Terceira idade ocupa espaço cada vez maior no mercado de trabalho

Razões econômicas e vontade de continuar ativo explicam permanência

 Por: Ingrid Duarte, Julia Castello Goulart, Thalita Archangelo

Depois de se aposentar aos 70 anos, Oliveiros da Silva precisou apenas de dois anos em casa para perceber que precisava voltar ao mercado de trabalho. Desde então, há seis anos trabalhando como pintor em uma empresa no ramo da construção civil, Oliveiros não tem previsão de quando vai parar de trabalhar. “Não faço nem ideia de quando vou parar ou se vou parar um dia. As coisas do jeito que estão, não tem como parar agora não”. Oliveiros é mais um dos 4,5 milhões de idosos no mercado de trabalho atualmente, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostram que a taxa de desocupação dos trabalhadores mais velhos, com 59 anos ou mais, dobrou  entre 2015 e 2016, passando de 2,5% para 5,2%. Durante o ano de 2016, a população com mais de 59 anos considerada ocupada aumentou 1,1%, frente à alta de 2,7% de pessoas ingressantes na força de trabalho. No caso dos trabalhadores com idade entre 25 e 59 anos, observa-se que, enquanto o emprego recuou 1,4%, o número de pessoas aptas ao trabalho aumentou 1,2%.

A expectativa de vida e a proporção de idosos no Brasil estão subindo. De acordo com o IBGE em 2016, a expectativa é de 75,8 anos. Os estados com mais idosos são o Rio de Janeiro e o Rio Grande do Sul com 18,6% de suas populações dentro do grupo de 60 anos ou mais. O Amapá, por sua vez, é o estado com menor percentual de idosos, com 7,2% da população.

Mesmo quando aposentados, muitos idosos permanecem no mercado de trabalho ou retornam a ele, por vários motivos. Entre as razões, estão a necessidade de uma renda adicional, a ocupação do tempo ocioso ou o gosto pelo trabalho desenvolvido.

Para complementar a renda, Oliveiros acorda todos os dias às 5h e volta para casa apenas no fim do dia, por volta das 18h. Ele diz que fica cansado, mas é a única forma que encontrou para aumentar a renda mensal e complementar a aposentadoria que recebe do governo. “Contribuí a vida toda, agora é a hora de receber. É uma pena que esse valor não seja o suficiente para eu passar o mês. Ainda bem que tenho esse emprego em que estou agora. Fico pensando quem é jovem hoje. Além de receber pouco, quando se aposentar, vai demorar bastante tempo para a garotada conseguir ter o tempo de contribuição necessário com essa reforma que estão tentando fazer”.

     Oliveiros da Silva/ Foto: Flávio Silva

Oliveiros está se referindo à reforma da Previdência proposta pelo governo Temer, que, entre outras coisas, estabelece 15 anos de contribuição para que o contribuinte receba um benefício parcial, de 60% do valor. O cálculo aumenta o valor da aposentadoria conforme os anos de contribuição, até chegar à aposentadoria integral, com 40 anos de trabalho. A proposta foi engavetada depois da intervenção federal no Rio de Janeiro, que impossibilitou mudanças na Constituição.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) defende a meta do “envelhecimento ativo”, definido como o processo de otimização das oportunidades de saúde, participação e segurança, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida à medida que as pessoas ficam mais velhas. Com isso, ter um envelhecimento ativo é necessário, porém com qualidade de vida.

“Com a minha idade, o ideal seria eu ficar em casa o tempo todo, mas é importante também ser ativo, sair de casa, trabalhar . Eu gosto de trabalhar, porque, além de precisar para ajudar na renda, me manter ativo é importante. Tenho que aproveitar que tenho uma boa saúde”, afirma Oliveiros.

A advogada Dina Fernandes Chagas tem 67 anos e é aposentada desde os 45. Para ela, estar na ativa é essencial. Dina atualmente faz diversos trabalhos voluntários e não pretende parar: “Enquanto tiver capacidade, saúde  e puder andar, dirigir, estarei na ativa com ou sem remuneração, se Deus quiser”, comenta.

Ela conta que sempre trabalhou registrada e que depois da sua aposentadoria não teve carteira assinada. “Ninguém dá oportunidade digna ao cidadão com mais de 40 anos”, justifica.

  

As barreiras da aposentadoria

Maria Mônica Silva começou a trabalhar aos 18 anos com carteira assinada em um hospital em Minas Gerais. Saiu do estado e foi para São Paulo, onde estudou desenho industrial. Começou a trabalhar em uma loja de brinquedos, onde era responsável por criar bonecas. Jovem como era, não se preocupava em ter carteira assinada, até porque, segundo ela, não ser trabalhadora formal lhe dava menos amarras com o emprego, o que a fazia aproveitar uma maior liberdade na sua área profissional.

Trabalhou cerca de 23 anos sem contribuir para a previdência. Hoje, aos 59 anos, Maria trabalha como autônoma fazendo bonecas e, diferente da média brasileira, que se aposenta aos 58 anos, está longe de se aposentar. “Se eu tivesse minha carteira registrada, estaria aposentada desde o ano 2000, pois meu primeiro registro foi em 1977. Todos esses anos não me preocupei em contribuir, só agora comecei”, afirma.

Maria é o exemplo de pessoa que irá se aposentar pelo tempo de contribuição, já que não contribuiu anos seguidos para sua aposentadoria, não podendo nesse caso se aposentar pela idade mínima. Pelas regras atuais, o tempo de contribuição para homens é de 35 anos e das mulheres, de 30 anos. Já no caso da aposentadoria por idade mínima, são 15 anos de contribuição.

