MORTE EM VIDA: A COMPLEXIDADE DA PROFISSÃO DE SEPULTADOR

Uma profissão que lida com a vida, a morte, a dor e a dificuldade de estar qualificado em uma posição insalubre

Por Alessandra Monterastelli, Eva Pacheco e Luiza Vilela

À primeira vista, a roupa azul e as botas sujas de terra identificam um coveiro. Por trás do uniforme, escondem-se curiosas histórias e desalentos diários, consequências de uma profissão tão fundamental quanto penosa.

No Cemitério da Vila Mariana, localizado na Avenida Lacerda Franco, em São Paulo, trabalha Nelson Santos de Souza, 59. Há 27 anos, Nelson era efetivo em um escritório de advocacia, quando resolveu prestar concurso para ser funcionário público. O anúncio para “coveiro” chamou a sua atenção. “Queria conhecer como era a morte”, ele diz.

O sepultador – nome que hoje em dia se dá para a carreira – se refere ao luto com pesar. “Não tem como não sentir a dor do próximo. Nós fomos treinados para ser fortes, mas muitas vezes eu saio escondido para chorar”, confessa. “É uma dor tão grande, que eu não consigo explicar. Só sabe falar quem já passou por ela.”

Apesar de tudo, Nelson diz que não há lugar melhor para trabalhar do que um cemitério. “Aqui, eu aprendo a amar mais a vida, e a me colocar no lugar do próximo”, conta.

Diariamente, Nelson realiza uma média de dois sepultamentos, e trabalha no regime chamado “12 por 36”, regulamentado pela reforma trabalhista, aprovada no ano passado. De acordo com a lei, após 12 horas de serviço, o trabalhador tem direito a 36 horas de descanso.

No entanto, devido à falta de funcionários, não é raro que os sepultadores dobrem o expediente. Nelson atribui a lacuna à suspensão dos concursos públicos para agentes de apoio, categoria que engloba os sepultadores, os motoristas dos carros funerários e aqueles que desempenham função administrativa nos cemitérios.

De acordo com João Batista Gomes, 52, secretário de imprensa do Sindsep (Sindicato dos Servidores Municipais de São Paulo), o último concurso para agentes de apoio foi realizado em 2011, mas a prefeitura só começou a convocar os classificados em 2013, quando contratou em caráter emergencial 150 funcionários, entre sepultadores e motoristas.

“De lá pra cá, muita gente se aposentou. Estamos na briga pela ampliação dos concursos e das contratações”, diz João Batista. Hoje, o serviço funerário municipal conta com cerca de 1100 funcionários, dos quais 800 são sindicalizados (a maior taxa de sindicalização do Sindsep).

Além da retomada dos concursos, o sindicato que representa a categoria aprovou, em 2015, outras doze reivindicações ligadas à modernização e à reestruturação do serviço funerário.

Entre elas, está a descentralização do serviço (que atualmente funciona na Vila Guilherme) e a criação de polos regionais para a prestação dos serviços oferecidos pela prefeitura, aliadas à construção de uma sede central própria, em lugar visível e de fácil acesso.

Em campanha, o Sindsep reivindica a elevação do piso salarial da categoria (hoje por volta dos 1200 reais). Em 2013, a prefeitura concedeu aos servidores um aumento de 72%. No entanto, segundo Batista, “faz cinco anos que os salários estão congelados, não tendo havido nem a reposição das perdas inflacionárias do período”. Este ano, a prefeitura enviou à Câmara proposta de lei que previa o reajuste de 0,01% no piso dos servidores, revisão que, para o secretário, é “irrisória”.

Ainda não há entendimento jurídico unânime a respeito do adicional de insalubridade para sepultadores, que pode variar de 23 a 43 reais por mês, conforme informado pelo secretário.

Em 2016, por exemplo, uma jurisprudência do Tribunal Superior do Trabalho (TST) decidiu que uma funcionária do Cemitério da Saudade, na zona leste da capital, deveria ter direito a um adicional de 40% (correspondente ao grau máximo de insalubridade), por ser encarregada da limpeza do local e estar em constante contato com agentes químicos e biológicos de toda sorte.

“O adicional não cuida da sua saúde”, diz João Batista. “É um benefício que não queríamos que existisse. Queríamos que as condições de trabalho fossem perfeitas. Mas temos ações para majorar esses valores, que têm a ver com as questões físicas e emocionais da profissão”, completa.

Outro ponto na pauta de reivindicações do sindicato se refere às condições de trabalho dos sepultadores. De acordo com João Batista, nos cemitérios mais afastados, falta equipamento de proteção individual, como máscaras e luvas, fazendo com que os profissionais se exponham a picadas e a doenças, que podem ser contraídas pelo contato com a terra. “Às vezes, os sepultadores compram o material com o dinheiro do próprio bolso”, atesta.

Nesse sentido, o sindicato demanda a contratação, prevista por lei, de um técnico em segurança do trabalho. Miguel Rodrigues Vieira, 57, é sepultador no Cemitério do Araçá, no bairro de Pinheiros. Ele conta que, em certa ocasião, ficou preso por duas horas dentro de um jazigo. “Eu tinha uma pequena talhadeira, e foi isso que me salvou. Quando meus colegas chegaram, eu já estava do lado de fora”, se recorda. Segundo ele, no Araçá, algumas construções correm risco de desmoronamento.

Cemitério do Araçá. Foto: Luiza Vilela

Nascido e criado no Piauí, Miguel mudou-se para Brasília e depois para São Paulo, onde começou a trabalhar como sepultador, há 27 anos. Tendo sido serralheiro, vidraceiro e eletricista, ele diz que veio parar na profissão por ser curioso: “Eu sempre quis ver alma”.

Das 7h às 17h (às vezes estendendo-se até as 19h), Miguel já chegou a fazer 22 sepultamentos num dia. “Não tenho hora para almoçar. Tem dias que nem almoço, porque não dá tempo”, comenta.

Após quase três décadas de profissão, o sepultador ainda não se acostumou à morte. “Quando fazemos o sepultamento de alguém, aquilo fica marcado para o resto da vida. Às vezes, choro mais do que a própria família. Como enterrar, por exemplo, uma mulher que deixa uma criança?”, pergunta-se. Para esta categoria, há um serviço de atendimento psicológico especializado, disponível no Hospital do Servidor Público Municipal (HSPM).

A estabilidade de Nelson e Miguel pode estar em risco se a atual gestão da prefeitura levar a cabo o projeto de privatização dos 22 cemitérios e do crematório da capital, proposta que, segundo pesquisa da “Folha de S. Paulo”, tem 53% de desaprovação dos paulistanos.

Para João Batista, num modelo de concessões e terceirizações, os salários tendem a cair e o preço dos serviços, a subir. Ele se preocupa com os valores que podem ser cobrados, sobretudo, da parcela da população que hoje dispõe da gratuidade dos serviços.

Batista levanta também a questão dos indigentes, hoje sepultados nos cemitérios de Perus e Vila Formosa. “Numa concessão, como serão tratados, por exemplo, os não identificados?”, questiona.

 

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