais o jazz.”

Entrevista

A cada domingo Muari convida um ou mais músicos para acompanhá-lo, geralmente um pianista ou algum instrumento de sopro. Ele se dispôs a dizer um pouco sobre o projeto e sobre a sua visão da situação do jazz atualmente:

Como surgiu a ideia?

A ideia surgiu a partir do desejo do jornalista Gilberto Dimenstein de criar um ponto na cidade para expor, por assim dizer, músicos da cena de jazz, músicos não necessariamente conhecidos pela grande mídia mas músicos de qualidade, e toda a sua diversidade, enfim, uma vitrine para a cena musical jazzística. Tudo isso sendo sempre gratuito. Junto dessa ideia, veio a experiência da rua fechada, da rua Medeiros de Albuquerque, se tornando uma espécie de parque, praia urbana,    ouvindo boa música e comendo boa comida. Enfim, espelhando good vibes.

Foto: Gabriel Buchmann Freire

O jazz ainda é relevante para a massa?

Sim, o jazz é muito relevante para a massa, na verdade, associar o jazz à massa já é um salto quântico, considerando que a massa é alimentada, a música é gerada de acordo com certo cálculo que muitas vezes foge do jazz. O jazz é conhecido pela complexidade, pela intelectualidade mas muitas vezes a música de rádio que é considerada música de massa, é o contrário, é música mântrica, repetitiva, com um viés dançante. Simplesmente, uma simplificação da experiência musical para que a pessoa que ouve do outro lado entenda rapidamente e queria repetir e ouvir de novo. Experiência complexa que vai ficar querendo porque dois improvisos não são iguais.

Se o Jazz ainda é relevante, eu diria que ele nunca foi relevante para a massa, com exceção da era do swing, nos anos 1930, onde big bands de jazz eram condutoras de grandes bailes, muitas vezes de concursos de dança, a música era dançante nessa época. Depois do bebop, nos anos 1940 o jazz ficou menos dançante, mais cerebral. Então quando se fala em jazz e as massas, tem-se que saber o momento que está se falando. Hoje em dia o jazz é totalmente universal e antropofágico e admite todas as influências de todas as músicas e o que fica do jazz é um tanto da linguagem da improvisação com frases, escalas conceitos e acordes, quando o espírito é espontâneo.

Foto: Gabriel Buchmann Freire

Como o jazz é visto na rua pelos leigos e pelos conhecedores de jazz?

Pelo público leigo, é sempre uma surpresa porque temos um terço das pessoas, talvez menos, um quarto, um quinto de pessoas que foram ao Jazz na Rua. Então leigos mesmos, pela experiência. Às vezes não são leigos do jazz mas estão ali pela primeira vez e se impactam pela experiência. A sensação para quem chega é antes de tudo da ambiência, aquela situação com cadeiras de praia, viradas para uma garagem, e que transforma em algo totalmente lúdico e benéfico, algo que o concreto e o metal não necessariamente proporcionam. É uma experiência orgânica  vindo de sua situação totalmente urbana. O público leigo com relação ao jazz tende a sair gratificado, pela experiência única que dá abertura para a pessoa se sentir à vontade e curtir aquilo que está sendo demonstrado ali, que é além da norma da música pop de rádio, extremamente repetitiva e previsível.

Aquele que já conhece o jazz tem dois públicos: aquele que conhece e aquele que toca o jazz porque é frequentado pelos dois ramos de plateia. As pessoas que já conhecem o jazz e vão lá tendem a ser muito abertas pela experiência. A situação deixa as pessoas mais generosas, pois é ao ar livre.

Quem já conhece jazz tende a nos apoiar muito e muitas vezes chega depois e fala que quer nos encaixar em um festival, num evento. Tem sempre essa generosidade espontânea que vem das pessoas que já conhecem, e que se sentiram representadas pela proposta. E aqueles que já são músicos ou musicistas vem para curtir a balada e se sentir também em casa e dar canja, assistir um pouco e curtir também a experiência. É uma forma dos músicos se sentirem desarmados, numa situação ao ar livre, promovendo a música que curtem, então abertura para canjas dá uma relaxada no ambiente, o que faz com que músicos queiram vir. É óbvio que esses músicos vão ver conhecidos meus ou que viraram conhecidos meus. É legal para todo mundo, menos para os moradores da rua, alguns, que começaram a vender suas casas porque eles estão inseridos na Vila Madalena em expansão. Não são edifícios residenciais mas são lugares com música ao vivo que enfim vão se multiplicando pela Vila Madalena.

Informações:

Jazz Na Rua

Domingos das 14h às 18h

Rua Medeiros de Albuquerque, 270 – Vila Madalena – São Paulo

Grátis

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