A advogada previdenciária Patricia Teodora explica que, além dessas duas formas mais conhecidas, existe a aposentadoria especial. “Ela é concedida ao trabalhador que exerce sua atividade profissional sujeito a risco à saúde, ou integridade física”, define. Neste caso, quando o risco for considerado grave, o tempo de contribuição é de 15 anos; quando é tido como médio, de 20 anos; e, por último, em trabalhos de risco leve, o tempo de contribuição sobe para 25 anos. Além disso, existe a aposentadoria por invalidez, quando o benefício é pago enquanto persistir a invalidez e o segurado pode ser reavaliado pelo INSS a cada dois anos.
Hoje, Maria depende inteiramente do seu trabalho para se manter, e diz que se arrepende por não ter pensado no futuro quando nova, e que deveria ter procurado empregos de carteira assinada que lhe permitiriam contribuir para sua aposentadoria.

A jornalista Mônica Paula Silva estava em uma situação parecida, mas decidiu largar um emprego sem carteira assinada para buscar um que lhe desse todas as garantias de um trabalho formal. “Sou de uma geração que dá um grande valor à estabilidade e segurança proporcionada pela CLT. Sendo celetista, temos férias remuneradas, fundo de garantia, multa de 40% na rescisão e pacote de benefícios, convênio médico, alimentação, transporte, o que faz grande diferença em um cenário de salários cada vez mais achatados”, comenta.  

Agora com um emprego formal, Mônica vai voltar a contribuir para a previdência. Este ano, ela completa 53 anos de idade e 33 de contribuição, com alguns intervalos que terá de compensar com a orientação de um advogado.

A trajetória de Maria e Mônica ilustra um dos fenômenos mais característicos do mercado de trabalho nos últimos meses: pela primeira vez, o número de trabalhadores informais superou o de trabalhadores com carteira assinada. Segundo o IBGE, no fim de 2017, de um total de 92,1 milhões de brasileiros ocupados, os trabalhadores informais (sem carteira ou por conta própria) representavam 37,1%. Eram, em números absolutos, 34,2 milhões de pessoas, contra 33,3 milhões que trabalhavam com carteira assinada. Isso levará muitas pessoas a, por falta de uma aposentadoria, continuar trabalhando na velhice, já que boa parte dos trabalhadores informais não contribuem para a previdência.

A advogada Patrícia observa que, mesmo na informalidade, todos “podem e devem” contribuir para o INSS, caso queiram receber os benefícios da aposentadoria pública. “Existe muitas vezes, uma confusão de pensar que só os trabalhadores formais podem contribuir”, afirma.

Mesmo não estando tão perto da aposentadoria como gostariam, Maria e Mônica afirmam que vão continuar trabalhando, mesmo depois de se aposentar. A autônoma Maria diz que seguirá trabalhando, mas que irá aproveitar mais sua idade viajando. Já a jornalista Mônica continuará trabalhando, pois considera insuficiente a renda proporcionada pela aposentadoria pública. “Também quero continuar sendo uma pessoa produtiva. A ideia é apenas reduzir o ritmo de trabalho”, diz.

        Artesanato feito por Maria Mônica/ Foto: arquivo pessoal

Meia-idade é considerada idosa para o mercado de trabalho

Há três anos desempregado, a falta de oportunidades e perspectivas de vaga assusta o estudante de publicidade Alberto Braga de 41 anos. “É difícil ficar desempregado porque tem várias contas para pagar e muitas cobranças, minha família sabe que está ruim para grande parte da população e me ajuda no que é possível”. Seu último trabalho fixo foi como operador de marketing, depois fez alguns bicos. “Essa incerteza de renda me assusta, um mês posso ter dinheiro, mas penso como vai ser o próximo”. Além da faculdade, o estudante está fazendo outros cursos para se profissionalizar e tentar um emprego, já que as justificativas para a não contratação são a idade e a falta de  experiência recente.

Patrícia Lino Costa, economista do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) diz que o mercado de trabalho está passando por uma ausência de vagas e opta por um perfil que geralmente contrata homens de até 25 anos com ensino médio completo. Nesses termos, pessoas mais velhas ficam para trás. “Por terem 40 anos ou mais geralmente possuem mais experiência e já ganharam mais e isso fazem com que sejam substituídos por pessoas mais jovens, com salários menores e que entendem mais de tecnologia”, afirma a supervisora do Dieese.

Pensando nessa faixa etária, o empresário Morris Loitrvak criou em 2014 o site Maturijobs, que tem o intuito de ajudar pessoas acima de 50 anos a encontrar uma oportunidade de emprego ou uma ocupação e atualizar seu perfil profissional. Sobre as 70 mil pessoas cadastradas no Brasil inteiro, Morris define: “São homens e mulheres com média de 57 anos, a maioria não está aposentada e por consequência desesperadas por não terem fonte de renda”. Ainda segundo o empresário, somente 30% das pessoas que utilizam o site são aposentadas.

É possível se inscrever gratuitamente através do link www.maturijobs.com. Caso queira participar de algum evento ou curso é necessário pagar uma taxa. As empresas que querem ser mais divulgadas pelo site também devem pagar. Ele lembra que a plataforma é só uma ponte entre as 700 empresas e os cadastrados. “Os números de empresas estão crescendo, mas ainda é tímido pelo número de pessoas que estão precisando ou querendo trabalhar e a empresa tem o desafio de tratar a diversidade etária”, afirma.

Visando um diálogo entre as gerações, o dono da página aponta: “Criamos uma cultura que valorize a sabedoria de quem já tem uma longa história de vida, o que é fundamental para quebrarmos o paradigma existente no mercado de trabalho atualmente onde os mais velhos são vistos simplesmente como obsoletos”.

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